Três ensaios sobre a pandemia: Harari, Krenak e Schwarcz

A pandemia da Covid-19 tem nos trazido muitos questionamentos, diversos desafios e algumas respostas, por enquanto. No Brasil, desde março/2020, o fechamento de boa parte dos estabelecimentos e interrupção de atividades; as indicações para se adotar e se manter o distanciamento social; e a sucessão de notícias e medidas governamentais, adequadas ou não, vêm produzindo uma realidade bastante complexa.

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No meio de tanta informação, é necessário filtrar a fonte do conhecimento e, principalmente, das opiniões e reflexões sobre o que estamos passando. Nesse sentido, se você está procurando alguns parágrafos de lucidez e crítica sobre o que vivemos, indico três ensaios que li recentemente e alguns trechos destacados, na seguinte ordem: Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade, por Yuval Noah Harari; O amanhã não está à venda, por Ailton Krenak; e Quando acaba o século XX, por Lilia Moritz Schwarcz.

Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade, por Yuval Noah Harari (Companhia das Letras, 2020)

41oArYbXBaLPara quem ainda não conhece, Yuval Noah Harari é um escritor israelense nascido em 1976, professor de História e PhD pela Universidade de Oxford. Como nos lembra o autor, “a história indica que a proteção real vem da troca de informação científica confiável e da solidariedade global” (posição 60). Em artigo publicado pela revista Time, em 15 de março de 2020, o autor de Sapiens Homo Deus (sobre o qual já falei por aqui) defendeu a cooperação entre os povos e nações para combater não só a pandemia, mas outros males enfrentados em nossas sociedades.

“O historiador israelense Yuval Noah Harari argumenta neste artigo que muitas pessoas culpam a globalização pela epidemia do coronavírus e afirmam que o único jeito de evitar novos surtos dessa natureza seria desglobalizar o mundo. Contudo, embora uma quarentena temporária seja essencial para deter esses surtos de doença, o isolacionismo prolongado entre as nações conduzirá ao colapso econômico sem oferecer qualquer proteção real contra doenças infecciosas. Muito pelo contrário. O verdadeiro antídoto para epidemias não é a segregação, mas a cooperação”.

Você encontra o artigo traduzido e em formato eletrônico aqui. Deixo alguns destaques:

Posição 18 – O verdadeiro antídoto para epidemias não é a segregação, mas a cooperação.

Posição 36 – Isso porque a melhor defesa que os humanos têm contra os patógenos não é o isolamento, mas a informação. A humanidade tem vencido a guerra contra as epidemias porque, na corrida armamentista entre patógenos e médicos, os patógenos dependem de mutações cegas, ao passo que os médicos se apoiam na análise científica da informação.

Posição 71 – A coisa mais importante que as pessoas precisam compreender sobre a natureza das epidemias talvez seja que sua propagação em qualquer país põe em risco toda a espécie humana.

Posição 98 – Há centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo sem acesso aos serviços mais básicos de saúde. Isso representa um risco para todos nós. Estamos acostumados a pensar nesse tema em termos nacionais, no entanto oferecer assistência médica a iranianos e chineses também ajuda a proteger israelenses e americanos contra epidemias. Essa simples verdade deveria ser óbvia para todos, mas, infelizmente, ela escapa até mesmo a algumas das pessoas mais influentes do mundo.

Posição 103 – Para derrotar uma epidemia, as pessoas precisam confiar nos especialistas, os cidadãos precisam confiar nos poderes públicos e os países precisam confiar uns nos outros. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis solaparam deliberadamente a confiança na ciência, nas instituições e na cooperação internacional. Como resultado, enfrentamos a crise atual sem líderes que possam inspirar, organizar e financiar uma resposta global coordenada.

Posição 114 – Sem confiança e solidariedade globais não seremos capazes de parar a epidemia do coronavírus, e é provável que enfrentemos mais epidemias desse tipo no futuro.

Posição 121 – Neste momento de crise, a batalha decisiva trava-se dentro da própria humanidade. Se essa epidemia resultar em maior desunião e maior desconfiança entre os seres humanos, o vírus terá aí sua grande vitória.

O amanhã não está à venda, por Ailton Krenak (Companhia das Letras, 2020)

51klxs6WIMLConsiderado um dos maiores pensadores indígenas na atualidade, Ailton Krenak nasceu em Minas Gerais, em 1953, é ambientalista e escritor, e se destaca por sua liderança no movimento indígena brasileiro. Autor de Ideias para adiar o fim do mundo, Krenak produziu um ensaio que “em páginas de impressionante força e beleza […], questiona a ideia de ‘volta à normalidade’, uma ‘normalidade’ em que a humanidade quer se divorciar da natureza, devastar o planeta e cavar um fosso gigantesco de desigualdade entre povos e sociedades”.

Trazendo uma leitura atenta sobre a relação dos seres humanos com a natureza, cada vez mais disfuncional, Krenak argumenta que “o que estamos vivendo pode ser a obra de uma mãe amorosa que decidiu fazer o filho calar a boca pelo menos por um instante” (posição 59). Ou seja, que possamos repensar a nossa forma de funcionar, nos relacionar e nos organizar.

Posição 30 – Essa dor talvez ajude as pessoas a responder se somos de fato uma humanidade.

Posição 40  – O vírus não mata pássaros, ursos, nenhum outro ser, apenas humanos. Quem está em pânico são os povos humanos e seu mundo artificial, seu modo de funcionamento que entrou em crise.

Posição 52 – Eu não percebo que exista algo que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza.

Posição 64 – Para combater esse vírus, temos de ter primeiro cuidado e depois coragem.

