José Saramago e As intermitências da morte

“Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas”. É com esta e outras pérolas que José Saramago nos traz um livro instigante e muito peculiar, As intermitências da morte (Companhia das letras, 2005), com reflexões sobre a vida, o sentido das coisas e a natureza de nossas instituições e comportamentos.

Afinal, é a partir da premissa “e no dia seguinte, ninguém morreu”, que o autor imagina um país, um povo e um tempo abandonados, ainda que temporariamente, pela morte. Sempre odiada e, habitualmente, indesejada, a morte sai de cena, trazendo a comemoração e o clamor público, a princípio, porém seguidos do caos e dos graves problemas que as suas férias produzem.

Desde que li os dois livros de Valter Hugo Mãe, sobre os quais escrevi aqui no blog, estipulei que leria um livro do Saramago. Tinha uma leve impressão de que talvez tivesse lido Intermitências, à época dos vestibulares da vida, mas confirmei que não. Uma história curiosa é que, em 2007, Valter Hugo recebeu o Prêmio Literário José Saramago, sendo cravadas as seguintes palavras pelo próprio Saramago: “Por vezes, tive a sensação de assistir a um novo parto da Língua portuguesa”.

Para quem não o conhece, José Saramago nasceu em 1922, em Portugal, e se tornou o primeiro autor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel da Literatura, 1998, além de ter conquistado o Prêmio Camões, em 1995. Falecido em 2010, Saramago deixou uma extensa obra, sendo possível citar algumas, como: Ensaio sobre a cegueira (1995), O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e A Caverna (2000).

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Falemos, então, sobre As intermitências da morte. O livro, em minha opinião, pode ser dividido em duas partes. A primeira, trata da discussão acerca dos eventos que sucederam a partir do dia em que ninguém mais morreu. A alegria que se instala com a nova perspectiva da eternidade é logo substituída pela angústia trazida com a presença de “moribundos” que ‘simplesmente, não morrem’. A crise da igreja, dos serviços funerários, dos hospitais e das empresas de seguro de vida, por exemplo, somam-se às questões políticas e governamentais geradas por essa nova configuração da sociedade.

Se utilizando dos diálogos de forma contínua no texto, sem o uso de dois pontos, travessão e pontos de exclamação ou interrogação, a leitura é fluida, mas exige uma rápida adaptação ao estilo do autor. Saramago se coloca no lugar dos personagens, falando na primeira pessoa, mas se retira e narra os eventos também à distância. Como se não fosse suficiente, o autor conversa conosco, o leitor, nos convocando a participar daquele estranho exercício de escrever e dissertar livremente sobre a ausência da morte.

A segunda parte, para mim, se inicia quando passamos a acompanhar a própria morte, enquanto personagem, em suas reflexões e interações com o ‘nosso mundo’ e um personagem em particular, ‘o músico’. A ‘morte’, agora ‘humanizada’, se frustra, se preocupa e pondera suas ações, o que nos leva a acompanhar uma história à parte, entre dois personagens – a morte e o músico – bastante distinta do estilo anterior. É interessante como parece que estamos lendo um outro livro, de tão diferente é a experiência, igualmente prazerosa, de acompanhar ‘a morte’, em uma narração mais clássica.

Intermitencias da morteAntes de finalizar e deixar alguns trechos, trago o resumo da obra: “Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto”, escreve José Saramago diante da representação tradicional da morte. Só mesmo um grande romancista para desnudar ainda mais a terrível figura. Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. E foi nela que o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel da Literatura buscou o material para seu novo romance, As intermitências da morte. Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema. Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder “passar desta para melhor”. Os empresários do serviço funerário se vêem “brutalmente desprovidos da sua matéria-prima”. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”. Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna? Ao fim e ao cabo, a própria morte é o personagem principal desta “ainda que certa, inverídica história sobre as intermitências da morte”. É o que basta para Saramago, misturando o bom humor e a amargura, tratar da vida e da condição humana.

Para quem busca se divertir e refletir sobre o sentido da vida, da morte e da própria natureza, e sobre a razão de existir de algumas de nossas instituições, este livro é um prato cheio. Li no Kindle, portanto deixo alguns destaques com a respectiva posição. Voltarei a ler Saramago muito em breve.

“Não sou competente para formular juízos dessa natureza, eminência, viver com os meus próprios erros já me dá trabalho suficiente” (Posição 123).

“Desde o princípio que nós não temos feito outra cousa que contradizer a realidade, e aqui estamos” (Posição 137).

“Infelizmente, quando se avança às cegas pelos pantanosos terrenos da realpolitik, quando o pragmatismo toma conta da batuta e dirige o concerto sem atender ao que está escrito na pauta, o mais certo é que a lógica imperativa do aviltamento venha a demonstrar, afinal, que ainda havia uns quantos degraus para descer” (Posição 651).

“Fiando-se na tantas vezes louvada sabedoria do tempo, aquela que nos diz que sempre haverá um amanhã qualquer para resolver os problemas que hoje pareciam não ter solução” (Posição 889).

“Como já alguém disse, tudo o que possa suceder, sucederá, é uma mera questão de tempo, e, se não chegámos a vê-lo enquanto por cá andávamos, terá sido só porque não tínhamos vivido o suficiente” (Posição 961).

“Às vezes o estado não tem outro remédio que arranjar fora quem lhe faça os trabalhos sujos” (Posição 1027).

“E como as esperanças têm esse fado que cumprir, nascer umas das outras, por isso é que, apesar de tantas decepções, ainda não se acabaram no mundo” (Posição 2559).

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