Pequeno Manual Antirracista, por Djamila Ribeiro

Você é racista? É bem provável que sim. Aliás, se você vive no Brasil, é bem difícil que não seja. Talvez você nem se dê conta disso, nunca tenha pensado sobre ou apenas rechace, de imediato, o que, provavelmente, já diz bastante sobre sua postura diante do tema. Tenha calma. Se serve de algum consolo, caso você seja, como eu, um branco com alguns privilégios aprendendo coisas que já deveria saber há muito tempo, “é impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade racista. É algo que está em nós e contra o que devemos lutar sempre”, como afirma a filósofa e ativista Djamila Ribeiro.

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Filósofa e ativista Djamila Ribeiro

Contudo, como diz a autora, “não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a responsabilidade leva à ação. Dessa forma, se o primeiro passo é desnaturalizar o olhar condicionado pelo racismo, o segundo é criar espaços, sobretudo em lugares que pessoas negras não costumam acessar” (posição 205). O racismo é estrutural, como nos indica Silvio Luiz de Almeida, em seu livro que já comprei, mas ainda vou ler (sua entrevista ao Roda Viva foi bem interessante).

Já venho tentando ler e aprender sobre isso há algum tempo, como trouxe em alguns textos, como ao falar da biografia de Lima Barreto, do livro da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, da filósofa Angela Davis ou do excelente documentário “Eu não sou seu negro”, baseado em um manuscrito-roteiro inacabado deixado pelo escritor norte americano James Baldwin. Agora, minha leitura mais recente foi o Pequeno Manual Antirracista (Companhia das Letras, 2019), escrito pela filósofa e ativista Djamila Ribeiro.

Recentemente, com a morte de George Floyd, nos EUA, o debate sobre o racismo novamente voltou à pauta, de onde nunca deveria ter saído. Aqui, no Brasil, por exemplo, casos muito parecidos – ou piores – acontecem todos os dias e há bastante tempo, como ilustra essa matéria do portal G1 (Pretos e pardos são 78% dos mortos em ações policiais no RJ em 2019). Contudo, acompanhando a mobilização gerada nos EUA, casos recentes, envolvendo crianças, o que é ainda pior, ganharam o noticiário no Brasil, como o de Miguel Otávio e João Pedro. Como ressalta Djamila, “por ser naturalizado, esse tipo de violência se torna comum” (posição 138).

Em outro trecho, a autora indica que “devemos aprender com a história do feminismo negro, que nos ensina a importância de nomear as opressões, já que não podemos combater o que não tem nome. Dessa forma, reconhecer o racismo é a melhor forma de combatê-lo. Não tenha medo das palavras “branco”, “negro”, “racismo”, “racista”. Dizer que determinada atitude foi racista é apenas uma forma de caracterizá-la e definir seu sentido e suas implicações. A palavra não pode ser um tabu, pois o racismo está em nós e nas pessoas que amamos—mais grave é não reconhecer e não combater a opressão” (posição 116).

Portanto, temos muito o que aprender e fazer acompanhando autores brasileiros e tentando entender melhor a nossa realidade, para modificá-la, já que o racismo não é nenhuma novidade por aqui. Acompanhar pensadores negros, divulgar o seu trabalho, assim como seguir movimentos como a Coalizão Negra Por Direitos e apoiar a presença de pessoas que fujam à atual ocupação hegemônica (homens brancos) na dimensão política (como Áurea Carolina e Andreia de Jesus, por exemplo, em Minas Gerais), são apenas algumas das coisas que podemos fazer para mudar uma realidade que, por mais que de formas desproporcionais, afeta a todos nós.

Um levantamento recente realizado pela Rede de Observatórios da Segurança, intitulado “Racismo, motor da violência”, aponta que, apesar de negros e negras serem as principais vítimas da violência no Brasil, “um impressionante silêncio sobre o tema racial tem prevalecido na mídia e no debate público”. O relatório aponta que “o racismo é reproduzido cotidianamente, inclusive na produção de conhecimento quando a raça é marginalizada e perspectivas antirracistas são silenciadas”.

Nesse sentido, recomendo a leitura deste manual produzido pela Djamila Ribeiro e que traz “dez lições breves para entender as origens do racismo e como combatê-lo”, além de deixar alguns trechos destacados da minha leitura. O mundo está mudando. Você deveria mudar, também:

Posição 36 – Com o tempo, compreendi que a população negra havia sido escravizada, e não era escrava—palavra que denota que essa seria uma condição natural, ocultando que esse grupo foi colocado ali pela ação de outrem.

Posição 66 – O racismo é, portanto, um sistema de opressão que nega direitos, e não um simples ato da vontade de um indivíduo.

Posição 70 – Consciente de que o racismo é parte da estrutura social e, por isso, não necessita de intenção para se manifestar, por mais que calar-se diante do racismo não faça do indivíduo moral e/ou juridicamente culpado ou responsável, certamente o silêncio o torna ética e politicamente responsável pela manutenção do racismo.

