Loïc Wacquant e “As prisões da miséria”

Loïc Wacquant é sociólogo, pesquisador e professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. Uma de suas principais obra é o livro “As prisões da miséria“, lançado no fim da década de 1990, onde o autor demonstra como se deu a adaptação – ou transposição – da ideologia da tolerância zero, que teve origem em Nova York, com as políticas de lei e ordem, para o contexto dos países europeus.

Loic Wacquant

Fonte: The Chronicle of Higher Education

Em síntese, Wacquant argumenta acerca da transformação do Estado social em um Estado penal, onde as proteções sociais às populações mais vulneráveis, através de programas de inclusão, emprego e subsistência, dão lugar a uma série de medidas de repressão a pequenas infrações e desvios, ocasionando uma espécie de criminalização da pobreza. Dessa forma, com a retórica da guerra ao crime e às drogas, e com o tratamento judiciário e policial da miséria, os Estados Unidos, primeiramente, e grande parte dos países europeus, na sequência, observam o crescimento exponencial de sua população carcerária.

Em 1999, Loïc Wacquant dizia: “Como nos Estados Unidos, o resultado da extensão da rede penal na Europa sobre todo o continente é que o superpovoamento das prisões pesa enormemente no funcionamento dos serviços correcionais e tende a relegar a prisão à sua função bruta de ‘depósito’ dos indesejáveis” (p.123). No Brasil, não parece ter sido diferente. O mais preocupante é que o sentimento político e social de boa parte dos brasileiros é que se intensifique algo já intensificado, ou seja, o endurecimento do Estado penal, em detrimento do Estado social. Uma armadilha ideológica complicada que segue capturando muita gente.

“Máquina varredora da precariedade, a instituição carcerária não se contenta em recolher e armazenar os (sub)proletários tidos como inúteis, indesejáveis ou perigosos, e, assim, ocultar a miséria e neutralizar seus efeitos mais disruptivos: esquece-se frequentemente que ela própria contribui ativamente para estender e perenizar a insegurança e o desamparo social que a alimentam e lhe servem de caução” (p.151).

Para quem se interessa pelo estudo das prisões e seus atravessamentos, essa é uma obra obrigatória na prateleira, já que aborda de forma sólida o perverso fenômeno do aumento da repressão policial, da intolerância aos pequenos desvios e do encarceramento em massa, enquanto componentes de uma sociedade que perpetua e aprofunda sua desigualdade social.

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Resumo: Por toda a Europa espalha-se a tentação, inspirada no modelo americano, de buscar apoio nas instituições policial e penitenciária para conter as desordens geradas pelo desemprego em massa, pela imposição do trabalho assalariado precário e pela retração da proteção salarial. E, por toda a América Latina, os políticos importam as técnicas agressivas de segurança “made in USA”, entre elas a da “tolerância zero”, como solução mágica para o problema crucial da violência criminal. Mas esta opção, que vai na direção contrária da consolidação de uma sociedade democrática, significaria (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os pobres. Ao conectar questão criminal e questão social, As prisões da miséria, publicado em 13 línguas, revoluciona os termos do debate sobre violência, justiça, política e prisões no Brasil e no mundo. Inclui prefácio do autor à edição brasileira.

As prisões da miséria mostra com talento como a desregulamentação da economia e a destruição do Estado social acarretam e exigem por toda parte o súbito fortalecimento do Estado policial e penal. Um livro capital para diagnosticar – e conter – a revolução neoliberal que redesenha a face do mundo.”
– Pierre Bourdieu

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