Mia Couto, Harper Lee, Lygia Fagundes Telles e os Livros de 2019

Entre leituras para o doutorado, busco sempre me manter lendo outras coisas não diretamente relacionadas às prisões, tanto para desanuviar de leituras “sérias”, quanto para, enfim, me divertir. Então, apesar de já ter falado sobre alguns dos livros lidos no ano que passou aqui no blog, vou indicar todos que me lembro, inclusive alguns que não tiveram tanto destaque por aqui, mas mereceriam. Vou começar pelos não indicados no blog, até então.

Mia Couto – Terra Sonâmbula (Companhia das letras, 2007)

Li este livro no formato eBook, no Kindle. Até o momento, é o único livro que li de Mia Couto, nascido em 05 de julho de 1955, em Moçambique. O autor possui uma obra extensa, publicada em mais de vinte países e traduzido para diversas línguas. Pela diferente forma com a qual é escrito e pelo universo distinto que nos apresenta, recomendo.

“Primeiro romance de Mia Couto, Terra Sonâmbula é uma verdadeira aula sobre a velha arte de contar histórias. No Moçambique pós-independência, mergulhado em uma devastadora guerra civil, um velho e um menino empreendem uma viagem recheada de fantasias míticas”.

Mia Couto Terra Sonambula“Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial (1965-75), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992. O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga, e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra”.

Harper Lee – O sol é para todos (José Olympio, 2006)

Publicado pela primeira vez na década de 1960, To Kill a Mockingbird é um dos maiores clássicos da literatura norte americana. É um daqueles livros para se ler antes de morrer. Harper Lee nasceu em 28 de abril de 1926 no Alabama e, até que um segundo livro escrito por ela fosse “encontrado e publicado” (existem incongruências sobre essa história), este livro era a sua única obra. Um detalhe que vale mencionar é que o título traduzido faz pouquíssimo sentido, talvez por esse motivo o título em inglês permaneça tão forte. Recomendo bastante a leitura.

Harper Lee Sol Para Todos“Um livro emblemático sobre racismo e injustiça e um dos maiores clássicos da literatura mundial. Um livro emblemático sobre racismo e injustiça: a história de um advogado que defende um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca nos Estados Unidos dos anos 1930 e enfrenta represálias da comunidade racista. O livro é narrado pela sensível Scout, filha do advogado. Uma história atemporal sobre tolerância, perda da inocência e conceito de justiça. O sol é para todos, com seu texto ‘forte, melodramático, sutil, cômico’ (The New Yorker) se tornou um clássico para todas as idades e gerações”.

 

Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas (Companhia das letras, 2014)

Já tive a oportunidade falar sobre Chimamanda Ngozi Adichie aqui no blog, quando indiquei o seu livro Americanah, um excelente romance carregado de questões raciais, políticas e sociais. “Sejamos todos feministas” é uma espécie de manifesto, muito acessível e necessário. Li na versão eBook, no Kindle. Leitura rápida e fundamental.

“Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977. Sua obra foi traduzida para mais de trinta línguas e apareceu em inúmeras publicações, entre elas a New Yorker e a Granta. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Orange Prize e o National Book Critics Circle Award. Vive entre a Nigéria e os Estados Unidos”

Chimamanda Sejamos Todos“O que significa ser feminista no século XXI? Por que o feminismo é essencial para libertar homens e mulheres? Eis as questões que estão no cerne de Sejamos todos feministas, ensaio da premiada autora de Americanah e Meio sol amarelo. “A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente. “Chimamanda Ngozi Adichie ainda se lembra exatamente da primeira vez em que a chamaram de feminista. Foi durante uma discussão com seu amigo de infância Okoloma. “Não era um elogio. Percebi pelo tom da voz dele; era como se dissesse: ‘Você apoia o terrorismo!'”. Apesar do tom de desaprovação de Okoloma, Adichie abraçou o termo e — em resposta àqueles que lhe diziam que feministas são infelizes porque nunca se casaram, que são “anti-africanas”, que odeiam homens e maquiagem — começou a se intitular uma “feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens”. Neste ensaio agudo, sagaz e revelador, Adichie parte de sua experiência pessoal de mulher e nigeriana para pensar o que ainda precisa ser feito de modo que as meninas não anulem mais sua personalidade para ser como esperam que sejam, e os meninos se sintam livres para crescer sem ter que se enquadrar nos estereótipos de masculinidade”.

