Por qual motivo ainda individualizamos o adoecimento no trabalho?

Talvez porque seja mais conveniente e porque estejamos mal acostumados. É mais fácil acreditar que a ‘falha’ está apenas na pessoa, não também no contexto. Pessoas são rapidamente trocadas, já contextos são mais difíceis de mudar. Contudo, é bastante ingênuo – e talvez perversamente despolitizador – acreditar que pessoas adoecem mentalmente no trabalho apenas por sua própria culpa ou responsabilidade.

Nos últimos dias, escutei um episódio do podcast Viracasacas, que escuto quase semanalmente, com o tema “Neoliberalismo e transtornos mentais”, e o tema da individualização do adoecimento voltou a me incomodar. Na verdade, a discussão feita no episódio por Gabriel Divan, Felipe Abal e Caio Maximino, vai no sentido oposto, ou seja, busca problematizar e trazer à tona a conexão entre nossa organização política, social e econômica e o que chamamos de transtornos mentais. Recomendo que escutem. Inclusive, já indiquei alguns episódios deste e de outros podcasts em outro post no blog, particularmente sobre o tema “trabalho”.

Por hábito e conveniência, parece que temos uma espécie de reação automática ao percebermos ou termos contato com o adoecimento alheio. Essa reação se traduz em indagar o que, na história individual daquela pessoa, no seu comportamento ou em sua composição biológica, lá em seu DNA, provocou, produziu ou favoreceu aquele quadro de adoecimento. No entanto, trata-se, equivocadamente, tanto de um costume naturalizado, quanto uma perspectiva reducionista do fenômeno.

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Afinal, no caso dos transtornos mentais, o nexo causal não é nem um pouco simples, e reduzir o surgimento de um transtorno a fraqueza individuais, desequilíbrios químicos no cérebro ou falta de força vontade é bastante desonesto, principalmente do ponto de vista científico. Quando envolvemos o trabalho, então, não poderia ser diferente, como já nos indicou Maria Elizabeth Antunes Lima neste artigo.

Parece haver, como em muitas análises no mundo do trabalho, uma forte tendência individualizante dos fatos. Não é a sua empresa que estabelece prazos inalcançáveis, que trata a educação como uma mercadoria ou não lhe oferece estrutura decente para trabalhar. É você que anda estressado demais e precisa aprender a relaxar. Durma bem, alimente-se e descanse um pouco. Não tem nada de errado por aqui.

Ironias à parte, estabelecer quadros sintomáticos é fundamental para reconhecermos o adoecimento no trabalho, no entanto, não podemos deixar escapar aos nossos olhares atentos todos os fatores envolvidos e colocar o fardo no colo dos sujeitos acometidos. Afinal, a organização do trabalho, o sentido atribuído ao trabalho e a autonomia são fatores determinantes quando se discute adoecimento mental no trabalho, como já verificaram Christophe Dejours e Yves Clot, por exemplo.

Então, por qual motivo ainda me incomodo? Porque sei como a individualização do sofrimento e a culpabilização das pessoas em relação à sua própria situação de vida é uma narrativa que, apesar de perversa e generalista, é igualmente cativante e disseminada. Digo por mim mesmo, que, apesar de estudar perspectivas críticas sobre relação entre trabalho, saúde e subjetividade, ainda me pego recorrendo a simplificações. Afinal, em um mundo onde a meritocracia e o sucesso dos empreendedores de si mesmos é algo supervalorizado e alardeado, que espaço teríamos para incluir um ingrediente de contexto sócio-histórico nessa mistura? Como explicar que, muitas vezes, precisamos modificar o ambiente e os processos, não os indivíduos? Como não cair em uma Psicologia ‘adequacionista’?

No último Colóquio Internacional de Clínica da Atividade, realizado em Bragança Paulista, no fim de 2019, e no qual estive presente, uma das palestrantes em algum momento do qual não me lembro mais, indicou que cometíamos um erro comum ao pensar indivíduo e sociedade – para essa discussão, uma boa dica é “A sociedade dos indivíduos”, do Norbert Elias. De um lado, ficávamos nós, os psicólogos, cuidando e estudando o indivíduo. De outro, sociólogos e cientistas sociais se debruçavam sobre a sociedade. Contudo, parecia, por alguns momentos, que ninguém se detinha no hífen existente na conexão ‘indivíduo-sociedade’, onde, afinal, tudo acontece. Afinal, só existimos na relação, no eu-tu-nós, sendo produto e produtor, criação e criador.