Posição 89 – sem dúvida, todos os racismos são abomináveis e cada um faz as suas vítimas do seu modo. O brasileiro não é o pior, nem o melhor, mas ele tem as suas peculiaridades, entre as quais o silêncio, o não dito, que confunde todos os brasileiros e brasileiras, vítimas e não vítimas [do racismo].

Posição 96 – É preciso identificar os mitos que fundam as peculiaridades do sistema de opressão operado aqui, e certamente o da democracia racial é o mais conhecido e nocivo deles.

Posição 104 – Essa visão paralisa a prática antirracista, pois romantiza as violências sofridas pela população negra ao escamotear a hierarquia racial com uma falsa ideia de harmonia.

Posição 132 – Como diz a pesquisadora Joice Berth: “Não me descobri negra, fui acusada de sê-la”.

Posição 145 – Simone de Beauvoir afirmava que não há crime maior do que destituir um ser humano de sua própria humanidade, reduzindo-o à condição de objeto.

Posição 170 – É importante ter em mente que para pensar soluções para uma realidade, devemos tirá-la da invisibilidade. Portanto, frases como “eu não vejo cor” não ajudam. O problema não é a cor, mas seu uso como justificativa para segregar e oprimir. Vejam cores, somos diversos e não há nada de errado nisso—se vivemos relações raciais, é preciso falar sobre negritude e também sobre branquitude.

Posição 181 – Se a população negra é a maioria no país, quase 56%, o que torna o Brasil a maior nação negra fora da África, a ausência de pessoas negras em espaços de poder deveria ser algo chocante. Portanto, uma pessoa branca deve pensar seu lugar de modo que entenda os privilégios que acompanham a sua cor. Isso é importante para que privilégios não sejam naturalizados ou considerados apenas esforço próprio.

Posição 197 – O conceito de lugar de fala discute justamente o locus social, isto é, de que ponto as pessoas partem para pensar e existir no mundo, de acordo com as suas experiências em comum.

Posição 205 – Não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a responsabilidade leva à ação. Dessa forma, se o primeiro passo é desnaturalizar o olhar condicionado pelo racismo, o segundo é criar espaços, sobretudo em lugares que pessoas negras não costumam acessar.

Posição 212 – É impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade racista. É algo que está em nós e contra o que devemos lutar sempre.

Posição 218 – Como diz a pensadora feminista negra Audre Lorde, é necessário matar o opressor que há em nós, e isso não é feito apenas se dizendo antirracista: é preciso fazer cobranças.

Posição 287 – Dessa forma, é preciso romper com a estratégia do “negro único”: não basta ter uma pessoa negra para considerar que determinado espaço de poder foi “dedetizado contra o racismo”.

Posição 295 – Como diz a pesquisadora Joice Berth, a questão, para além de representatividade, é de proporcionalidade.

Posição 351 – A gravidade disso está exemplificada por Abdias do Nascimento em O genocídio do negro brasileiro, no qual afirma que genocídio é toda forma de aniquilação de um povo, seja moral, cultural ou epistemológica.

Posição 364 – O privilégio social resulta no privilégio epistêmico, que deve ser confrontado para que a história não seja contada apenas pelo ponto de vista do poder. É danoso que, numa sociedade, as pessoas não conheçam a história dos povos que a construíram.

Posição 507 – Fala-se muito em empatia, em colocar-se no lugar do outro, mas empatia é uma construção intelectual, ética e política.

Posição 514 – Mas é preciso lembrar que a vítima preferencial tem pele negra. O Atlas da Violência de 2018, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelou que a população negra está mais exposta à violência no Brasil. Os negros representam 55,8% da população brasileira e são 71,5% das pessoas assassinadas.

Posição 546 – Sabemos que hoje dois em cada três presos no Brasil são negros. Sabemos também que o tráfico lidera as tipificações para o encarceramento: 26% dos homens estão presos por tráfico, chegando a 62% no caso das mulheres.

Posição 568 – A confusão da negritude com o crime não ocorreu naturalmente. Ela foi construída pelas elites políticas e midiáticas como parte de um amplo projeto conhecido como Guerra às Drogas.

Posição 571 – Na era da neutralidade racial, já não é permitido odiar negros, mas podemos odiar criminosos. Na verdade, nós somos encorajados a fazer isso.

71T9g5sfWqL“Neste pequeno manual, a filósofa e ativista Djamila Ribeiro trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. Em dez capítulos curtos e contundentes, a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas. Já há muitos anos se solidifica a percepção de que o racismo está arraigado em nossa sociedade, criando desigualdades e abismos sociais: trata-se de um sistema de opressão que nega direitos, e não um simples ato de vontade de um sujeito. Reconhecer as raízes e o impacto do racismo pode ser paralisante. Afinal, como enfrentar um monstro desse tamanho? Djamila Ribeiro argumenta que a prática antirracista é urgente e se dá nas atitudes mais cotidianas. E mais ainda: é uma luta de todas e todos”.

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