Posição 68 – Pois alguém que fala isso está pronunciando uma condenação, tanto de alguém em idade avançada, como de seus filhos, netos e de todas as pessoas que têm afeto uns com outros. Imagine se vou ficar em paz pensando que minha mãe ou meu pai podem ser descartados. Eles são o sentido de eu estar vivo. Se eles podem ser descartados, eu também posso.

Posição 83 – Há muito tempo não programo atividades para “depois”. Temos de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de vender o amanhã.

Posição 95 – Em artigo que li sobre a pandemia, o sociólogo italiano Domenico De Masi cita a obra profética A peste, de Albert Camus: a peste pode vir e ir embora sem que o coração do homem seja modificado.

Posição 99 – Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro.

Você encontra o ensaio em formato eletrônico disponível aqui.

Quando acaba o século XX, por Lilia Moritz Schwarcz (Companhia das Letras, 2020)

51YgYAlm13LUm dos meus preferidos, o ensaio de Lilia Schwarcz, historiadora e antropóloga, autora da biografia Lima Barreto – Triste Visionário (sobre a qual também falei por aqui) e também de Brasil: uma biografia, “reflete sobre os impactos da pandemia de covid-19 em nossa compreensão sobre as desigualdades estruturais da sociedade brasileira e os limites da utopia tecnológica que marcou o século passado”.

“Em entrevistas e textos publicados nos últimos meses, Lilia Moritz Schwarcz cravou um diagnóstico de grande repercussão: ‘Ao deixar mais evidente o nosso lado humano e vulnerável, a pandemia da covid-19 marca o final do século XX’. A utopia tecnológica do século que agora termina deu lugar a uma crise social, econômica, ambiental, cultural, moral e da saúde — e o sofrimento que dela decorre é incomensurável”.

“Nos últimos anos, a sucessão de desastres climáticos e ambientais de proporções inéditas alertavam para o fato de que nossa marcha sobre a natureza encontrara seu limite. Mas as contradições da ideia de progresso também se manifestam na inaceitável desigualdade que marca a experiência de países como o Brasil, na perpetuação de estruturas sociais racistas e machistas, e na transformação da história e dos idosos em ‘velharia’. Esses são alguns dos temas abordados em Quando acaba o século XX”.

“‘Pessimista no atacado e otimista no varejo’, Schwarcz defende que ‘se cada um exercer sua cidadania, sua vigilância cidadã, quem sabe damos sorte no azar’. Se o Brasil já se perdeu e já se encontrou várias vezes em sua história, ‘é hora de fazer da crise um propósito'”.

Você encontra o ensaio em formato eletrônico disponível aqui. Deixo alguns destaques:

Posição 34 – E nem sempre “casa” quer dizer “lar”. Casa sempre foi um local de repouso e abrigo. Já lar é um conceito criado pela burguesia, no século XIX, que tendeu a idealizar esse lugar, sublinhando o modelo de família estruturada e esquecendo dos conflitos por lá inerentes.

Posição 52 – É o sexto país mais desigual do mundo. É o primeiro, junto com Catar, dentre os países democráticos. O Brasil não é um país pobre, mas é um país de pobres.

Posição 59 – O mundo, ao contrário, não era tão civilizado quanto se imaginava. As pessoas guerreavam corpo a corpo e voltavam mutiladas e traumatizadas, em silêncio. Mas um silêncio cheio de ruídos.

Posição 60 – Por isso Hobsbawm tem razão: os séculos não terminam com o virar da folhinha do calendário, mas quando grandes crises colocam em questão verdades que já pareciam consolidadas.

Posição 62 – A grande marca do século XX foi a tecnologia e a ideia de que ela nos emanciparia e libertaria. Discordo da afirmação de que não estávamos globalizados no século XIX, mas foi apenas no século XX que a tecnologia ganhou escala mundial e acelerou o nosso tempo.

Posição 65 – Ao deixar mais evidente o nosso lado humano e vulnerável, a pandemia da covid-19 marca o final do século XX.

Posição 92 – E a pergunta que cada um de nós tem que fazer é: alguém tem o direito de dizer quem pode ou não pode morrer?

Posição 99 – Negar o passado significa também não aprender com ele — com nossos erros e acertos.

Posição 100 – Se cuidarmos melhor das populações vulneráveis — e aí se incluem os idosos, a população de baixa renda e os negros e negras —, estaremos cuidando melhor de nós mesmos, não só numa dimensão simbólica, como também de maneira prática.

Posição 105 – Somos capazes de “ver”, pois esse é um atributo biológico; no entanto, temos muita dificuldade de “enxergar”, uma vez que essa é uma escolha cultural e todos nós somos “míopes culturais” e sistematicamente fazemos da “branquitude” uma realidade sem pejas e receios.

Posição 108 – Por sinal, nada mais denunciador do que o conceito de “novo normal”. A pergunta que não quer calar é: “novo normal” para quem? Para as elites que moram em seus “lares”, têm seus computadores individuais e quartos privativos ou para a imensa maioria da população brasileira que não tem acesso a essas benesses?

Posição 130 – Uma doença só existe quando se concorda que ela existe. É preciso mostrar para a população que estamos doentes. Se não temos diretrizes claras por parte do governo, se nosso presidente insiste em dar contraexemplos e apoiar aglomerações, não há argumento que dê conta de se opor ao negacionismo de parte da população brasileira.

Posição 137 – Nossa prepotência é um pouco esta: achar que somos uma sociedade muito racional, que se pauta pela tecnologia, quando na verdade estamos sempre esperando por um milagre atrás do último arco-íris.

Posição 141 – Se a humanidade aprendesse com o passado, os historiadores seriam visionários.

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