Aconteceu mais uma vez, sob as mesmas circunstâncias

Essa é uma frase que ouvimos bastante há algum tempo e, infelizmente, fala de um novo ato de violência que ocorreu perto ou longe de nós.

Alguém tomou um tiro e está em estado grave no hospital. Outro foi assaltado no sinal. Alguém foi vítima de um sequestro relâmpago. “Está cada vez mais perto”, é outra frase que escuto bastante.

Existem muitos conceitos e sentimentos que definem o momento que vivemos como “a cultura do medo”, “imaginário do medo”, constante insegurança, incerteza, preocupação excessiva, cautela. Muitos textos e opiniões citam a violência social como um resultado da organização da sociedade, um saldo negativo da desigualdade social. Não discordo desse ponto de vista, a violência é uma herança. A sociedade produz sim indivíduos que recorrem a violência como forma de lidar com a injustiça social. De onde estamos, nada justifica a violência, mesmo uma vida repleta de humilhações e dificuldades. Uma vingança. Talvez se estivéssemos na pele do criminoso entenderíamos um pouco melhor.

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“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem” Bertold Brecht

No entanto, já existem diversos setores da sociedade (talvez insuficientes) se preocupando com os motivos que levam um ou outro a cometer um crime, com formas de reduzir a formação de novos criminosos através da prevenção e também com a reinserção social de quem já teve sua punição.

O resultado da sociedade é visível. O aumento da violência é um fato. Existem números e a mídia só fala nisso. Não quero questionar se existe uma teoria da conspiração por trás de toda a imprensa querendo produzir medo nas pessoas, de modo que aceitemos a força policial e as medidas autoritárias do Estado como atitudes benevolentes dos nossos governantes, que se preocupam com a gente. Essa análise é muito delicada.

Mas quais os efeitos psicológicos que a violência produz em mim? O efeito individual. Não estou falando sobre a violência direta que por acaso um indivíduo sofreu (doméstica, sexual, psicológica, etc.) e nem da violência extrema (uma morte, uma agressão), mas sim a observação da violência, o relato do ato violento que alguém próximo de nós vivenciou, um assalto, um roubo, um insulto. Não precisa ser psicólogo para dizer que ter um conhecido assassinado ou saber que a padaria que você frequenta todos os dias foi assaltada balança, mesmo que levemente, a cabeça de alguém.

Sobre o resultado social, as autoras do texto “Violência, insegurança e imaginário do medo”, dizem que o imaginário do medo:

“1) transforma as relações sociais, fazendo de cada indivíduo uma vítima atual ou potencial, ou um suspeito permanente, desenvolvendo formas de solidariedade e identificação ou colocando uns contra outros; 2) cria novos lugares de encontro, de socialidades, originando aventuras comunitárias de proteção coletiva, que mobilizam os grupos em torno das figuras do medo.” (TEIXEIRA e PORTO, 1998).

O saldo relacional é mesmo conflituoso. Pode gerar união ou desunião, coletivismo ou individualismo. Mas como a proximidade da violência nos afeta individualmente? Afinal, por mais que sejamos seres sociais, convivemos vinte e quatro horas com os nossos pensamentos.

Imagem: Michal Dziekan

Imagem: Michal Dziekan

Também somos seres violentos, talvez de formas diferentes, mas somos. Enxergamos algo de nós nas pessoas que consideramos extremamente violentas? Somos da mesma espécie.

A violência traz ansiedade? Depressão? Isolamento? Estamos nos recolhendo?

Na “era digital”, apenas instigo a curiosidade para pensarmos, como você tem processado essas informações na sua cabeça? Como a violência te afeta? Que sentimentos compartilhamos?

O psiquiatra Irvin D. Yalom, autor de livros como “Quando Nietzsche Chorou” e “Mentiras no Divã”, desenvolve método e teoria da Psicoterapia Existencial que caracteriza como “um enfoque dinâmico que se concentra nas preocupações enraizadas na existência do indivíduo”. Essas preocupações envolvem quatro pressupostos: a morte, a liberdade, o isolamento existencial e a carência de sentido da vida. A ideia é que, ao tomarmos consciência desses fatores, seria gerada uma angústia que consequentemente é “combatida” com determinados mecanismos ou táticas de defesa. Ou seja, estamos em constante confronto com essas realidades “desagradáveis”.

