Saúde mental das(os) psicólogas(os) em tempos de pandemia: live do CRP-MG

No dia 15/04/2020 (quarta-feira), tive a oportunidade de participar da minha primeira transmissão ao vivo pelo Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), e que estão sendo realizadas agora de modo a manter o calendário de discussões e contribuições para a categoria, em virtude da pandemia do COVID-19. O tema escolhido foi “Saúde mental da categoria psi: os desafios de ser profissional de saúde em tempos de pandemia”, assunto extremamente necessário neste cenário.

Para cumprir a missão, fruto de convite da minha colega conselheira Cristiane Nogueira, coordenadora da Comissão de Orientação em Saúde Mental, Álcool e outras Drogas, que também integra a Comissão de Orientação em Psicologia de Emergências e Desastres, elaborei um texto para servir de roteiro. Portanto, vou postá-lo aqui na íntegra, além de recomendar, ao fim do post, que assistam à transmissão completa e deixem sugestões e comentários.

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Photo by Mick De Paola on Unsplash

“Para começo de conversa, quero reforçar a importância de se falar sobre saúde mental no trabalho e principalmente a partir de perspectivas menos convencionais nesse campo, como a Psicologia do Trabalho, as Clínicas do Trabalho, como Psicodinâmica, Ergologia, Clínica da Atividade e Psicossociologia. É cada vez mais necessário que essas perspectivas estejam nos cursos de graduação, de especialização e pós-graduação, e nos nossos consultórios e clínicas, seja onde ela for feita.

A “atividade sobre a atividade”, como nomeia o psicólogo francês Yves Clot ao dizer do que procuramos desenvolver através da análise do trabalho e sua função psicológica, é fundamental para nos desenvolvermos individualmente, fortalecer o nosso coletivo e também transformar as situações de trabalho, conforme os nossos critérios de qualidade compartilhados e através de um pensar e fazer crítico da Psicologia nos diversos espaços.

Portanto, é importante vivenciar e sentir a prática, mas também refletir criticamente sobre ela, de forma construtiva e, principalmente, colaborativa, seja no consultório ou fora dele. Assim, pensei em quatro pontos que poderia abordar como contribuições para o fazer do psicólogo e da psicóloga nesse momento:

– Individualização do adoecimento e do sofrimento X dimensão coletiva do trabalho e das estratégias de defesa coletivas

Se pensarmos os riscos psicossociais no trabalho a partir do modelo demanda-controle-apoio social, trazido por Karasek, pesquisador do trabalho, entendemos que, no quadro que vivemos, temos uma demanda alta, seja nos serviços essenciais como saúde e segurança, seja fora dele, com a intensificação do sofrimento psíquico em virtude do isolamento e da angústia. Temos, por outro lado, baixo controle sobre essa demanda, porque, além de ser um cenário novo, estamos restritos em nossas possibilidades e convocados a pensar novas formas de agir. Portanto, estamos vivendo uma combinação de alto risco, sob esta perspectiva, onde a alta demanda é combinada pelo baixo controle. No entanto, o terceiro fator dessa fórmula é apoio social. Seja o apoio que temos em nossa vida pessoal, seja na profissional, as relações podem produzir saúde e nos fortalecer diante dessa situação, ou podem nos adoecer ainda mais.

De qualquer forma, quando falamos deste apoio social no trabalho, lembramos que é importante nos prevenir de individualizar o sofrimento e responsabilizar somente o sujeito por adoecer ou por ser um herói, como único responsável por ser bem ou malsucedido nessa crise, do ponto de vista de saúde. Afinal, o esgotamento profissional entre os profissionais de serviço, de modo geral, e particularmente os profissionais de saúde e de educação, estão mais sujeitos a sofrer da síndrome de burnout, que é um transtorno psíquico relacionado à exaustão emocional e decorrente de um estado prolongado de estresse. Portanto, é provável que tenhamos, entre os psicólogos que atuam neste momento, reações tardias nesse sentido. Novamente, o coletivo de trabalho é fundamental aqui, porque deixar nossa resistência e enfrentamento a cargo apenas de estratégias individuais não é suficiente, e além disso, nos desmobiliza no conflito necessário que deve existir em toda atividade de trabalho, de opiniões e formas de fazer diferentes, que configura a energia necessária para transformação da organização do trabalho, quando possível, e proteção da saúde.

Sentido do trabalho que cada um cria para si e para lidar e suportar a realidade X Representação e significado dado pela sociedade ao nosso trabalho

O sentido do trabalho não é decretado por alguém, mas produzido pelo indivíduo que trabalha, em interlocução com o significado do trabalho que é compartilhado pela sociedade. Isso tem influência direta da divisão social e moral do trabalho que existe entre nós. Nesse ponto, precisamos falar sobre os rótulos vinculados ao trabalho do psicólogo, frequentemente negativos ou acessórios, como algo não essencial, mas descartável. Saúde mental não é descartável, mas direito de todos, um direito humano fundamental, ainda que a saúde física-biológica esteja em primeiro plano na discussão atual. Contudo, a Psicologia ainda se encontra vinculada principalmente à loucura ou fraqueza psicológica, ambos como pontos negativos.

