Richard Sennett e a corrosão do caráter

É necessário que, quando discutamos sobre trabalho, falemos sobre o trabalho situado, ou seja, uma atividade situada em um local e tempo históricos. Trabalho não é algo que existe descolado de nossa realidade. Pelo contrário, é principalmente por meio do trabalho que nos confrontamos com os obstáculos do mundo real e temos a oportunidade de transformar o mundo e a nós mesmos.

Portanto, é habitual que problematizemos os impactos que determinadas atividades e contextos de trabalho produzem sobre os indivíduos. Afinal, nossa sociedade possui uma forte divisão moral, não só em seus costumes, posições sociais e comportamentos, mas do trabalho. Ao prestígio de determinadas profissões podemos contrapor o asco produzido por outras. Então, lidamos sempre com uma atividade também moralmente situada e esta, definitivamente, sempre mobiliza nossos debates de valores e princípios abstratamente internos.

Essa introdução serve apenas para ressaltar a importância de uma obra já conhecida nos meios de estudo e prática sobre o trabalho. Estamos falando de A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo, escrito pelo sociólogo norte-americano Richard Sennett.

Richard Sennet Perfil

Sennett, nascido em Chicago, nos Estados Unidos, em janeiro de 1943, é professor da London School of Economics, do Massachusetts Institute of Technology e da New York University. São muitas as suas obras, com especial destaque para The hidden injuries of class (1972) – os males ocultos do sistema de classe -, e, de certa forma, a continuação de sua análise dos trabalhadores, já em uma outra geração, produzida em The corrosion of character (1998) – A corrosão do caráter. Aqui, trarei a discussão a partir da edição da Record, de 2015, para o kindle.

Basicamente, o estudo de Sennett busca discutir os efeitos produzidos pelo chamado “capitalismo flexível”, um novo capitalismo, que ataca principalmente as formas rígidas do trabalho e da rotina. O que Sennett dizia, em 1998, segue atual, como perceberão na seguinte constatação: “Pede-se aos trabalhadores que sejam ágeis, estejam abertos a mudanças a curto prazo, assumam riscos continuamente, dependam cada vez menos de leis e procedimentos formais” (Posição 50). Não lhe parece bastante familiar?

51oNugnrY0L._SX324_BO1,204,203,200_No entanto, a flexibilidade exigida dos trabalhadores mudou o próprio significado de carreira, como algo contínuo, em tempo linear, sendo comum, hoje em dia, nos referirmos aos ‘jobs‘ (serviço, emprego), como apenas parte de alguma coisa. Em tempos de terceirização de serviços e uberização das atividades, isso encontra-se ainda mais potencializado. Aliás, “diz-se que, atacando a burocracia rígida e enfatizando o risco, a flexibilidade dá às pessoas mais liberdade para moldar suas vidas. Na verdade, a nova ordem impõe novos controles, em vez de simplesmente abolir as regras do passado — mas também esses novos controles são difíceis de entender” (Posição 60).

Segundo Sennett, “é bastante natural que a flexibilidade cause ansiedade: as pessoas não sabem que riscos serão compensados, que caminhos seguir” (Posição 60). Ao definir caráter como “os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros que os outros nos valorizem”, sendo expresso pelo “aspecto a longo prazo de nossa experiência emocional”, “sentimentos sustentáveis” e “pela prática de adiar a satisfação em troca de um fim futuro”, o autor questiona:

Como decidimos o que tem valor duradouro em nós numa sociedade impaciente, que se concentra no momento imediato? Como se podem buscar metas de longo prazo numa economia dedicada ao curto prazo? Como se podem manter lealdades e compromissos mútuos em instituições que vivem se desfazendo ou sendo continuamente reprojetadas? (Posição 71)

Para discutir trabalho e caráter, o autor informa que recorreu “mais a fontes diversas e informais, incluindo dados econômicos, narrativas históricas e teorias sociais”, examinando a vida diária à sua volta, aplicando “ideias filosóficas” às experiências concretas de indivíduos, ao considerar que “uma ideia precisa suportar o peso da experiência concreta, senão se torna mera abstração” (Posição 83).

