Leia “1984” e “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell

Quando começamos a nos interessar por livros mais “políticos”, encontramos uma lista de obras indispensáveis produzidas por aí. Há alguns meses, por recomendação paterna, que decidiu embarcar nesse caminho de leituras “política e sociedade” recentemente, peguei esses dois clássicos pra ler: 1984 e A Revolução dos Bichos, ambos escritos por George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido em 1903 e morto 1950. Você já deve ter ouvido falar dele.

George Orwell

George Orwell (1903-1950)

Por se tratar de livros antigos e muito conhecidos, não vejo necessidade de tecer muitos comentários sobre eles. Nem acho que sou gabaritado pra isso. Já existem inúmeras análises. O objetivo é apenas indicá-los, porque ambos são excepcionais e merecem o destaque que possuem. Então, aí vai.

1984 (Companhia das Letras, 2007)

É o famoso livro do Grande Irmão, o Big Brother. Trata de uma sociedade de caráter totalitário, onde todos são vigiados e opiniões divergentes não são toleradas. É quase um experimento social e uma crítica a políticas autoritárias que buscam planificar os pensamentos e os indivíduos. São cerca de 340 páginas de história. Outras quinze ou vinte de um apêndice sobre a “Novafala”, o idioma oficial da nova nação, concebido para atender aos interesses ideológicos do regime. E três posfácios, igualmente interessantes e esclarecedores, escritos, respectivamente, em 1961, por Erich Fromm, em 1989, por Ben Pimlott, e em 2003, por Thomas Pynchon.

Orwell 2

Apresentação da editora: “Publicada originalmente em 1949, a distopia futurista 1984 é um dos romances mais influentes do século XX, um inquestionável clássico moderno. Lançada poucos meses antes da morte do autor, é uma obra magistral que ainda se impõe como uma poderosa reflexão ficcional sobre a essência nefasta de qualquer forma de poder totalitário”.

“Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O’Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que “só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro”.

Quando foi publicada em 1949, poucos meses antes da morte do autor, essa assustadora distopia datada de forma arbitrária num futuro perigosamente próximo logo experimentaria um imenso sucesso de público. Seus principais ingredientes – um homem sozinho desafiando uma tremenda ditadura; sexo furtivo e libertador; horrores letais – atraíram leitores de todas as idades, à esquerda e à direita do espectro político, com maior ou menor grau de instrução. À parte isso, a escrita translúcida de George Orwell, os personagens fortes, traçados a carvão por um vigoroso desenhista de personalidades, a trama seca e crua e o tom de sátira sombria garantiram a entrada precoce de 1984 no restrito panteão dos grandes clássicos modernos.

Algumas das ideias centrais do livro dão muito o que pensar até hoje, como a contraditória Novafala imposta pelo Partido para renomear as coisas, as instituições e o próprio mundo, manipulando ao infinito a realidade. Afinal, quem não conhece hoje em dia “ministérios da defesa” dedicados a promover ataques bélicos a outros países, da mesma forma que, no livro de Orwell, o “Ministério do Amor” é o local onde Winston será submetido às mais bárbaras torturas nas mãos de seu suposto amigo O’Brien.

Muitos leram 1984 como uma crítica devastadora aos belicosos totalitarismos nazifascistas da Europa, de cujos terríveis crimes o mundo ainda tentava se recuperar quando o livro veio a lume. Nos Estados Unidos, foi visto como uma fantasia de horror quase cômico voltada contra o comunismo da hoje extinta União Soviética, então sob o comando de Stálin e seu Partido único e inquestionável. No entanto, superando todas as conjunturas históricas – e até mesmo a data futurista do título -, a obra magistral de George Orwell ainda se impõe como uma poderosa reflexão ficcional sobre os excessos delirantes, mas perfeitamente possíveis, de qualquer forma de poder incontestado, seja onde for”.

Orwell Revolucao e 1984

A Revolução dos Bichos (Companhia das Letras, 2007)

Mais curto, com apenas cerca de 100 páginas de história, é um conto sobre poder, política e seres humanos, personificados nos animais. Abaixo, coloco a apresentação do livro, mas antes, quero destacar os dois prefácios escritos por George Orwell, inclusos nos apêndices da edição. O primeiro – A liberdade de imprensa – foi proposto pelo autor à primeira edição inglesa em 1945, mas acabou não sendo publicado. Exceto pelo contexto histórico e personagens envolvidos, o seu conteúdo é perfeitamente adequado ao que vivemos no mundo hoje, acrescido do fenômeno internet, redes sociais e desinformação. O segundo, trata-se de um prefácio escrito pelo autor à edição ucraniana, em 1947, e cita o contexto de origem do livro.

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Apresentação da editora: Verdadeiro clássico moderno, concebido por um dos mais influentes escritores do século XX, A revolução dos bichos é uma fábula sobre o poder. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais opressiva que a dos humanos.

Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista.

De fato, são claras as referências: o despótico Napoleão seria Stálin, o banido Bola-de-Neve seria Trotsky, e os eventos políticos – expurgos, instituição de um estado policial, deturpação tendenciosa da História – mimetizam os que estavam em curso na União Soviética.

Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que causaram constrangimento na época de sua publicação levaram A revolução dos bichos a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto.

Depois das profundas transformações políticas que mudaram a fisionomia do planeta nas últimas décadas, a pequena obra-prima de Orwell pode ser vista sem o viés ideológico reducionista. Mais de sessenta anos depois de escrita, ela mantém o viço e o brilho de uma alegoria perene sobre as fraquezas humanas que levam à corrosão dos grandes projetos de revolução política. É irônico que o escritor, para fazer esse retrato cruel da humanidade, tenha recorrido aos animais como personagens. De certo modo, a inteligência política que humaniza seus bichos é a mesma que animaliza os homens.
Escrito com perfeito domínio da narrativa, atenção às minúcias e extraordinária capacidade de criação de personagens e situações, A revolução dos bichos combina de maneira feliz duas ricas tradições literárias: a das fábulas morais, que remontam a Esopo, e a da sátira política, que teve talvez em Jonathan Swift seu representante máximo.

Boa leitura!

Uma resposta para “Leia “1984” e “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell

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