Sobre psicoterapias, TCC, mindfulness e ideias preconcebidas

Faço psicoterapia há muitos anos, entre idas e vindas. Me lembro de ter começado próximo aos dezoito anos (nos idos de 2003/2004), quando, após algumas crises de ansiedade, tive contato pela primeira vez com um psiquiatra e com uma psicóloga, levado à época pela minha mãe, que muito me ajudou. É um pouco confuso pra mim lembrar a ordem exata dos acontecimentos, mas me lembro de muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Fim do ensino médio, vestibular, início da faculdade, falecimento do meu avô paterno, início de uma banda com colegas do colégio, auto escola, primeiro namoro, entre outros. Portanto, um tratamento psiquiátrico e psicológico era só mais uma coisa na vida, algo para acabar com aquilo que vinha me incomodando e eu não sabia o que era.

Com o passar do tempo, fruto do próprio amadurecimento pessoal (entre muitas besteiras feitas aqui e ali, também), da evolução da psicoterapia e o avançar do curso de Psicologia, comecei a entender melhor o que eu estava fazendo e me implicar um pouco mais naquele processo. Para além de achar que eu mesmo tinha todos os transtornos mentais que eu estava estudando (quem nunca?), me lembro de ter percebido que estava fazendo psicoterapia com abordagem psicanalítica, o que explicava muitas das minhas inquietações sobre a postura da minha analista à época, e começar a entender que existiam abordagens distintas.

Essa percepção também foi produzida pela experiência dos estágios supervisionados na PUC Minas, quando comecei a realmente atender alguns pacientes na clínica, seguindo uma ou outra corrente teórica. Éramos instruídos a nos comportar de uma forma ou de outra, a depender da abordagem escolhida. Estávamos aprendendo. Eu, que fiz um estágio pela abordagem humanista-existencial por um tempo, me lembro do profundo incômodo em não direcionar a consulta de nenhuma maneira, deixar o paciente falar primeiro, responder daquela forma “então você está dizendo que tal coisa é de tal maneira” ou repetir o que paciente acabara de dizer, de modo a enfatizar ou não um conteúdo importante.

Aprendi bastante nesse período, sobre mim, sobre os pacientes e sobre a Psicologia. Não é fácil aprender a ser psicólogo. E tenho certeza que os pacientes, como cobaias do nosso treinamento, também sofrem, mas aprendem muito com isso. Sem eles, o que seria da nossa formação? Para além dessa experiência, o contato com outras abordagens, como o Psicodrama, me levou a questionar a psicoterapia que fazia há alguns anos e tentar outras coisas. No penúltimo ano do curso (2007), fomos apresentados ao Psicodrama, em um estágio obrigatório com crianças. Aquilo me pareceu maravilhoso e fazia muito sentido. Aproveitei a oportunidade e, além do estágio, comecei um curso de formação introdutório no IMPSI (Instituto Mineiro de Psicodrama Jacob Levy Moreno). Na sequência, no último de graduação (2008), tive a oportunidade de já iniciar a pós graduação em Psicodrama, que duraria até o início de 2010.

Para quem nunca teve contato, cabe elucidar que as aulas de Psicodrama, além de teoria, eram recheadas de prática e vivência. Nesse sentido, era quase impossível não se afetar e não envolver com tudo o que acontecia, já que muitas vezes a história dos próprios alunos vinha à tona como instrumento de aprendizado. Como etapa obrigatória do curso de formação e pós graduação, fazíamos uma psicoterapia em grupo pela abordagem do Psicodrama. Até hoje, na minha vida, não me lembro de ter mergulhado em outras coisas tanto como o fiz no Psicodrama. Participei de tudo que aparecia. Congresso, encontro, curso, evento. Até teatro espontâneo eu fiz, com direito a espetáculo a céu aberto no parque municipal, aqui em Belo Horizonte, tocando violão, tambor e atuando um pouquinho. Foi bastante divertido e diferente. A psicoterapia em grupo foi uma experiência muito interessante também, mas talvez eu não estivesse maduro ou empático o suficiente para aproveitá-la integralmente. Podemos ser cruéis e insensíveis e só percebermos anos depois.

Em paralelo, começamos também a atender na clínica do instituto, em duplas. Era, mais uma vez, como havia sido nos estágios supervisionados na graduação, uma oportunidade de aprender e colocar em prática toda a perspectiva teórico-metodológica que vínhamos aprendendo nas aulas. Me lembro de ser uma experiência conflituosa pra mim, que mesclava querer muito e achar muito legal, com não querer, me sentir desconfortável e com receio. Talvez essa sensação, que não foi muito trabalhada por mim na psicoterapia, foi uma das responsáveis pelo meu abandono gradual da atuação em consultório. Afinal, entre o fim da pós graduação e os meses subsequentes, quase um ano, foram poucas as tentativas de realmente seguir e ampliar meu papel de psicólogo clínico, no sentido do consultório individual. Me misturava muito com o que era trazido pelos pacientes e as minhas próprias questões e emoções ainda pareciam muito mal resolvidas.

Hoje, lembrando disso, me parece que o ingresso no Estado, quando fui chamado pelo concurso público no qual estou até hoje, em agosto de 2010, foi o elemento que faltava para enterrar a minha perspectiva de montar um consultório, atender pacientes de forma individual e investir nessa frente de atuação. Me lembro com carinho de alguns pacientes e acredito que os ajudei de alguma forma. Inclusive, outro dia mesmo, encontrei um antigo paciente da época de estágio em Psicodrama. Dessa vez, eu era o paciente e ele o psicólogo. Foi bastante interessante e talvez um dos disparadores desse resgate que tenho feito da minha experiência em psicoterapia. Estou com 35 anos. Se considerar que iniciei aos 18, temos 17 anos de tratamentos. Quase um maior de idade.