Considerando o aumento da incidência de transtornos mentais em nossa sociedade, localizados entre os principais motivos de afastamento do trabalho [1], a grande presença da depressão entre os brasileiros [2] e também a tendência crescente de suicídios [3], cabe relembrar o que nos diz Byung-Chul Han, proeminente filósofo sul-coreano. Vivemos em uma sociedade do esgotamento, onde a exploração de si por si mesmo, nos torna vítima e agressor de nossa própria capacidade, de forma deliberada, sem a necessidade de agentes externos aos quais devemos obedecer. É uma violência que provém do igual e que resulta da superprodução e do superdesempenho, internalizada como cobrança e necessidade sem respectiva gratificação e reconhecimento do outro pelo esforço. As principais patologias citadas por Han são a depressão e a síndrome de burnout (sobre esse quadro, indico este texto).

No que se refere ao mundo do trabalho, em particular, Richard Sennett foi preciso ao discutir os efeitos produzidos pelo chamado “capitalismo flexível”, um novo capitalismo, que ataca principalmente as formas rígidas do trabalho e da rotina. Sennett, ao se deter sobre o problema do caráter no capitalismo moderno, afirma que “há história, mas não narrativa partilhada de dificuldade, e portanto tampouco destino partilhado […] Nessas condições, o caráter se corrói; a pergunta “Quem precisa de mim?” não tem resposta imediata” (Posições 2480 e 2481).

Quanto às novas configurações do trabalho, Maristela Pereira, Professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), enxerga o adoecimento como um processo sócio-histórico: “o sujeito adoece essencialmente pela forma de inserção no mundo produtivo. Por isso, devem ser pensadas intervenções não apenas sobre o indivíduo, mas nas formas de organização do trabalho” (p.6). Observamos que as empresas adotam muitas práticas no sentido de a pessoa praticar atividades físicas, ter uma alimentação saudável, reduzir o consumo de álcool e parar de fumar, por exemplo, como se isso fosse promover ou garantir a saúde no trabalho, deixando de lado mudanças no contexto laboral. Na opinião de Maristela, “nesse cenário, é como se a culpa pelo adoecimento fosse do sujeito, e ele é abandonado à própria mercê depois de instalada a patologia” (p.9).

Frente a tantas mudanças tecnológicas e políticas, como reduzir as “novas formas de adoecimento” ao âmbito pessoal, relegando apenas aos indivíduos a responsabilidade por não se adaptar a um mundo em constante mudança? Pessoas das quais se cobra apenas a demonstração da felicidade e do sucesso, não da tristeza e do sofrimento, tão comum e marcante em nossa natureza humana. Como delegar apenas ao indivíduo a responsabilidade por suas conquistas e fracassos em um país tão desigual como o nosso, onde, além de absurdas diferenças econômicas, lidamos com desigualdades de gênero e com estruturas políticas tão obscuramente vinculadas aos poder econômico?

Claro, não devemos excluir o indivíduo da equação. Ele nunca estará ausente. Porém, contra as leituras homogêneas da realidade, é necessário se precaver quanto a visões reducionistas dos transtornos mentais, principalmente no que tange aos afastamentos do trabalho. Há maior ou menor resiliência entre indivíduos? Sim. Há quem possua mais ou menos recursos para lidar com as adversidades? Também. Mas, lembre-se que é necessário discutir o trabalho situado, ou seja, uma atividade situada em um local e tempo históricos. Trabalho não é algo que existe descolado de nossa realidade. Pelo contrário, é principalmente por meio do trabalho que nos confrontamos com os obstáculos do mundo real e temos a oportunidade de transformar o mundo e a nós mesmos. Trabalho é individual, social e político.

Lembre-se dos estudos de Louis Le Guillant, com as telefonistas. Conheça novas perspectivas. Saiba identificar, reduzir ou até eliminar os riscos psicossociais do trabalho. Estude o Boletim Epidemiológico da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador, que, além de trazer diversos dados muito relevantes, considera que “a promoção de ambientes de trabalho saudáveis, com relações entre colegas fundadas no respeito, solidariedade, compaixão e gentileza, é tarefa desafiadora, mas possível, apesar dos tempos de hoje serem pautados pela banalização da violência e do ódio”.

Leia também:

[1] Transtornos mentais estão entre as maiores causas de afastamento do trabalho: https://www.anamt.org.br/portal/2019/04/22/transtornos-mentais-estao-entre-as-maiores-causas-de-afastamento-do-trabalho/

[2] Com mais de 12 milhões de doentes, Brasil é o país mais deprimido da América Latina, aponta OMS: https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/com-mais-de-12-milh%C3%B5es-de-doentes-brasil-%C3%A9-o-pa%C3%ADs-mais-deprimido-da-am%C3%A9rica-latina-aponta-oms-1.738504

[3] Na contramão da tendência mundial, taxa de suicídio aumenta 7% no Brasil em seis anos: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/09/10/na-contramao-da-tendencia-mundial-taxa-de-suicidio-aumenta-7percent-no-brasil-em-seis-anos.ghtml

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