Economia da atenção: “How to do nothing”

Já faz alguns meses que busco diminuir a minha utilização de telefone celular e, particularmente, das redes sociais. Um dos principais motivadores foi a percepção de que, na ocasião de obter tempo livre, não tinha sucesso em, simplesmente, não fazer nada. Ou seja, ficar à toa vinha sendo uma tarefa difícil e quase impossível. A necessidade de ocupar todo o tempo disponível com alguma atividade útil era grande. Ainda é. Passei a ativar limite de tempo para utilização de alguns aplicativo e o modo repouso do celular. Funcionou, em parte. Contudo, algumas leituras recentes me ajudaram a entender um pouco melhor esse fenômeno. Talvez eu não esteja sozinho.

Com o início da pandemia, em março de 2020, e sua permanência, até o momento, mais de um ano depois, entrei em modo de trabalho remoto, passando a trabalhar de casa de modo integral, com poucas exceções. Isso produziu uma série de mudanças na rotina, tanto em termos de horário (hora de acordar, de almoçar, de dormir, de parar pra descansar, etc.), quanto na própria organização do trabalho, afetando a relação com colegas e chefia, o ritmo de reuniões e o volume de atividades.

Com o fim do deslocamento de ida e volta para o trabalho, o tempo disponível aumentou. Entretanto, como muitas pessoas que também estiveram em trabalho remoto perceberam, isso não significou menos tempo dedicado ao trabalho e mais tempo para lazer. Pelo contrário, significou uma maior disponibilidade para reuniões umas atrás das outras, de distintos contextos, com diferentes pessoas e diferentes objetivos. Afinal, com o trabalho remoto veio a limitação do convívio e menor oferta de “coisas para fazer fora de casa”.

Tudo isso produziu – e acredito que seguirá produzindo – uma série de reflexões sobre a nossa relação com o trabalho, com o tempo e com a nossa casa, e com as pessoas com as quais nos relacionamos. Em mim, a percepção de que precisava preencher todo o tempo livre com tarefas “úteis”, com algum ganho financeiro ou social, levou à procura por leituras acerca do tema. Não conseguia me dedicar a tarefas prazerosas simplesmente por serem prazerosas, ou simplesmente não fazer nada e curtir isso, sem culpa. Aquele velho “ficar sozinho com os meus pensamentos”. Procurei no Google: “como não fazer nada?”. Coincidentemente, encontrei o livro “How to do nothing”: Resisting the Attention Economy, de Jenny Odell. Bem conveniente.

Em matéria para o The Guardian, a autora diz: “It’s this perspective in which time is money, and you should have something to show for your time – either getting work done, or self-improvement, which I would still count as work. Anything that detracts from that is too expensive, from the time-is-money perspective. And it ties into this idea that everything is a machine, and it just needs to be fixed, or made more efficient. It’s also a very present perspective – the bad kind of presence, being very wrapped up in whatever is happening right now, or what everyone is talking about on Twitter“. Com esse relato, ela traz o conceito de “economia da atenção”, ou seja, uma economia que luta pela nossa atenção em uma coisa ou outra, com fins lucrativos, mas que considera qualquer distração como perda de tempo-dinheiro.

De acordo com o Wikipedia, “Attention economy is an approach to the management of information that treats human attention as a scarce commodity and applies economic theory to solve various information management problems. According to Matthew Crawford, “Attention is a resource—a person has only so much of it.”[1]“.

O livro, que traz um relato pessoal da autora acerca da experiência de observar os pássaros (birdwatching) e de conseguir se concentrar naquele tempo e espaço (ser humano com um corpo em um lugar em um tempo específicos), se prolonga um pouco além do que poderia, na minha opinião, mas consegue fazer uma boa relação entre a nossa experiência na utilização dos smartphones e redes sociais e o sistema econômico-produtivo em que vivemos, fazendo uma crítica à nossa adesão – muitas vezes, involuntária – a um regime onde tempo é dinheiro, e tudo deve ser feito depressa, na hora e ao mesmo tempo. Não podemos parar.

A autora nos convida a refletir e, principalmente, agir quanto a isso, dizendo que “In a time that demands action, distraction appears to be a life-and-death matter”. Afinal, não sentimos, todos, a angústia de querer saber tudo o que está acontecendo, o tempo todo? De estar “alheio à realidade”, seja ela qual for? Os mecanismos que nos levam a essas experiências não são mais segredo. Para quem ainda não viu, o documentário O Dilema das Redes (2020), disponível no Netflix, traz muito bem como os aplicativos e os algoritmos são utilizados para capturar e manter a nossa atenção. Para quem não sabe, já existe até um possível diagnóstico para esse quadro, conhecido como FoMO (Fear of missing out), “que em português significa algo como “medo de ficar de fora”, e que se caracteriza por uma necessidade constante de saber o que outras pessoas estão fazendo, associado a sentimentos de ansiedade, que impactam fortemente as atividades de vida diária, assim como a produtividade no trabalho” (Fonte: https://www.tuasaude.com/fomo/).