O livro possui uma dinâmica agradável e, em grande parte do tempo, pode ser lido como literatura, mais que como estudo. Ao dividir o livro em oito capítulos, Sennett traz uma narrativa que mistura elementos reflexivos com o depoimento de personagens reais, assim como construções teóricas, por exemplo, de Max Weber, Mark Granovetter, Diderot e Adam Smith.

Não consigo evitar estabelecer conexões com o que é discutido por Richard Sennett aqui e o que é trazido por Byung-Chul Han, em seu Sociedade do cansaço, sobre o qual já falei no blog. Ambos discutem uma sociedade com mudanças profundas em sua organização e mecanismos de controle, e que produzem processos de subjetivação ainda, em parte, insondáveis. Como nos alerta o autor, “é uma ilusão acreditar que quanto mais ativos nos tornamos tanto mais livres seríamos” (p.53), assim como “o cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando” (p.71).

Afinal, vivemos produzindo narrativas isoladas, não compartilhadas, por mais que pensemos compartilhar, hoje, mais do que nunca, nossas intimidades, pensamentos, experiências e opiniões, gerando uma falsa sensação de coletividade e união. Para isso, ler e produzir crítica sobre a realidade, é uma forma de combater experiências de vida apáticas ou superficiais, e entender os novos modos de adoecimento e subjetividades.

Como fiz no texto sobre o livro de Byung-Chul Han, deixo alguns destaques que fiz ao longo da leitura e a recomendação para que coloquem esta obra em sua lista. Para quem busca compreender e atuar nas relações entre trabalho, saúde e subjetividade, este é um livro obrigatório:

“Como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações sociais duráveis? Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos?” (Posição 318).

“As condições de tempo no novo capitalismo criaram um conflito entre caráter e experiência, a experiência do tempo desconjuntado ameaçando a capacidade das pessoas transformar seus caracteres em narrativas sustentadas” (Posição 395).

“O que é singular na incerteza hoje é que ela existe sem qualquer desastre histórico iminente; ao contrário, está entremeada nas práticas cotidianas de um vigoroso capitalismo. A instabilidade pretende ser normal, o empresário de Schumpeter aparecendo como o Homem Comum ideal. Talvez a corrosão de caracteres seja uma consequência inevitável. ‘Não há mais longo prazo’ desorienta a ação a longo prazo, afrouxa os laços de confiança e compromisso e divorcia a vontade do comportamento” (Posição 403).

“A separação de casa e trabalho é, dizia Smith, a mais importante de todas as modernas divisões de trabalho” (Posição 488).

“No progresso da divisão de trabalho, o emprego da parte muito maior daqueles que vivem do trabalho… passa a limitar-se a umas poucas operações muito simples; frequentemente uma ou duas… O homem que passa a vida realizando umas poucas operações simples… em geral se torna tão estúpido e ignorante quanto é possível tornar-se uma criatura humana” (Posição 505).

“A ética do trabalho é a arena em que mais se contesta hoje a profundidade da experiência. A ética do trabalho, como a entendemos comumente, afirma o uso autodisciplinado de nosso tempo e o valor da satisfação adiada” (Posição 1603).

“Num mundo de trabalho estilo roleta, as máscaras de cooperatividade estão entre os únicos cabedais que os trabalhadores levam consigo de uma tarefa para outra, de uma empresa para outra — janelas de aptidão social cujo “hipertexto” é um sorriso cativante. Se esse treinamento de recursos humanos é apenas uma encenação, trata-se, porém, de uma questão de simples sobrevivência” (Posição 1862).

“Esse jogo de poder sem autoridade na verdade gera um novo tipo de caráter. Em lugar do homem motivado, surge o homem irônico […] Uma visão irônica de si mesmo é a consequência lógica de viver no tempo flexível, sem padrões de autoridade e
responsabilidade” (Posições 1925 e 1929).

“Esse é o problema do caráter no capitalismo moderno. Há história, mas não narrativa partilhada de dificuldade, e portanto tampouco destino partilhado […] Nessas condições, o caráter se corrói; a pergunta “Quem precisa de mim?” não tem resposta imediata” (Posições 2480 e 2481).

Referências

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter – conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. 16ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2015 [formato eletrônico].

Richard Sennett – Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Sennett Acesso em 26 out. 2019.

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