Albert Camus – O estrangeiro (Record, 2019)

Sabe aqueles livros que você imagina que exista uma certa genialidade ali, mas que, por algum motivo, seja o momento, seja inabilidade, você não consegue capta-la? Esse é um deles, pelo menos para mim. É bom, tem bons momentos, mas o livro me marcou muito pouco, quem sabe um dia eu releia e entenda melhor a mensagem. De qualquer forma, recomendo por ser um clássico, talvez você usufrua melhor do que eu.

Albert Camus O Estrangeiro“Mais conhecida e importante obra de ficção de Albert Camus. Este livro narra a história de um homem comum que se depara com o absurdo da condição humana depois que comete um crime quase inconscientemente. Meursault, que vivia sua liberdade de ir e vir sem ter consciência dela, subitamente perde-a envolvido pelas circunstâncias e acaba descobrindo uma liberdade maior e mais assustadora na própria capacidade de se autodeterminar. Uma reflexão sobre liberdade e condição humana que deixou marcas profundas no pensamento ocidental. Uma das mais belas narrativas deste século”.

“Albert Camus foi um escritor, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta francês nascido na Argélia. Ele também atuou como jornalista militante envolvido na Resistência Francesa, situando-se próximo às correntes libertárias durante as batalhas morais no período pós-guerra. Seu profícuo trabalho inclui peças de teatro, novelas, notícias, filmes, poemas e ensaios onde ele desenvolveu um humanismo baseado na consciência do absurdo da condição humana e na revolta como uma resposta a esse absurdo”.

Lygia Fagundes Telles – As meninas (Companhia das letras, 2009)

Já havia colocado a escritora na minha lista há algum tempo, mas somente no segundo semestre do ano passado resolvi adquirir e ler um de seus livros mais conhecidos. Este também foi em eBook, no Kindle. Gostei bastante. Conhecendo o contexto dos eventos e se colocando no lugar das personagens a leitura realmente se torna uma pequena viagem no tempo. Lygia nasceu em 23 de abril de 1923, em São Paulo, e é considerada uma maiores escritoras brasileiras do século XX.

Lygia Fagundes As Meninas“Num pensionato de freiras paulistano, em 1973, três jovens universitárias começam sua vida adulta de maneiras bem diversas. A burguesa Lorena, filha de família quatrocentona, nutre veleidades artísticas e literárias. Namora um homem casado, mas permanece virgem. A drogada Ana Clara, linda como uma modelo, divide-se entre o noivo rico e o amante traficante. Lia, por fim, milita num grupo da esquerda armada e sofre pelo namorado preso. As meninas colhe essas três criaturas em pleno movimento, num momento de impasse em suas vidas. Transitando com notável desenvoltura da primeira pessoa narrativa para a terceira, assumindo ora o ponto de vista de uma ora de outra das protagonistas, Lygia Fagundes Telles constrói um romance pulsante e polifônico, que capta como poucos o espírito daquela época conturbada e de vertiginosas transformações, sobretudo comportamentais”.

“Obra de grande coragem na época de seu lançamento (1973), por descrever uma sessão de tortura numa época em que o assunto era rigorosamente proibido, As meninas acabou por se tornar, ao longo do tempo, um dos livros mais aplaudidos pela crítica e também um dos mais populares entre os leitores da autora”.

George Orwell – “1984” e “A Revolução dos Bichos” (Companhia das letras)

Em março de 2019, indiquei esses dois clássicos aqui no blog. Como havia dito, quando começamos a nos interessar por livros mais “políticos”, encontramos uma lista de obras indispensáveis produzidas por aí. Estes dois foram escritos por George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido em 1903 e morto 1950.

