Byung-Chul Han e a Sociedade do Cansaço

A sociedade do século XXI não é mais uma sociedade disciplinar, como caracterizava Michel Foucault, com seus hospitais, quartéis, asilos e presídios. O que temos, hoje, é uma sociedade do desempenho, onde todos são sujeitos de desempenho e produção, empresários de si mesmos, não apenas sujeitos obedientes. É o que nos diz Byung-Chul Han, proeminente filósofo sul-coreano.

Para além disso, vivemos em uma sociedade do esgotamento, onde a exploração de si por si mesmo, nos torna vítima e agressor de nossa própria capacidade, de forma deliberada, sem a necessidade de agentes externos aos quais devemos obedecer. Paradoxalmente, essa exploração caminha junto com o sentimento de liberdade e poder, por isso é tão mais eficiente, do ponto de vista das tecnologias de gestão. Isso pode soar familiar a nossa experiência de vida cotidiana e é por isso que o livro de Byung-Chul Han é tão preciso.

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Nascido em Seul, na Coréia do Sul, em 1959, o filósofo Byung-Chul Han, professor na Universidade de Berlim, possui quase duas dezenas de livros e obra traduzidas para diversas línguas, fazendo com que suas reflexões tenham, atualmente, uma repercussão global. “Sociedade do cansaço” foi publicado originalmente em alemão em 2010 e traduzido para o português em 2015, contando com uma versão ampliada da Editora Vozes de 2017, a qual tenho em mãos.

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Para mim, a principal reflexão de Byung-Chul Han nesta obra é ressaltar como o excesso de positividade no mundo produz uma violência diferente da qual estamos habituados. Trata-se de uma violência que atua por um paradigma distinto do paradigma imunológico, que pressupõe a presença e a ameaça do outro, à qual reagimos. Não há um chefe ou um senhor dos escravos lhe dando chicotadas para que você produza mais. Como indica Corbanezi (2018), em sua resenha:

Em um aforismo sugestivo, o antropólogo estadunidense Marshall Sahlins sentencia: “[u]m povo que concebe a vida exclusivamente como busca da felicidade só pode ser cronicamente infeliz”. Do mesmo modo, ao juízo de Han, a lógica social parece inequívoca: a sociedade hiperativa do desempenho só pode produzir indivíduos estafados. Daí a epidemia de um sofrimento psíquico relacionado diretamente ao desempenho profissional, que captura todos os aspectos da vida humana. A síndrome de burnout , que precede a depressão, é a consequência lógica e patológica da autoexploração.

É uma violência que provém do igual e que resulta da superprodução e do superdesempenho, internalizada como cobrança e necessidade sem respectiva gratificação e reconhecimento do outro pelo esforço. As principais patologias citadas por Han são a depressão e a síndrome de burnout, enquanto exemplos adequados dessa forma de violência e adoecimento.

Vou deixar alguns trechos que recortei do livro, além de indicar que você leia na íntegra:

“Precisamente frente à vida desnuda, que acabou se tornando radicalmente transitória, reagimos com hiperatividade, com a histeria do trabalho e da produção. Também o aceleramento de hoje tem muito a ver com a carência de ser. A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são uma sociedade livre” (p.46).

“É uma ilusão acreditar que quanto mais ativos nos tornamos tanto mais livres seríamos” (p.53).

“No empuxo daquela positivação geral do mundo, tanto o homem quanto a sociedade se transformam numa máquina de desempenho autista” (p.56).

“O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando” (p.71).

“O sujeito de desempenho da modernidade tardia não se submete a nenhum trabalho compulsório. Suas máximas não são obediência, lei e cumprimento do dever, mas liberdade e boa vontade. Do trabalho, espera acima de tudo alcançar prazer. Tampouco se trata de seguir o chamado de um outro. Ao contrário, ele ouve a si mesmo. Deve ser um empreendedor de si mesmo” (p.83).

“Há que se admitir que o sujeito do desempenho não aceita sentimentos negativos, o que acabaria se condensando e formando um conflito. A coação por desempenho impede que eles venham à fala. Ele já não é capaz de elaborar o conflito, uma vez que esse processo é simplesmente por demais demorado. É muito mais simples lançar mão de antidepressivos que voltam a restabelecer o sujeito funcional e capaz de desempenho” (p.99).

“Hoje, vivemos numa época pós-marxista. No regime neoliberal a exploração tem lugar não mais como alienação e autodesrealização, mas como liberdade e autorrealização. Aqui não entra o outro como explorador, que me obriga a trabalhar e me explora. Ao contrário, eu próprio exploro a mim mesmo de boa vontade na fé de que possa me realizar. E eu me realizo na direção da morte. Otimizo a mim mesmo para a morte. Nesse contexto não é possível haver nenhuma resistência, levante ou revolução” (p.116).

“Nós nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox. Assim hoje, estamos por demais mortos para viver, e por demais vivos para morrer” (p.119).

Referências

Corbanezi, Elton. (2018). Sociedade do cansaço. Tempo Social30(3), 335-342. https://dx.doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2018.141124

Leia também:

Byung-Chul Han. Ensaísta feroz. Instituto Humanistas Unisinos. 2018.

Byung-Chul Han: “Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”. El país. 2018.

Síndrome de burnout: esgotamento profissional. Trabalho e Psicologia. 2018.

 

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