Lima Barreto: Triste Visionário, por Lilia Moritz Schwarcz

Afonso Henriques de Lima Barreto viveu no Rio de Janeiro, à época, capital federal, entre os anos de 1881 e 1922. Em sua curta vida, publicou romances, contos, crônicas e diversos artigos em periódicos, exercendo o que considerava uma literatura engajada, crítica e social.

Brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, Lima Barreto foi o homenageado da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty, que aconteceu entre 26 e 30 de julho de 2017. Foi nesse período, não exatamente por comparecer ao evento, mas por acompanhar as notícias e publicações na imprensa, que tive a oportunidade de conhecê-lo e iniciar a leitura de sua obra.

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Por estudar o tema da loucura no Mestrado, o que coincidiu com a minha ‘descoberta’ do autor, recorri à edição que une o Diário do hospício e O cemitério dos vivos, sobre os quais escrevi aqui no blog. Paralelamente, busquei a coletânea Contos completos de Lima Barreto, organizada por Lilia Moritz Schwarcz, em formato ebook, e comecei a leitura, que ainda faço lentamente, desta grande reunião de textos do autor.

Entretanto, algo que se observa na leitura da obra de Lima Barreto, é a constante análise, feita por seus comentadores, a respeito das relações estreitas encontradas entre ficção e realidade. Portanto, considero comum que busquemos conhecer a vida do autor e, completa a leitura de Lima Barreto – Triste Visionário, a recente biografia lançada pela Companhia das Letras (2017), acho que a leitura desta é uma excelente opção para isso.

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Composta de 648 páginas, a biografia organizada por Lilia Schwarcz conta a trajetória de Lima em 17 capítulos – além de introduções, notas, referências bibliográficas, cronologia, acervos pesquisados e índice remissivo – e contempla uma análise histórica da origem e do destino do autor. A experiência de conhecer a vida de Lima é também a de conhecer o Brasil, particularmente o Rio de Janeiro, na passagem do século XIX para o século XX, nos primeiros anos da República e momento seguintes à abolição da escravidão.

“O ano que passou foi bom para mim. Em geral, os anos em sete fazem grandes avanços aos meus desejos. Nasci em 1881; em 1887 meti-me no alfabeto; em 1897, matriculei-me na Escola Politécnica. Neste andei um pouco, no caminho dos meus sonhos […] Já começo a ser notado” Lima Barreto, Diário íntimo

É também passear pela obra do autor e do mundo literário de sua época, com suas contradições políticas e sociais, inclusive do próprio Lima, frequentemente caracterizado como um personagem ambivalente.

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Negro, Lima tornou protagonistas ‘negros’, ‘pardos’, ‘mulatos’ e fez críticas sociais, diretas e indiretas, pouco comuns entre os autores no Rio de Janeiro do início do século XX.

“Era ele, também, um defensor irascível de uma literatura em diálogo com as próprias especificidades do país; um algoz da mania generalizada de importação que tomara conta dos brasileiros, e sem a devida ‘tradução local’; um advogado do uso de uma linguagem que incorporasse nossas origens indígenas, africanas e mestiças, assim como a forma popular” (p.496).

Enfim, conhecer a vida e a obra de Lima Barreto, é estudar e mergulhar em temas como a desigualdade social, o preconceito racial, a política brasileira, a loucura e a função social de uma literatura vinculada e crítica à realidade.

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São algumas obras do autor: Recordações do Escrivão Isaías Caminha; Triste Fim de Policarpo Quaresma; Numa e a Ninfa; Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá; Clara dos Anjos; O cemitério dos vivos.

Ficha técnica:

Título: Lima Barreto – Triste Visionário; Autora: Lilia Moritz Schwarcz; Páginas: 648; Formato: 15.90 X 23.60 cm; Editora: Companhia das Letras

14336_ggSíntese: Durante mais de dez anos, Lilia Moritz Schwarcz mergulhou na obra de Afonso Henriques de Lima Barreto, com seu afiado olhar de antropóloga e historiadora, para realizar um perfil biográfico que abrangesse o corpo, a alma e os livros do escritor de Todos os Santos. Esta, que é a mais completa biografia de Lima Barreto desde o trabalho pioneiro de Francisco de Assis Barbosa, lançado em 1952, resulta da apaixonada intimidade de Schwarcz com o criador de Policarpo Quaresma – e de um olhar aguçado que busca compreender a trajetória do biografado a partir da questão racial, ainda pouco discutida nos trabalhos sobre sua vida. Abarcando a íntegra dos livros e publicações na imprensa, além dos diários e de outros papéis pessoais de Lima Barreto, muitos deles inéditos, a autora equilibra o rigor interpretativo demonstrado em Brasil: Uma biografia e As barbas do imperador com uma rara sensibilidade para as sutilezas que temperam as relações entre contexto biográfico e criação literária. Escritor militante, como ele mesmo se definia, Lima Barreto professou ideias políticas e sociais à frente de seu tempo, com críticas contundentes ao racismo (que sentiu na própria pele) e outras mazelas crônicas da sociedade brasileira. Generosamente ilustrado com fotografias, manuscritos e outros documentos originais, Lima Barreto: Triste visionário presta um tributo essencial a um dos maiores prosadores da língua portuguesa de todos os tempos, ainda moderno quase um século depois de seu triste fim na pobreza, na doença e no esquecimento.

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