1984 (Companhia das Letras, 2007)

É o famoso livro do Grande Irmão, o Big Brother. Trata de uma sociedade de caráter totalitário, onde todos são vigiados e opiniões divergentes não são toleradas. É quase um experimento social e uma crítica a políticas autoritárias que buscam planificar os pensamentos e os indivíduos. São cerca de 340 páginas de história. Outras quinze ou vinte de um apêndice sobre a “Novafala”, o idioma oficial da nova nação, concebido para atender aos interesses ideológicos do regime. E três posfácios, igualmente interessantes e esclarecedores, escritos, respectivamente, em 1961, por Erich Fromm, em 1989, por Ben Pimlott, e em 2003, por Thomas Pynchon.

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A Revolução dos Bichos (Companhia das Letras, 2007)

Mais curto, com apenas cerca de 100 páginas de história, é um conto sobre poder, política e seres humanos, personificados nos animais. Abaixo, coloco a apresentação do livro, mas antes, quero destacar os dois prefácios escritos por George Orwell, inclusos nos apêndices da edição. O primeiro – A liberdade de imprensa – foi proposto pelo autor à primeira edição inglesa em 1945, mas acabou não sendo publicado. Exceto pelo contexto histórico e personagens envolvidos, o seu conteúdo é perfeitamente adequado ao que vivemos no mundo hoje, acrescido do fenômeno internet, redes sociais e desinformação. O segundo, trata-se de um prefácio escrito pelo autor à edição ucraniana, em 1947, e cita o contexto de origem do livro.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt – Como as democracias morrem (Zahar, 2018)

Lançado em agosto de 2018 no Brasil pela Zahar, no auge da campanha eleitoral, o livro escrito por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, ambos conceituados professores de Harvard, busca analisar um suposto fenômeno de enfraquecimento do regime democrático pelo mundo e o surgimento de tendências autoritárias em alguns sistemas políticos. O livro parte do recente caso norte-americano de ameaça aos valores democráticos para desenvolver os seus argumentos, mas não se restringe a ele, abordando também a atual onda populista de extrema-direita na Europa, as ditaduras militares na América Latina e resgatando, claro, a conhecida ascensão do nazismo e do fascismo com Hitler e Mussolini nos anos 1930.

como as democracias morremNa minha leitura, a obra serve para esclarecer o argumento dos que alertam quanto à ameaça à democracia no mundo e, recentemente, no Brasil, por explicar os pilares fundamentais de um regime democrático – a reserva institucional e a tolerância mútua – e os seus respectivos sistemas de freios e contrapesos, como os partidos políticos e os mecanismos de controle social, como a imprensa.

Se o livro tivesse sido escrito e lançado após as eleições de 2018, com certeza incluiriam o nosso presidente eleito no grupo das figuras potencialmente autoritárias. Digo “potencialmente” porque, como alertam os autores, nem sempre uma ameaça se concretiza, e isso dependerá fundamentalmente da força das instituições, da apropriação dos valores básicos da democracia pela sociedade em geral e diversos outros fatores.

Esther Solano (Org.) – O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil (Boitempo Editorial, 2018)

Organizado por Esther Solano, doutora em Ciências Sociais e professora na Unifesp, “O ódio como política” foi lançado também em 2018, durante o período eleitoral, pela Boitempo. Ao contrário do anterior, este livro é uma coletânea de artigos de estudiosos do campo progressista que tentam analisar o avanço dos movimentos de direita no Brasil. Mas não só de “direita”, de uma “nova direita”. Esse campo político ganha diversas expressões que buscam caracterizá-lo em seus elementos primordiais, como: onda conservadora, reacionarismo, fascismo e neoconservadorismo.

Ódio_150 x 225mm.inddAfinal, a polarização política que vivenciamos no Brasil é um fenômeno que precisa ser explicado, compreendido, analisado e trabalhado, para que ele não destrua o nosso sistema político e, consequentemente, o nosso convívio e a nossa democracia – da qual você saberá a importância, após a leitura da primeira dica. Ainda trabalhando com a possível eleição de um candidato de “extrema-direita”, posteriormente concretizada, os artigos abordam temas diversos e parecem não reagir ao ódio ou militar, mas compreender a origem da mudança que vem sendo operada no pensamento político e social nos últimos anos.