Sempre que penso sobre o período de 2010 a 2014, mais ou menos, entendo como um período meio nebuloso nesse setor “tratamentos”. Não estava tão dedicado no trabalho, apesar de ter feito algumas coisas bacanas e publicado algumas também (foi quando coloquei em prática um programa de desenvolvimento de equipes utilizando psicodrama). Já falei sobre esse período e a mudança que observei no texto “Um ponto de virada“. Estava muito dedicado à música, fazendo muitos shows, viajando pra tocar e acho que me desliguei um pouco desse processo terapêutico. Sabe quando, de uma hora pra outra, começamos a tomar mais consciência sobre as nossas escolhas, sobre o que queremos, o que pensamos da vida e tudo mais? Pois é, parece que isso aconteceu comigo a partir de 2014, quando completava meus 29 anos. A partir daí, me engajei mais nos processos psicoterapêuticos. Perceba que isso coincidiu com o início deste blog, em fevereiro de 2014, quando escrevi o primeiro texto (“Aconteceu mais uma vez, sob as mesmas circunstâncias“). Parece que escrever me ajudou a colocar as ideias no lugar.

Recentemente, tive a oportunidade de recapitular esse percurso terapêutico, ao optar por trocar os dois acompanhamentos que vinha fazendo há anos, tanto com psiquiatra, quanto com psicólogo. Ao encerrar, de forma consensual, os dois acompanhamentos, sem fugir de ninguém, entendi que o ciclo com aqueles profissionais já havia se encerrado e que precisava avançar e tentar coisas novas. Entendi que o fato de querer continuar e mudar, mesmo quase duas décadas depois de idas e vindas a tratamentos psicológicos e psiquiátricos, não representava um fracasso ou resultado insatisfatório. Pelo contrário, representou a evolução e o aprendizado de muitos anos, e que a vida muda, o contexto muda, os problemas mudam e as pessoas mudam. A busca por aprimoramento e por uma vida mais saudável pode – e deve – ser uma meta constante, desde que não vire uma obsessão.

Nesse sentido, comecei a buscar abordagens que conheço pouco e me abrir a possibilidades das quais tinha ideias preconcebidas. Particularmente, na Psicologia, entendi que deveria buscar um processo pela Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) e pedi indicações de profissionais a uma amiga psicóloga. Comecei muito recentemente e, talvez em alguns meses, possa voltar com maiores considerações. Contudo, na minha cabeça, buscava algo mais direcionado, objetivo, com maior foco na vida prática e, até agora, encontrei o que queria. Talvez seja incoerente dizer isso vindo de uma abordagem tão vivencial quanto o Psicodrama, porém entendo que algumas mudanças são importantes, até mesmo para enxergarmos antigas experiências de outras formas e acionarmos circuitos neuronais diferentes.

De acordo com o Blog Vittude, “a Terapia Cognitivo Comportamental ou TCC é uma abordagem da psicoterapia baseada na combinação de conceitos do Behaviorismo radical com teorias cognitivas. A TCC entende a forma como o ser humano interpreta os acontecimentos como aquilo que nos afeta, e não os acontecimentos em si. Ou seja: é a forma como cada pessoa vê, sente e pensa com relação à uma situação que causa desconforto, dor, incômodo, tristeza ou qualquer outra sensação negativa”. Ainda segundo o blog, “seu objetivo principal é identificar padrões de comportamento, pensamento, crenças e hábitos que estão na origem dos problemas,  indicando, a partir disso, técnicas para alterar essas percepções de forma positiva”. Mais informações sobre essa linha podem ser encontradas no site da Federação Brasileira de Terapia Cognitivas (FBTC) e da Associação de Terapias Cognitivas de Minas Gerais (ACT Minas).

Além de buscar uma abordagem que me apresente outros dispositivos e entendimentos, tenho acessado também alguns conteúdos que considero bem interessantes, mas que via com algum preconceito, confesso, por estarem muitas vezes associados à autoajuda ou algo muito popularizado, como o mindfulness ou o livro “A coragem de ser imperfeito”, da Brené Brown. Contudo, por indicação da profissional atual, assisti a alguns vídeos interessantes e tenho mudado a minha forma de ver essas abordagens.

Alguns estão disponíveis no catálogo do Netflix, particularmente na série Explicando – A Mente, sendo dois episódios específicos: Ansiedade (Anxiety) e Meditação (Mindfulness). Os episódios são muito bons, didáticos e elucidativos, e nos ajudam a compreender como a ansiedade funciona e como a meditação, particularmente o mindfulness, pode auxiliar a tomar consciência dos nossos pensamentos.

Outros estão disponíveis no YouTube. Deixo alguns deles aqui:

A conclusão deste texto é que a psicoterapia, seja com o auxílio de medicamentos ou não, não é um processo linear, contínuo, exato, com início, meio e fim, como se fossemos nos tornar uma pessoa melhor e pronta para viver em determinado ponto, e nunca mais precisaríamos de qualquer ajuda. A psicoterapia, assim como a vida, é cheia de altos e baixos, de mudanças, de momentos mais e menos produtivos. Espero que essa nova temporada traga novos crescimentos pessoais e profissionais. O importante é seguir em movimento.

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