Chimamanda Ngozi Adichie: Americanah, raça e gênero

Há alguns meses, venho buscando conhecer livros escritos por mulheres e essa iniciativa faz parte de uma tentativa de ocupar perspectivas diferentes e aprimorar a famosa empatia. No interior deste universo literário feminino, estão as obras escritas por mulheres negras, algumas das quais já falei sobre aqui no blog. Hoje falo sobre mais uma.

Americanah’ é um romance que foi publicado pela Companhia das Letras em 2014 e compõe a lista de produções da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, uma já premiada promessa, também famosa por um belo discurso sobre os perigos de uma única história, no TED Talks, que você pode assistir aqui embaixo.

A história se passa entre a Nigéria e os Estados Unidos e gira em torno da juventude e da vida adulta de Ifemelu, uma jovem que se muda para os Estados Unidos e se torna uma blogueira famosa, e Obinze, um jovem que constrói a sua vida em Lagos, na Nigéria, mas terá de lidar com a volta de seu primeiro amor, Ifemelu, anos mais tarde.

O caso de amor, no entanto, é quase colocado como pano de fundo para uma discussão honesta e atual sobre a desigualdade de gênero, o preconceito racial e a velha controvérsia acerca da tentativa de migração dos habitantes do Terceiro Mundo para os Países Desenvolvidos, como paraísos de oportunidades.

Logo de cara, é uma grande chance de desmistificar vários preconceitos com os quais crescemos sobre o continente africano, como se referir à África como um só país ou considerar que todos os africanos estão passando fome, dançando em suas tribos ou morrendo de AIDS.

Mas, além disso, é um choque de realidade para um homem branco de classe média como eu. Ora, eu poderia passar a minha vida inteira lendo livros e assistindo a filmes produzidos por outros homens brancos, principalmente vindos de países ‘desenvolvidos’, mas logo percebemos que a diversidade oferecida pela arte produzida por pessoas ‘muito parecidas conosco’ é extremamente limitada.

“Mas raça não é biologia; raça é sociologia. Raça não é genótipo; é fenótipo. A raça importa por causa do racismo. E o racismo é absurdo porque gira em torno da aparência. Não do sangue que corre nas suas veias. Gira em torno do tom da sua pele, do formato do seu nariz, dos cachos do seu cabelo”

Os personagens criados por Chimamanda desafiam estereótipos e nos levam a rir de nossa ignorância a respeito de um mundo que apenas achamos conhecer, mas não temos ideia de como seja. O enredo nos leva a querer visitar a Nigéria e outros países africanos, conversar com outras pessoas, ter acesso a outras culturas, não naquele sentido exótico de quando ansiamos ver pela primeira vez uma espécie de pássaro raro, mas no sentido de quebrar os padrões mórbidos de nossa rotina queixosa.

No Brasil, podemos dizer que conhecemos um certo grau de desigualdade social, que temos favelas ao lado de prédios luxuosos, que, paralelos a automóveis que mais parecem ônibus espaciais, estão mendigos ou crianças sujas pedindo esmola, mas ainda assim vivemos bastante imersos em nossa bolha, circulando apenas no interior de determinadas regiões das cidades. Cidade que chamamos de ‘nossa’.

Como lidamos com a diversidade racial? Que lugar dedicamos aos papéis masculinos e femininos em nossa sociedade? Como pensamos o nosso lugar, como habitantes de um país em desenvolvimento, em relação ao resto do mundo?

Além de uma prazerosa história de amor, ‘Americanah‘ traz um lugar de fala pouco comum na literatura, e o faz com muita qualidade. São quinhentas e vinte páginas de uma leitura rica. Recomendo. Compre o livro na amazon.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977. Sua obra foi traduzida para mais de trinta línguas e apareceu em inúmeras publicações, entre elas a New Yorker e a Granta. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Orange Prize e o National Book Critics Circle Award. Vive entre a Nigéria e os Estados Unidos (Fonte: Companhia das Letras).

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