Antipetismo, o uso político das redes sociais, fundamentalismo religioso, anticomunismo, recessão democrática, migração da esperança frustrada para o ódio, militarização da vida e dinâmica do “nós contra eles” são apenas alguns dos elementos discutidos nos artigos. Para o leitor desavisado, o livro não se pretende neutro, mas garante sua honestidade intelectual e científica, o que garante uma leitura produtiva e crítica.

Byung-Chul Han – Sociedade do cansaço (Vozes, 2017)

Também já indicado na blog, sabemos neste livro que a sociedade do século XXI não é mais uma sociedade disciplinar, como caracterizava Michel Foucault, com seus hospitais, quartéis, asilos e presídios. O que temos, hoje, é uma sociedade do desempenho, onde todos são sujeitos de desempenho e produção, empresários de si mesmos, não apenas sujeitos obedientes. É o que nos diz Byung-Chul Han, proeminente filósofo sul-coreano.

Para além disso, vivemos em uma sociedade do esgotamento, onde a exploração de si por si mesmo, nos torna vítima e agressor de nossa própria capacidade, de forma deliberada, sem a necessidade de agentes externos aos quais devemos obedecer. Paradoxalmente, essa exploração caminha junto com o sentimento de liberdade e poder, por isso é tão mais eficiente, do ponto de vista das tecnologias de gestão. Isso pode soar familiar a nossa experiência de vida cotidiana e é por isso que o livro de Byung-Chul Han é tão preciso.

Nascido em Seul, na Coréia do Sul, em 1959, o filósofo Byung-Chul Han, professor na Universidade de Berlim, possui quase duas dezenas de livros e obra traduzidas para diversas línguas, fazendo com que suas reflexões tenham, atualmente, uma repercussão global. “Sociedade do cansaço” foi publicado originalmente em alemão em 2010 e traduzido para o português em 2015, contando com uma versão ampliada da Editora Vozes de 2017, a qual tenho em mãos.

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Para mim, a principal reflexão de Byung-Chul Han nesta obra é ressaltar como o excesso de positividade no mundo produz uma violência diferente da qual estamos habituados. Recomendo bastante.

Paulo Freire – Pedagogia da autonomia (Paz e Terra, 2019)

Também já indicado no blog, deixo dois trechos que separei à época e que representam muito bem o conteúdo deste livro que, para mim, é leitura obrigatória para quem se preocupa em desenvolver um pensamento crítico, transmiti-lo e incentivá-lo.

Dono de publicações como ‘Educação como prática de liberdade’ e ‘Pedagogia do oprimido’, Paulo Freire tem uma história que ainda preciso conhecer. Por enquanto, me limito a dizer que ‘Pedagogia da autonomia’ é um belo livro, com trechos maravilhosos, cujos princípios se alinham bastante com o que considero justo, ético e correto.

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Trata-se de um modelo educação progressista, que visa transformar a curiosidade essencial do ser humano em curiosidade metódica. rigorosa e crítica da realidade. Um modelo de educação que fala com o sujeito, e não ao sujeito, reconhecendo a capacidade de todos de serem sujeitos do conhecimento e produtores de saber. Um modelo que considera os seres humanos seres fundamentalmente inacabados, seres histórico-socioculturais e, por isso, cheios de possibilidades e esperança. Que pensa que devemos lutar para não sermos apenas objeto da história, mas sujeitos dela, nos tornando esperançosos por ‘exigência ontológica’.

“Está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças, contra a deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel altamente formador” (p. 41).

“Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado. A diferença entre o inacabado que não se sabe como tal e o inacabado que histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado” (p. 53).