Nesse sentido, outra leitura (e podcast) traz algumas dicas e reflexões muito pertinentes. Com o título sugestivo “Manual prático para retomar sua atenção do calabouço das redes sociais“, o texto, postado no site Manual do usuário, fala, entre outras coisas, sobre o nosso hábito nocivo de consumir notícias o tempo inteiro, e afirma: “Essa disputa pela nossa atenção por tantas plataformas que exploram desejos, medos ou vaidades replica uma dinâmica parecida na cabeça de quem está sendo conduzido pela tecnologia. A tal da multitarefa é um mito que nos conduz a um estado de estímulo constante, atenção sempre alta e incapacidade de mergulhar em nossos próprios pensamentos”.

Em trabalho remoto, participando de atividades do meu trabalho principal, do meu doutorado, do meu grupo de pesquisa e do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, me sinto habitando diferentes espaços e contextos, porém sem trocar de roupa, ambiente, nem tendo a capacidade mental de realizar a adequada transição entre uma e outra coisa. São tantas pessoas, grupos, links, pautas e objetivos de cada encontro, e-mails, mensagens de WhatsApp, notificações no Twitter, Instagram, Gmail, que a fragmentação é um estado contínuo. Um modo de funcionamento.

Photo by Ehimetalor Akhere Unuabona on Unsplash

Como bem elucida o autor do texto citado acima: “Quem já teve um ataque de pânico sabe bem a sensação, que um psiquiatra definiu muito bem: a vida parece que vai se desagregando. Em vez de algo uno, os interesses, os pensamentos, os impulsos se fragmentam em incontáveis pedacinhos e você, naquele desespero exagerado que caracteriza ataques de pânico ou ansiedade, tenta pegar tudo de uma vez, falha e se sente ainda mais desesperado, o que faz com que o ciclo se retroalimente”.

A desinformação se transformou em um risco para a nossa própria autonomia em conduzir as nossas vidas e uma ameaça à própria democracia, como temos observado em países vizinhos e no Brasil (leia “Como as democracias morrem”). Não há tempo e espaço para reflexão, apenas informação, informação e mais informação, seja ela de qual fonte for.

Recomendo ainda dois outros dois textos. Um deles é “I Talked to the Cassandra of the Internet Age“, uma coluna de opinião do The New York Times, na qual Charlie Warzel afirma que “Michael Goldhaber is the internet prophet you’ve never heard of. Here’s a short list of things he saw coming: the complete dominance of the internet, increased shamelessness in politics, terrorists co-opting social media, the rise of reality television, personal websites, oversharing, personal essay, fandoms and online influencer culture — along with the near destruction of our ability to focus“. O jornalista afirma que Michael Goldhaber ajudou a popularizar, em um texto publicado em 1997 (aqui), o termo “attention economy”, cunhado pelo psicólogo Herbert A. Simon. Goldhaber afirmou que “the currency of the New Economy won’t be money, but attention”.

Outro texto é a reportagem ‘Somos cada vez menos felizes e produtivos porque estamos viciados na tecnologia’, publicada por Diana Massis, e que traz uma entrevista com Marta Peirano, autora do livro El enemigo conoce el sistema (O inimigo conhece o sistema). No início do texto, a autora sintetiza bem a ideia de uma economia da atenção, na minha opinião: “O preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que você oferece em troca”.

Buscando me desvencilhar dessa armadilha da atenção, segui algumas dicas e observei um efeito positivo, como desabilitar as notificações de todos os aplicativos do meu celular; limitar o tempo de uso de redes sociais; restringir o tempo e delimitar períodos do dia para me informar das notícias; e planejar os meus dias, utilizando o próprio calendário, e tentar cumprir essa programação.

Tudo o que disse acima se vincula a algumas reflexões anteriores que já fiz por aqui, como ao falar de “Sociedade do Cansaço“, de Byung-Chul Han, que afirmou que “Nós nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox. Assim hoje, estamos por demais mortos para viver, e por demais vivos para morrer” (p.119). Ou ao discorrer sobre A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo, escrito pelo sociólogo norte-americano Richard Sennett, que conclui que “As condições de tempo no novo capitalismo criaram um conflito entre caráter e experiência, a experiência do tempo desconjuntado ameaçando a capacidade das pessoas transformar seus caracteres em narrativas sustentadas” (Posição 395).

Após todas essas leituras, fecho com uma boa frase do Manual do Usuário: “A vida é muito mais do que seu feed. Às vezes você só precisa de um empurrão para lembrar disso”.

Leia também:

Referências

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter – conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. 16ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2015 [formato eletrônico].

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