Já esquecemos do sistema prisional, de novo

Já esquecemos que as nossas prisões existem, de novo. É interessante observar como a opinião pública e a atenção da mídia se detêm na situação das prisões apenas quando acontecem tragédias. Você se lembra quando, no início do ano, só se falava na falência do sistema penitenciário e na crise que acontecia simultaneamente em alguns estados do país? Pois é. Diversos presos foram executados. Funcionários foram feitos reféns. Famílias se desesperaram dos dois lados.

No dia 02 de janeiro, acordamos com 56 presos mortos no presídio Anísio Jobim, em Manaus. Alguns dias depois, entre decapitados e esquartejados, foram 33 os presos mortos em Roraima. Como se não fosse suficiente, no dia 15 de janeiro, 26 presos morreram na penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Já esquecemos disso tudo.

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Foto: Revista Veja (Nacho Doce/Reuters) – Rebelião na Penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte

Não é segredo que, o pensamento majoritário da sociedade, é que se construa mais presídios e que as condenações sejam mais extensas. Com o punho cerrado e em tom professoral, afirmam “não ter jeito mesmo” e defender que “tem que trancar lá dentro e deixar apodrecer”.

Temos antes que admitir que o poder produz saber (e não simplesmente favorecendo-o porque o serve ou aplicando-o porque é útil); que poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder – Michel Foucault

Essa grande parte da população parece não se importar muito que se cumpram os direitos das pessoas privadas de sua liberdade. Parecem se esquecer de que um dia elas voltarão a conviver em sociedade. Aliás, um pensamento estranho, já que, quando falamos dessa forma, parece que ao cruzarmos os portões de uma prisão, estamos entrando em um universo paralelo, uma realidade invertida, fora do convívio social. Dentro e fora. Cometeu um crime? Você será jogado fora. Apenas um jogo de palavras.

Essa maioria parece também não tomar conhecimento de que existem pessoas trabalhando “lá dentro” para manter você “seguro aqui fora”. São agentes penitenciários, psicólogos(as), assistentes sociais, enfermeiros(as), médicos(as), auxiliares administrativos(as) e outras dezenas, centenas, milhares de trabalhadores que atuam, diariamente, nesse sistema que, grande parte das pessoas, não hesita em dizer que está falido. Após libertarem suas palavras dolorosas pelo ar, seguem a sua vida “aqui fora”.

O interesse público só se detém sobre a condições de vida dos detentos e as condições de trabalho desses profissionais quando ocorrem episódios que chamem a atenção dos meios de comunicação e representem ameaça à segurança pública. É preciso um massacre. É preciso fogo, quebra-quebra, tiros, decapitações e histórias grotescas. É preciso vídeos recebidos clandestinamente nos grupos de WhatsApp. Imagens que chocam, dão ânsia de vômito, “que é melhor nem ver”. Só quando eventos dessa natureza acontecem é que se revela o fracasso do sistema prisional. No dia seguinte, “alguém tranque as grades, por favor, quero viver tranquilo aqui fora”.

Se você também percebe esse deslocamento, esse intervalo de preocupações da mídia e da opinião pública, tente contorná-lo. Pense. Critique. Reflita. Tomar consciência é viver uma experiência em um novo contexto. É ver algo conhecido, porém de outra forma. Espero que, da próxima vez em que você receber um vídeo no seu celular do próximo massacre nas prisões que chocará o Brasil, por apenas alguns dias, você se lembre desse texto e, talvez, possa viver essa mesma experiência de uma nova maneira.

Referências

Foucault, Michel. (1987). Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes.

Kalinsky, Beatriz. (2007). El agente penitenciario: la cárcel como ámbito laboral. Runa, 28, 43-57. Recuperado en 09 de marzo de 2017, de http://www.scielo.org.ar/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1851-96282007000100003&lng=es&tlng=es.

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Uma resposta para “Já esquecemos do sistema prisional, de novo

  1. É todo mundo erra e tem muita gente pura i que acham só por que eles erraram eles não tem direito reconhecer a vida dentro do presídio é horrível a comida é Rui com caco de vidro azeda e lá ou come ou morre de fome errar é humano cabe a Deus julga e a gente aceita tristeza tristeza esse mundo é totalmente errado todo mundo tem que ter uma chance de se regenerar na sociedade tá ai……😍😍😍😘

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