Valter Hugo Mãe – “a máquina de fazer espanhóis” e “O filho de mil homens” (Biblioteca Azul)

Já recomendado também aqui no blog, Valter Hugo Mãe, nascido em 25 de setembro de 1971, ganhou reconhecimento público ao receber, em 2007, o Prêmio Literário José Saramago. É autor de vários livros de poesia, contos, romances e literatura infantil, além de cantor, com alguns álbuns lançados. Indiquei minhas duas primeiras leituras do autor, “O filho de mil homens” e “a máquina de fazer espanhóis”.

“O filho de mil homens” (Biblioteca Azul, 2016)

O romance foi lançado originalmente em 2011, sendo o quinto romance do escritor a ser trazido para o Brasil, em 2016, através da Biblioteca Azul, um selo da Globo Livros.

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Conforme a descrição do produto, “o livro reflete sobre o prazer do amor incondicional, que o ser humano parece buscar para preencher o que lhe falta. Pescador que vive em um vilarejo litorâneo, Crisóstomo, ao chegar aos 40 anos, sofre com o fato de não ter tido um filho e sai em sua busca. Desejava um herdeiro que pudesse, além de lhe aplacar a solidão, ser testemunha do que ele próprio se tornou, com as alegrias e tristezas de sua trajetória. A todas as fantasias patriarcais contidas na obra, Mãe contrapõe, segundo Manguel no prefácio, ‘outra mais nobre e concretizável: a fantasia de um filho de mil seres humanos, tanto homens como mulheres. A essa definição correspondemos todos’”.

“Porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. A Isaura sabia que amava alguém por vir, amava uma abstracção de alguém no futuro. Ela esperava o futuro, e esperar era já um modo de amar. Esperar era amar. Certamente, amava de um modo impossível o futuro.”

“a máquina de fazer espanhóis” (Biblioteca Azul, 2016)

Publicado em 2010 e trazido para o Brasil, também pela Biblioteca Azul, em 2016, cabe ressaltar que ele compõe o que se chama “tetralogia das minúsculas”, escritos, em sua integridade, sem letras capitais (maiúsculas), incluindo o nome do autor.

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O prefácio, escrito por Caetano Veloso, nos conta que “a escolha de escrever apenas com letras minúsculas radicaliza o método saramaguiano. Mas não só. É uma característica de muitos textos de vanguarda de minha geração”. Essa prática, inspirada na escrita de José Saramago, traz uma marca de liberdade e escolha estética, contribui para a fluência do texto.

Conforme descrição do produto, “No quarto romance do autor, António Jorge da Silva, barbeiro de 84 anos, é levado pela filha a viver em um asilo depois da morte de sua esposa. O que parece ser uma tragédia vai, no entanto, dando lugar à subjetividade do personagem, levando o leitor a verdades cortantes e arrebatadoras sobre o amor, a velhice, a política, o passado vivido durante o período militar imposto por Salazar e a própria literatura. É na fruição do contato com o outro, no caso de Silva, com os funcionários e pacientes do asilo, que acontece a possibilidade de redenção, tornando possível criar-se novas maneiras de viver”.

Richard Sennett – A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo (Record, 2015)

Recentemente indicado por aqui, Sennett, nascido em Chicago, nos Estados Unidos, em janeiro de 1943, é professor da London School of Economics, do Massachusetts Institute of Technology e da New York University. São muitas as suas obras, com especial destaque para The hidden injuries of class (1972) – os males ocultos do sistema de classe -, e, de certa forma, a continuação de sua análise dos trabalhadores, já em uma outra geração, produzida em The corrosion of character (1998) – A corrosão do caráter. Li o eBook, edição da Record, de 2015, para o kindle.

Basicamente, o estudo de Sennett busca discutir os efeitos produzidos pelo chamado “capitalismo flexível”, um novo capitalismo, que ataca principalmente as formas rígidas do trabalho e da rotina. O que Sennett dizia, em 1998, segue atual, como perceberão na seguinte constatação: “Pede-se aos trabalhadores que sejam ágeis, estejam abertos a mudanças a curto prazo, assumam riscos continuamente, dependam cada vez menos de leis e procedimentos formais” (Posição 50). Não lhe parece bastante familiar?