Apesar de estarmos operando muitas vezes com o mesmo objeto de trabalho – o ser humano – e no mesmo local, não temos o mesmo reconhecimento, valorização ou prestígio. Se ainda temos, dentro da própria profissão, a ideia de que adoecer ou estar vulnerável é sinal de fraqueza, imagine na sociedade, principalmente uma sociedade desigual e injusta como a nossa. O psicólogo deve estar atento aos seus processos de subjetivação neste momento, afinal o sentido que psicólogo atribui ao seu trabalho será essencial para persistir em sua atividade diária, proteger a sua saúde e se reinventar para atender em diferentes formatos e diferentes demandas. O “ter que dar conta” pode ser bastante prejudicial, ainda mais no nosso caso que o reconhecimento não vem, muitas vezes.

O Psicólogo não é visto como herói neste momento pela sociedade, não sendo contemplado nesse espectro dos demais profissionais de saúde, geralmente vinculado ao médico e aos profissionais de enfermagem. E vejo profissionais da própria Psicologia que não se veem como profissionais de saúde. Portanto, existe um ingrediente de responsabilidade nisso que é da nossa própria formação e atuação, cabendo a nós também nos responsabilizar por mudar essa noção social do nosso trabalho.

– Condições materiais de trabalho e autonomia para reinventar a organização da atividade como fator de preservação e proteção da saúde do trabalhador.

Voltando um pouco ao primeiro ponto, quando falei da individualização do adoecimento, não podemos esquecer que, para sermos profissionais e trabalhar conforme as nossas potencialidades, precisamos de condições subjetivas e objetivas para isso. Para além de seguir orientação dos órgãos oficiais e dos especialistas em saúde, é importante reivindicar e denunciar formas inadequadas para exercício profissional, quando as instituições nas quais estamos inseridos não nos fornecem condições materiais adequadas para atuar neste cenário.

Afinal, se existe uma responsabilidade que é do indivíduo nos adoecimentos que ocorrem em virtude do trabalho, existe uma responsabilidade igual ou maior das organizações onde o trabalho é realizado, como já nos indicaram os pesquisadores da Psicopatologia do Trabalho e abordagens teóricas que discutem o nexo causal entre trabalho e adoecimento psíquico.

– Novas tecnologias e formas de trabalho

As mudanças que a gente vem experimentando na vida pessoal e profissional, vêm transformando os modos de ser no trabalho e fora dele. Isso já é uma demanda posta pelo mundo do trabalho. Com a revolução tecnológica e a chamada indústria 4.0, a noção de trabalho tem sido modificada, os modos de fazer, as formas de contratação, os vínculos, muitas vezes em detrimento de direitos duramente conquistados e precarização do trabalho. Somos chamados, cada vez mais, a prestar serviços psicológicos sem crítica ou reflexão, no uso prático do conhecimento científico para fins determinados. A Psicologia precisa se atualizar nisso, claro não só acompanhando as mudanças, mas questionando-as, porque nem todas são positivas e devem ser combatida.

A uberização, o trabalho intermitente e a pejotização, assim como a terceirização irrestrita, já inclusive possível de ser praticada nas áreas fins do serviço público, serão as notas dominantes no mundo do trabalho nos próximos anos. Se não tivermos espaços como os Conselhos, Associações, Sindicatos, assim como inserção dessa discussão nas Universidades, não teremos mecanismo de enfrentamento e resistência. Deixaremos que digam o que a Psicologia deve fazer e com o que ela deve servir a sociedade, ao invés de sermos os protagonistas dessa fala. É por isso que o atendimento on-line, a divulgação de serviços nas redes sociais, como Instagram, Twitter, Facebook e WhatsApp, e todas essas novas possibilidades de comunicação e contato com os nossos clientes deve ser pautada sempre pela ética, pelo conhecimento científico, mas também pelo pensamento crítico sobre o trabalho, sobre aquela “atividade sobre a atividade” que eu dizia no início, onde construímos e pensamos o nosso fazer”.

Indicações de leitura:

Ricardo Antunes – O privilégio da servidão

Pedro Bendassolli e Lis Soboll – Clínicas do Trabalho

Richard Sennett – A corrosão do caráter (resenha)

Paulo Freire – Pedagogia da Autonomia (resenha)

Link para transmissão completa e matéria do CRP-MG

CRP-MG realiza transmissão on-line para debater os desafios relacionados à saúde mental da(o) profissional de Psicologia em tempos de pandemia

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