Valter Hugo Mãe: entre máquinas de fazer espanhóis e filhos de mil homens

Há algum tempo, escrevi um comentário sobre o livro Homo Deus: uma breve história do amanhã, escrito por Yuval Noah Harari. Em um de seus principais argumentos, o autor israelense defende que, na era da internet, as máquinas, os sistemas e os algoritmos artificiais sabem – ou podem saber – mais sobre nós do que nós mesmos. Os algoritmos teriam, assim, o poder de produzir e controlar desejos e vontades.

Essa pequena introdução é apenas para explicar como cheguei até o autor Valter Hugo Mãe, nome artístico do escritor e editor português Valter Hugo Lemos: através dos algoritmos da Amazon. Uma vez adquiridos ou visitados alguns livros, as lojas virtuais se tornam mecanismos poderosíssimos e passam a alimentar nossa seção “recomendados para você” tal qual um garçom repõe a sua taça de champanhe em um casamento com buffet de qualidade: freneticamente.

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Portanto, resolvi ceder ao algoritmo e fiz a minha primeira aquisição do autor, O filho de mil homens (Biblioteca Azul, 2016). Lido o primeiro, me rendi ao segundo, a máquina de fazer espanhóis (Biblioteca Azul, 2016). Isso mesmo, com letra minúscula. Para explicar este e outros detalhes, falarei sobre o autor, para então comentar os dois livros recém lidos.

Valter Hugo Mãe, nascido em 25 de setembro de 1971, ganhou reconhecimento público ao receber, em 2007, o Prêmio Literário José Saramago. É autor de vários livros de poesia, contos, romances e literatura infantil, além de cantor, com alguns álbuns lançados. Até que o algoritmo me puxasse os pés, não o conhecia, apenas de nome, entre uma consulta e outra por novos livros. Hoje, fico feliz de conhecê-lo. Vamos aos livros.

O romance O filho de mil homens foi lançado originalmente em 2011, sendo o quinto romance do escritor a ser trazido para o Brasil, em 2016, através da Biblioteca Azul, um selo da Globo Livros.

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Conforme a descrição do produto, “o livro reflete sobre o prazer do amor incondicional, que o ser humano parece buscar para preencher o que lhe falta. Pescador que vive em um vilarejo litorâneo, Crisóstomo, ao chegar aos 40 anos, sofre com o fato de não ter tido um filho e sai em sua busca. Desejava um herdeiro que pudesse, além de lhe aplacar a solidão, ser testemunha do que ele próprio se tornou, com as alegrias e tristezas de sua trajetória. A todas as fantasias patriarcais contidas na obra, Mãe contrapõe, segundo Manguel no prefácio, ‘outra mais nobre e concretizável: a fantasia de um filho de mil seres humanos, tanto homens como mulheres. A essa definição correspondemos todos'”.

O livro nos traz personagens muito bem construídos e uma história que mistura fantasia, realidade e experiências subjetivas. A narrativa é fluida, com poucos parágrafos e uma escrita belíssima, o que rende diversos destaques ao longo da leitura. Distribuída em vinte capítulos, Valter Hugo compõe uma história bonita e cativante. Inclusive, desde a leitura da tetralogia napolitana, da Elena Ferrante, não havia retornado às leitura de romances e esse foi um excelente retorno. Que livro bem escrito e bonito.

Selecionei alguns destaques que fiz:

“Porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. A Isaura sabia que amava alguém por vir, amava uma abstracção de alguém no futuro. Ela esperava o futuro, e esperar era já um modo de amar. Esperar era amar. Certamente, amava de um modo impossível o futuro.”

“Ser o que se pode é a felicidade. Pensou nisto a Isaura. Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser.”

“Quando se conhece alguém, pensou o Crisóstomo, procuram-se as exuberâncias dos gestos, como para fazer exuberar o amor, mas o amor é uma pacificação com as nossas naturezas e deve conduzir ao sossego.”

“Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.”

“Deve nutrir-se carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade, repetiu muito seguro. Apenas isso. Nunca cultivar a dor, mas lembrá-la com respeito, por ter sido indutora de uma melhoria, por melhorar quem se é. Se assim for, não é necessário voltar atrás. A aprendizagem estará feita e o caminho livre para que a dor não se repita. Estava a crescer. O pescador crescia para ser um homem tremendo.”

Sobre a máquina de fazer espanhóis, publicado em 2010 e trazido para o Brasil, também pela Biblioteca Azul, em 2016, cabe ressaltar que ele compõe o que se chama “tetralogia das minúsculas”, escritos, em sua integridade, sem letras capitais (maiúsculas), incluindo o nome do autor.

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O prefácio, escrito por Caetano Veloso, nos conta que “a escolha de escrever apenas com letras minúsculas radicaliza o método saramaguiano. Mas não só. É uma característica de muitos textos de vanguarda de minha geração”. Essa prática, inspirada na escrita de José Saramago, traz uma marca de liberdade e escolha estética, contribui para a fluência do texto.

A princípio, há que se dizer que é uma experiência estranha, mas à qual nos adaptamos rapidamente. Algo que também torna a experiência de leitura peculiar é a falta de travessões, pontos de interrogação, aspas ou pontos de exclamação, sendo que os diálogos e demais destaques são trazidos de forma contínua no texto. Esse aspecto, também presente em O filho de mil homens, com exceção do uso exclusivo de minúsculas, é algo estranhamente cativante. Para se ter uma ideia, a leitura dos dois livros me levou a escolher As intermitências da morte, de Saramago, como leitura corrente.

Voltando à máquina, conforme descrição do produto, “No quarto romance do autor, António Jorge da Silva, barbeiro de 84 anos, é levado pela filha a viver em um asilo depois da morte de sua esposa. O que parece ser uma tragédia vai, no entanto, dando lugar à subjetividade do personagem, levando o leitor a verdades cortantes e arrebatadoras sobre o amor, a velhice, a política, o passado vivido durante o período militar imposto por Salazar e a própria literatura. É na fruição do contato com o outro, no caso de Silva, com os funcionários e pacientes do asilo, que acontece a possibilidade de redenção, tornando possível criar-se novas maneiras de viver”.

Estaria sendo repetitivo se o disser que também trata-se de uma história bonita e cativante, mas infelizmente serei. Ademais, a máquina de fazer espanhóis aprofunda, em minha opinião, o aspecto subjetivo da narrativa, trazendo a morte e a ressignificação da vida como elementos norteadores do enredo. O livro ainda traz elementos da política e da vivência de um regime autoritário em Portugal sob o comando de Antonio de Oliveira Salazar.

Neste, selecionei também alguns destaques que fiz:

“com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder.”

“um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico.”

“assim é o amor, uma estupidez intermitente mas universal. toca a todos.”

“era ainda pequena, como acho que somos todos nós para as coisas mais tristes.”

“um dia essa saudade vai ser benigna. a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida.”

“o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas.”

“somos um país de cidadãos não praticantes. ainda somos um país de gente que se abstém. como os que dizem que são católicos mas não fazem nada do que um católico tem para fazer, não comungam, não rezam e não param de pecar.”

Por hoje, é só. Recomendo a leitura de ambos, assim como espero comentários de quem já leu. Aproveitemos os algoritmos no que eles têm de bom. Até a próxima.

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