Homo Deus: imortalidade, felicidade e divindade

Organismos são algoritmos. Nada além disso. A experiência humana, hoje preciosa e única, é apenas composta e produzida por algoritmos bioquímicos, conexões cerebrais, passíveis de previsão, controle e alteração. Podemos produzir e controlar desejos e vontades. Há pouco de ‘sagrado’ nisso tudo. Podemos ser reduzidos a fórmulas matemáticas e controlados por elas. Uma mistura de genética, eletricidade e dados. Muitos dados.

Para Yuval Noah Harari, autor israelense nascido em 1976, é sob essa perspectiva que grande parte dos avanços recentes da humanidade vem se assentando. Para ele, ao longo da história do planeta, conquistamos o mundo e tornamos os demais animais submissos – através da cooperação em larga escala, demos um significado a ele – com as religiões, o humanismo e o liberalismo – e, agora, estamos passando o controle dele, lentamente, para algoritmos super inteligentes que superam a capacidade humana.

Yuval Noah Harari teaches history at the Hebrew University of Jerusalem.

Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens”, “Homo Deus” e “21 lições para o século 21”

Afinal, estamos produzindo, a cada dia, mecanismos que superam a nossa inteligência, nossas competências e habilidades, e que são melhores que nós ao exercer funções tão conhecidas da nossa rotina, como dirigir um ônibus, dar um diagnóstico médico, indicar caminhos de ida e volta para casa, ou jogar xadrez. Algumas profissões já sumiram, outras irão desaparecer, em um futuro próximo. Computadores já são melhores do que nós, em várias atividades.

Homo Deus: uma breve história do amanhã” (Companhia das Letras, 2016) é a continuação de “Sapiens: uma breve história da humanidade” (L&PM, 2014), um best-seller internacional, escrito por Yuval Harari, professor de História e PhD pela Universidade de Oxford. Em síntese, Yuval entende que a humanidade venceu, até os dias de hoje, a fome, a peste e a guerra. Ainda que se morra por algum desses males, pode-se dizer que isso decorre de problemas políticos, não técnicos. Já temos a capacidade para dominar esses três aspectos, mas se não o fazemos, já é outra questão. Isso foi determinante para que possamos viver da forma como vivemos hoje.

Por tudo o que sabemos, somente os Sapiens são capazes de cooperar de modos muito flexíveis com um grande número de estranhos. Essa capacidade concreta – e não uma alma eterna ou algum tipo único de consciência – explica nosso domínio sobre o planeta Terra (p.139)

Uma vez superados esses desafios, combatidos por um longo período histórico, o autor indica que a humanidade agora se depara com outros três itens, em sua lista de afazeres: adquirir a imortalidade, encontrar a chave para a felicidade e alcançar a divindade. Pode parecer estranho e distante, mas Yuval nos mostra, através de estudos científicos e mudanças simples em nosso dia-a-dia, que isso já está acontecendo. Queira você ou não. A compreensão do DNA e suas eventuais modificações para o nascimento de ‘bebês aprimorados’, a criação de órgãos artificiais e próteses modernas, e o aumento da expectativa de vida, são apenas alguns exemplos.

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“Homo Deus” entre alguns ‘deuses’ do rock

Apesar de denso e complexo em suas 448 páginas, “Homo Deus” é uma leitura agradável e que flui com naturalidade. São muitos elementos conectados que formam uma argumentação de difícil contestação, dada a evidência prática das mudanças apontadas pelo autor em nossa vida cotidiana. No entanto, como afirma o autor, não se trata de uma profecia. Entre ‘querer’ e ‘ser’ imortal, por exemplo, existe uma distância muito grande. Afinal, conhecemos ainda muito pouco a mente humana e sua capacidade, para afirmar categoricamente as limitações humanas. Todavia, trata-se de uma leitura fundamental para os dias de hoje.

É muito interessante perceber como algumas das nossas principais crenças atuais estão sendo desmontadas pelos avanços tecnológicos. A crença na individualidade, por exemplo, é uma das principais. Atualmente, ainda somos valorizados nossa capacidade única e singular de compreender e significar o mundo. A experiência humana é altamente valorizada. Além disso, somos estimulados a entrar em contato com a nossa essência, com os segredos mais íntimos que nossa individualidade guarda, deixando as pequenas e grandes decisões que tomamos em nossas vidas à cargo dos nossos sentimentos e do que ‘o nosso coração manda’.

