Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Se tem algum aspecto positivo nestes tempos de quarentena e isolamento social, é a possibilidade, que alguns privilegiados têm, de ficar em casa e ter algum tempo livre com a nova rotina. Sendo um deles, tenho colocados as leituras em dia, nos intervalos do trabalho remoto. Recentemente, terminei a leitura do clássico de Lima Barreto, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, publicado originalmente em folhetins, entre agosto e outubro de 1911, e posteriormente em formato completo em 1915, no Rio de Janeiro.

Já posso dizer que Lima Barreto é um dos meus escritores favoritos e sempre fico impressionado com a qualidade das histórias, com o jeito bem-humorado e irônico de trazer realidades complexas e assuntos sérios de uma sociedade diferente da nossa, porém em muitos aspectos semelhante, do início do século XX no Brasil. Afonso Henriques de Lima Barreto viveu no Rio de Janeiro, à época, capital federal, entre os anos de 1881 e 1922. Em sua curta vida, publicou romances, contos, crônicas e diversos artigos em periódicos, exercendo o que considerava uma literatura engajada, crítica e social. Para quem se interessar, falei sobre a excelente biografia escrita por Lilia Moritz Schwarcz no post Lima Barreto: Triste Visionário, por Lilia Moritz Schwarcz.

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Lima Barreto: Triste Visionário (2017)

Meu primeiro contato com o autor foi através da edição Diário do hospício e O cemitério dos vivos, publicada pela Companhia das Letras, em 2017. É a partir dos manuscritos produzidos por Lima Barreto durante a sua segunda internação no Hospital Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, entre 1919 e 1920, que surgem as duas obras nele reunidas. O antigo Hospício Pedro II, inaugurado em 1852, é considerado o primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e, atualmente, o edifício é um campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Já falei também sobre o livro aqui no blog.

Quanto a Policarpo, aproveitei a edição gratuita, em e-book, disponível para o Kindle (Edições Câmara, 2018). Este livro, que já foi amplamente discutido e comentado, traz um personagem singular na trajetória de Lima Barreto, o major Policarpo Quaresma, um patriota ingênuo e sonhador, que se depara com a realidade das intenções de terceiros em contraste com a sua ilusão pessoal de um país grande, promissor e provedor.

“Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguém ou alguma coisa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da coisa que fixava” (posição 115).

O seu patriotismo o tornava “antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves — era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro” (posição 150).

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Parte do livro Diário do Hospício e O cemitério dos vivos (2017)

Ridicularizado, pela primeira vez, após propor aos políticos da época que o país adotasse o tupi-guarani como idioma oficial, Quaresma traz um ingrediente de loucura que é recorrente nas leituras que fiz, até o momento, de Lima Barreto. Fruto, possivelmente, de sua própria experiência com o universo da insensatez e dos hospícios, Lima traz belas passagens para tentar descrever e decifrar o enigma da alienação.

“Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado, sentindo que o germe daquilo está depositado em nós e que por qualquer coisa ele nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após” (posição 945).

“Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos” (posição 974).

“De todas as coisas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente” (posição 1146).

Contudo, por mais que o elemento da loucura esteja presente na história, assim como um toque de Dom Quixote, dando a Quaresma aquele aspecto de herói incompreendido que combate inimigos ilusórios, é a discussão do patriotismo e da política que mais me chamou a atenção. Não me lembro de ter lido esse livro na época de escola ou vestibular, mas é provável que tenha passado por ele. No entanto, sua leitura não seria a mesma que foi hoje, onde, tanto eu, quanto a sociedade, pelo menos uma parcela, encontram-se vinculados aos assuntos políticos.

“As consequências desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado as suas convicções patrióticas. Continuavam as suas ideias profundamente arraigadas, tão somente ele as escondia, para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens” (posição 1568).

É impressionante como o sentimento nacional demonstrado por Quaresma, a vontade de valorizar o que é genuíno da nossa terra, da nossa cultura, e ressaltar os símbolos nacionais, se mistura com a ingenuidade de não considerar os interesses políticos, econômicos e sociais e a dinâmica de uma sociedade desigual e injusta, já de início. Em tempos onde os nossos símbolos nacionais, como hinos e bandeiras, foram sequestrados, de certa forma, por um patriotismo conservador e radical, que recusa a diversidade de pensamento, e onde verificamos o uso que os políticos mal intencionados fazem dos que se apropriam deles, é curioso observar os relatos e vivências de Quaresma.

“Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade, levam a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e mudanças” (posição 2169).

Mais do que tomar repulsa dos símbolos nacionais, por estarem sendo utilizados por interesses estranhos aos meus, é válido observar como quem detém o poder decisório e econômico se aproveita da ingenuidade patriótica de boa parte de nossa população que, assim como Quaresma, acredita no desenvolvimento de uma pátria forte, mais rica e fértil que todas as outras, ainda que isso seja ilusório. O triste fim de Policarpo lhe trouxe pensamentos mais críticos sobre sua experiência.

“Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem… Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada… O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folklore, das suas tentativas agrícolas… Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!” (posição 3151).

“A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia” (posição 3159).

Se tem algo que a leitura de Triste Fim de Policarpo Quaresma, escrito na segunda década do século passado, pode lhe acrescentar, é trazer, além de uma boa experiência literária, por se tratar de uma bela e única narrativa, uma pitada de curiosidade acerca dos usos e abusos que as pessoas fazem desse tal patriotismo e nos perguntar para onde estamos caminhando, ao acreditar fazer parte de um movimento nacionalista de raízes e interesses duvidosos. Ademais, que questionemos a nossa busca por heróis, algo tão característico do povo brasileiro. Afinal, como conclui Quaresma, ao desconstruir uma de suas ilusões: “E era assim que se fazia a vida, a história e o heroísmo: com violência sobre os outros, com opressões e sofrimentos” (posição 3237).

Tem um vídeo-trailer do livro divertido, também:

Ficha técnica

Título: Triste Fim de Policarpo Quaresma / Autor: Lima Barreto / E-book – Edições Câmara, 2018 / 191 páginas.

Captura de Tela 2020-04-11 às 12.44.40Síntese: Sátira impiedosa do Brasil oficial, Triste Fim de Policarpo Quaresma narra o destino tragicômico de um nacionalista ingênuo e idealista, completamente alucinado pela ideia de fazer do Brasil um país grandioso. Para isso, ele bola estratégias amalucadas, prega o retorno do tupi-guarani e insiste em redigir documentos oficiais nessa língua. Com uma narrativa leve e cômica, recheada de críticas a vários aspectos da sociedade, a obra faz uma descrição política do Brasil da Primeira República, enfocando fatos históricos do governo de Floriano (1891 – 1894), e traça um rico painel social e humano dos subúrbios cariocas na virada do século. Considerado expoente do Pré-Modernismo brasileiro, Triste Fim de Policarpo Quaresma é uma história farsesca e extremamente divertida.

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