Ciência e Profissão lança número dedicado ao Sistema Prisional e à Segurança Pública

A revista Psicologia: Ciência e Profissão publicou, recentemente, um dossiê dedicado ao Sistema Prisional e à Segurança Pública. Em seu editorial, os editores convidados Anna Paula Uziel, Andrea Cristina Coelho Scislesk, João Paulo Pereira Barros e Pedro Paulo Gastalho de Bicalho indicam que “problematizar as questões sociopolíticas do país e as implicações dos saberes e fazeres da Psicologia neste contexto, em uma perspectiva de defesa irrestrita da democracia, requer a discussão acerca das malhas do sistema prisional e da segurança pública, suas dinâmicas psicossociais e seus efeitos” (UZIEL et al, 2018, p.3).

Como bem ressaltam os editores, falar de prisões e segurança pública é falar de política, basicamente. Em meio à escalada da violência e do encarceramento em massa, observamos, entretanto, a desqualificação do campo dos direitos humanos e a aposta em projetos de facilitação do armamento, endurecimento de penas e execução policial justificada e defendida publicamente, em prol de determinadas pessoas de bem. Políticas de segurança baseadas em evidências têm sido deixadas de lado e debates sérios e qualificados estão em falta.

Ciencia Profissao Manicomio 2

É nesse sentido que o dossiê trazido pela revista do Conselho Federal de Psicologia vem quebrar com a lógica de discussões superficiais e apresentar pesquisas comprometidas em “vislumbrar algumas possibilidades de resistência e enfrentamento a retrocessos nos campos postos em discussão” (p.4).

Felizmente, pude contribuir com o artigo – derivado da minha dissertação – Manicômio Judiciário e Agentes Penitenciários: entre Reprimir e Cuidar (p.144-158), no qual a tive oportunidade de ampliar a discussão trazida anteriormente com o artigo sobre a ambivalência do hospital psiquiátrico e judiciário e o trabalho dos agentes penitenciários, publicado na Revista Brasileira de Ciências Criminais.

Diferentemente do artigo anterior, onde focava na ambivalência hospital-prisão e preso-paciente, neste segundo trabalho derivado da pesquisa de mestrado, pude abordar quatro categorias de análise dos resultados. São elas: a escolha da profissão e a representação da atividade; o cuidado e a relação humanizada com os presos-pacientes que diferenciam o trabalho desses agentes do trabalho na prisão convencional; e os riscos psicossociais, fruto da exigência psicológica da atividade e do impacto da rotina sobre os trabalhadores.

Ciencia Profissao Manicomio

Resumo: Os manicômios judiciários são instituições destinadas a acolher pessoas que cometem crimes e que, por motivo de doença ou deficiência mental, são consideradas inimputáveis, também tratadas como “louco infrator” ou “paciente judiciário”. O presente artigo, baseado em pressupostos críticos da Psicologia do Trabalho, discute resultados obtidos a partir de uma pesquisa de mestrado em um manicômio judiciário de Minas Gerais. O estudo buscou compreender a atividade dos agentes penitenciários, responsáveis por garantir a ordem e a segurança do estabelecimento e de todos os indivíduos ali presentes. Constatou-se que sua atividade não se restringe à segurança, mas que abrange o cuidado, o envolvimento afetivo e a preocupação com os indivíduos custodiados naquela instituição. Se o trabalho de agente penitenciário é socialmente marginalizado, verificou-se que ele é valorizado pelos sujeitos que o executam, mesmo que estes se deparem com a ambivalência inerente à natureza do manicômio judiciário. Entre a prescrição de reprimir e o apelo a cuidar, os agentes enfrentam uma realidade marcada pelo duplo sofrimento do paciente judiciário: o rótulo da loucura e a privação da liberdade.

Palavras-Chave: Sistema Prisional; Loucura; Psicologia do Trabalho; Manicômio Judiciário; Agente Penitenciário

Convido todos a lerem esse número especial que traz, além do meu trabalho, pesquisas sobre o encarceramento feminino, práticas de saúde e cuidado em unidades prisionais, políticas de segurança e a discussão sobre os jovens em conflito com a lei. Acesse a edição completa aqui.

Leia também:

Referências

Uziel, A. P., Scisleski, A. C. C; Barros, João Paulo Pereira; Bicalho, P. P. G. (2018). Sistema Prisional e Segurança Pública: Inquietações e Contribuições da/à Psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(n.spe.2), 3-9. https://doi.org/10.1590/1982-3703000122018

Quero saber a sua opinião. Deixe o seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.