51oNugnrY0L._SX324_BO1,204,203,200_No entanto, a flexibilidade exigida dos trabalhadores mudou o próprio significado de carreira, como algo contínuo, em tempo linear, sendo comum, hoje em dia, nos referirmos aos ‘jobs‘ (serviço, emprego), como apenas parte de alguma coisa. Em tempos de terceirização de serviços e uberização das atividades, isso encontra-se ainda mais potencializado. Aliás, “diz-se que, atacando a burocracia rígida e enfatizando o risco, a flexibilidade dá às pessoas mais liberdade para moldar suas vidas. Na verdade, a nova ordem impõe novos controles, em vez de simplesmente abolir as regras do passado — mas também esses novos controles são difíceis de entender” (Posição 60).

José Saramago – As intermitências da morte (Companhia das letras, 2005)

“Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas”. É com esta e outras pérolas que José Saramago nos traz um livro instigante e muito peculiar, com reflexões sobre a vida, o sentido das coisas e a natureza de nossas instituições e comportamentos.

Afinal, é a partir da premissa “e no dia seguinte, ninguém morreu”, que o autor imagina um país, um povo e um tempo abandonados, ainda que temporariamente, pela morte. Sempre odiada e, habitualmente, indesejada, a morte sai de cena, trazendo a comemoração e o clamor público, a princípio, porém seguidos do caos e dos graves problemas que as suas férias produzem.

Intermitencias da morteTrago o resumo da obra: “Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto”, escreve José Saramago diante da representação tradicional da morte. Só mesmo um grande romancista para desnudar ainda mais a terrível figura. Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. E foi nela que o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel da Literatura buscou o material para seu novo romance, As intermitências da morte. Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema. Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder “passar desta para melhor”. Os empresários do serviço funerário se vêem “brutalmente desprovidos da sua matéria-prima”. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”. Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna? Ao fim e ao cabo, a própria morte é o personagem principal desta “ainda que certa, inverídica história sobre as intermitências da morte”. É o que basta para Saramago, misturando o bom humor e a amargura, tratar da vida e da condição humana. Já indicado por aqui, você pode ler o post completo.

Loïc Wacquant – As prisões da miséria (Zahar, 2001)

Por último, vamos de leitura sobre as prisões? Loïc Wacquant é sociólogo, pesquisador e professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. Uma de suas principais obra é o livro “As prisões da miséria“, lançado no fim da década de 1990, onde o autor demonstra como se deu a adaptação – ou transposição – da ideologia da tolerância zero, que teve origem em Nova York, com as políticas de lei e ordem, para o contexto dos países europeus.

Em síntese, Wacquant argumenta acerca da transformação do Estado social em um Estado penal, onde as proteções sociais às populações mais vulneráveis, através de programas de inclusão, emprego e subsistência, dão lugar a uma série de medidas de repressão a pequenas infrações e desvios, ocasionando uma espécie de criminalização da pobreza. Dessa forma, com a retórica da guerra ao crime e às drogas, e com o tratamento judiciário e policial da miséria, os Estados Unidos, primeiramente, e grande parte dos países europeus, na sequência, observam o crescimento exponencial de sua população carcerária.

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Resumo: Por toda a Europa espalha-se a tentação, inspirada no modelo americano, de buscar apoio nas instituições policial e penitenciária para conter as desordens geradas pelo desemprego em massa, pela imposição do trabalho assalariado precário e pela retração da proteção salarial. E, por toda a América Latina, os políticos importam as técnicas agressivas de segurança “made in USA”, entre elas a da “tolerância zero”, como solução mágica para o problema crucial da violência criminal. Mas esta opção, que vai na direção contrária da consolidação de uma sociedade democrática, significaria (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os pobres. Ao conectar questão criminal e questão social, As prisões da miséria, publicado em 13 línguas, revoluciona os termos do debate sobre violência, justiça, política e prisões no Brasil e no mundo. Inclui prefácio do autor à edição brasileira.

Por hoje, é só. Em 2021 volto para listar os livros de 2020. Boas leituras!

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