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Alguns exemplos trazidos por Yuval para enfatizar o pensamento humanista

Yuval demonstra como isso está sendo gradualmente desconstruído pela força dos algoritmos facebookianos, goggleianos, wazeianos e internéticos. A biologia, aliada às ciências da computação, vem indicando que nosso corpo físico, nossas emoções, sensações e pensamentos são apenas um arremedo complexo de interações bioquímicas e elétricas.

Um algoritmo é um conjunto metódico de passos que pode ser usado na realização de cálculos, na resolução de problemas e na tomada de decisões. Não se trata de um cálculo específico, mas do método empregado quando se fazem cálculos (p.91)

Nossos desejos mais profundos e secretos são, nada mais, nada menos, – de acordo com esse paradigma – que uma combinação de nossa genética com o que chamamos de social, tudo isso explicável e manipulável por meio de algoritmos, como esses que a Google utiliza para te indicar produtos que você procurou ontem no campo de buscas, para o resto da vida no campo de anúncios, ou que a Netflix utiliza para indicar ou não aquela série ou filme novos no catálogo, baseado em seu gosto pessoal.

Na era da internet, as máquinas, os sistemas e os algoritmos artificiais sabem – ou podem saber – mais sobre nós do que nós mesmos. É possível que a Google e o Facebook, ao acessar todo o seu histórico de interações, curtidas, e-mails e relacionamentos, conheça mais a sua ‘essência’ do que você jamais conhecerá, por melhor que seja a sua psicoterapia ou análise lacaniana.

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Protótipo de um carro autônomo apresentado pelo Google

Como pano de fundo de toda essa discussão, Yuval apresenta o que considera a nova religião – em ampla ascensão – que já domina e dominará o nosso mundo: o dataísmo. Para o autor, segundo essa religião, “o Universo consiste num fluxo de dados e o valor de qualquer fenômeno ou entidade é determinado por sua contribuição ao processamento de dados” (p.370).

O estímulo ao fluxo livre da informação, a geração constante e enorme de dados sobre tudo o que fazemos e sentimos já está acontecendo. O ser humano não é capaz de lidar com toda a quantidade e variedade de informações que cada experiência em cada lugar do mundo produz. Dessa forma, o dataísmo propõe que isso seja controlado e processado por algoritmos super inteligentes, ou seja, máquinas. O GPS sabe melhor que você qual o caminho mais rápido e tem informações que você não possui.

Ter um computador, uma conta de e-mail, um telefone e um usuário no WhatsApp já é o suficiente para contribuir com essa revolução, ainda que não saibamos muito bem aonde ela está nos levando. Intervir em nosso DNA, produzir ou reprimir desejos através de estímulos cerebrais e delegar a sistemas artificiais de inteligência algumas decisões pode parecer ótimo, mas ainda não conhecemos a consequência disso.

A leitura de “Homo Deus” pode lhe trazer uma perspectiva interessante sobre a vida que vivemos hoje e o que nos espera no futuro. Talvez seja uma forma de não ser pego totalmente desprevenido quando as mudanças vierem – já vieram e continuarão vindo – e participar e compreender mais ativamente o que e como se vive atualmente.

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Ficha técnica

Título: Homo Deus – uma breve história do amanhã. Autor: Yuval Noah Horari. Páginas: 448. Formato: 22,9 x 15,7 x 2,3 cm. Editora: Companhia das Letras.

81XF71bci6LNeste Homo Deus: uma breve história do amanhã, Yuval Noah Harari, autor do estrondoso best-seller Sapiens: uma breve história da humanidade, volta a combinar ciência, história e filosofia, desta vez para entender quem somos e descobrir para onde vamos. Sempre com um olhar no passado e nas nossas origens, Harari investiga o futuro da humanidade em busca de uma resposta tão difícil quanto essencial: depois de séculos de guerras, fome e pobreza, qual será nosso destino na Terra? A partir de uma visão absolutamente original de nossa história, ele combina pesquisas de ponta e os mais recentes avanços científicos à sua conhecida capacidade de observar o passado de uma maneira inteiramente nova. Assim, descobrir os próximos passos da evolução humana será também redescobrir quem fomos e quais caminhos tomamos para chegar até aqui.

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