Suicídio, tabu e 13 reasons why

Tenho lido algumas opiniões positivas e negativas sobre a série 13 Reasons Why que estreou recentemente no Netflix. Uma delas (um tweet, na verdade) dizia, inclusive, que falar sobre a série ou fazer “textão” sobre ela, era pior do que ficar calado, já que estimularia o interesse das pessoas em assisti-la. Bom, discordo.

Caso meu texto faça você correr e assistir à série, espero que o faça de forma mais consciente e talvez com as orelhas em pé. Mais uma vez, ninguém perguntou. Não vou citar todos os textos, porque não lembro de todos. Eles estão circulando por aí. Mas no fim do texto deixo algumas indicações.

O suicídio (é sobre que a série trata) é um tabu, um assunto evitado, incômodo para todos, moralmente reprovado e tratado sempre com cautela. Claro, não foi sempre assim. As pessoas sempre tiraram a própria vida ao longo da história da humanidade. Ou você acha que não? Uma das coisas que mudaram é a forma como tratamos esses episódios. Hoje, não são noticiados por uma série de fatores. Há quem relacione sua divulgação com o aumento de sua incidência, como ocorrido após o lançamento do romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, quando uma onda de suicídios na Europa foi atribuída à influência do personagem sobre os leitores.

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Para quem não viu ainda, a série do Netflix narra a história de uma adolescente norte americana que, antes de cometer suicídio, resolve gravar algumas fitas cassetes para que, depois de sua morte, todas as pessoas supostamente envolvidas em sua decisão, tenham a oportunidade de conhecer os motivos que levaram a jovem a dar um fim em sua existência.

Primeiro erro com o qual concordo: o suicídio é romantizado, e a mistura de tristeza, choque e beleza dão uma importância indevida ao fato. Parece até que foi uma boa opção. Segundo erro: o adoecimento mental é praticamente descartado. Nem se toca no assunto. Em quase cem por cento dos casos de autoextermínio, há presença de algum transtorno mental, como a depressão e transtornos de ansiedade.

Terceiro: quando a personagem busca ajuda, o resultado é catastrófico, o que quase deixa a entender que buscar ajuda é uma cilada. Na realidade, muito pelo contrário, buscar ajuda é essencial. Quarto erro: a culpabilização das pessoas que “maltrataram” a protagonista é trágico. Se fosse eu ouvindo as fitas e escutando que eu causei a morte daquela pessoa, eu também ia querer me matar. Portanto, energia desnecessária. Ok, a conscientização sobre o bullying é legal e necessária, mas “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.

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Poderia citar outras críticas de produção, como o ritmo arrastado dos episódios, mas acho que isso é o essencial para alguém que estuda e trabalha com saúde mental. Em suma, a série aposta em tratar de um assunto tabu, choca com cenas normalmente não exibidas de estupro e do próprio suicídio. Isso é admirável, de verdade.

Mas, 13 Reasons Why erra bruscamente ao não abordar o suicídio de forma educativa e crítica. Temos uma protagonista que, me corrijam se eu estiver errado, torna-se heroína e pode ser admirada por sua coragem. Aliás, é provável que noventa por cento dos adolescentes – e, porque não, adultos -, se identifiquem de alguma forma ou em algum momento com ela. O desfecho não é bom. A saída não é boa. É um ótimo romance, envolvente, mas com um péssimo pano de fundo.

Enquanto assisti à série, não pensei em nada disso que estou escrevendo, mas o alerta de alguns pequenos comentários nas redes sociais me fez enxergar o óbvio: a série é perigosa. Sim, afinal nem todos que irão assisti-la estão bem psicologicamente para lidar com tudo aquilo.

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O Centro de Valorização Vida – CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo de forma voluntária e gratuita todas as pessoas que precisam e querem conversar

Não vou entrar naquele papel de dizer o que devemos ver ou não, o que devemos discutir ou não, o que podemos ou não podemos ler, exibir, circular. Até mesmo porque não saberia dizer. Mas, acredito que a cautela e o bom senso sejam sempre a ordem dia. A série foi boa para mim e por isso falo sobre ela e até recomendo. Mas para mim a experiência positiva, não sei para os outros. Essa é a questão. Bom, se você quer pensar sobre isso, leia outras opiniões, positivas e negativas. E, principalmente, leia e ouça quem conhece do assunto.

Segue algumas dicas:

Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio

Centro de Valorização da Vida – CVV

Setembro Amarelo

13 parágrafos de alerta sobre 13 reasons why

1 razão basta para não assistirmos os 13 porques

Assista (ou não): 13 Reasons Why

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