Mas em que momentos ou a partir de quais estímulos tomamos consciência dessas questões existenciais? Afinal, não estamos nos preocupando com a nossa morte ou a dos outros a todo momento, refletindo sobre o sentido da vida ou nos deparando com nossa solidão todos os dias. No entanto, uma vez que tais preocupações são inerentes ao ser humano, tomamos consciência delas principalmente através de “situações-limite”. De acordo com Cabral (2014), “seriam momentos críticos de nossas vidas que muitas vezes exigem uma reavaliação, re-significação da própria existência”.

Entendo que todas as preocupações estão conectadas e nos influenciam de diferentes maneiras em diferentes momentos de nossas vidas. No entanto, quando falamos sobre a violência, é ainda mais evidente que “de todos os pressupostos, a morte é o mais evidente, o que se apresenta de forma mais concreta e pungente. Afinal, todos vamos morrer um dia” (Cabral, 2014).

“Ontem me disseram que um dia eu vou morrer, Mas até lá eu não vou me esconder, Porque eu não estou nem aí pra morte, Não estou nem aí pra sorte, Eu quero mais é decolar toda manhã” Arnaldo Baptista

Yalom (1984), citado por Cabral (2014), afirma que “ainda que o evento físico da morte destrua o homem, a ideia da morte serve para salvá-lo”. Basicamente a ideia é que a partir do momento que nos deparamos com a experiência da morte, seja a ameaça dela em nós mesmos, ou com pessoas próximas, passa-se de um estado de desatenção consigo mesmo para um estado de consciência de si mesmo, de cuidado. De acordo com Cabral (2014), essa desatenção é um estado “onde a pessoa não percebe sua responsabilidade em relação à sua vida e ao mundo”. Já o cuidado consigo mesmo, traz “a contínua consciência do ser, traduzida pela responsabilidade que se tem consigo mesmo”. Nesse sentido, a experiência da morte nos desperta para a vida que escolhemos, para a nossa responsabilidade com a própria existência e com o mundo.

Ainda de acordo com Cabral (2014), não costumamos permanecer por muito tempo nesse estado de atenção devido a angústia que ele gera. Afinal, pode ser um peso grande estarmos conscientes a todo momento da consequência de nossos desejos e escolhas para a nossa vida, as outras pessoas e o mundo. Acabamos por adotar algum tipo de “defesa”, seja a crença de que somos especiais e que, no fundo, no fundo, nada acontecerá conosco. Seja a crença em um salvador, a “entrega de nossa vida ou destino” ao outro, criando uma extrema dependência, perdendo nossa própria identidade.

Recomendo a leitura integral do texto de Ricardo Cabral.

Imagem: Will Tirando

Imagem: Will Tirando

Me interessa o despertar da consciência que a experiência da violência, da morte, da insegurança, nos traz. Vemos a vida, nosso direito básico, ameaçada.

No entanto, a mera consciência ou reflexão, sem a elaboração e sem ação, nos serve pouco ou quase nada. Claro que estou trazendo definições teóricas desenvolvidas dentro de uma experiência clínica de psicoterapia para o nosso dia a dia, e não necessariamente as ações e reações são iguais. As definições mencionadas acima são utilizadas de uma determinada forma na clínica da Psicoterapia Existencial e na sua compreensão teórica.

Mas não se trata de uma experiência já vivida por nós? Já não passamos por algo parecido? A violência, o medo, a insegurança, a morte, nos impactam e alteram, mesmo que provisoriamente nosso modo de pensar.

Como podemos utilizar essa “alteração da consciência” para um estado de maior atenção, positivamente? Como não se perder o sentimento de que temos que participar da criação de nós mesmos, de nossa vida e do nosso mundo?

Em que momento optamos não pela atitude, pela ação construtiva, mas sim pelo recolhimento, pela defesa? São muitas questões e, como tudo na psicologia e em nossa vida, são muitas as respostas possíveis.

Este texto foi publicado também no Portal dos Psicólogos

Referências bibliográficas:

TEIXEIRA, M. C. Sanches e PORTO, M. do Rosário Silveira. Violência, insegurança e imaginário do medo. Cadernos Cedes, ano XIX, nº 47, dezembro/98. Acesso em 12/02/2014. http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v19n47/v1947a05.pdf

CABRAL, Ricardo Dantas. Psicoterapia existencial: a sistematização de Irvin D. Yalom. Rio de Janeiro. Acesso em 17/02/2014. http://pt.scribd.com/doc/54333923/Cabral-Ricardo-Psicoterapia-Existencial-A-sistematizacao-de-Irvin-D-Yalom

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