“Eu Não Sou Seu Negro”, James Baldwin e Raoul Peck

“Eu não sou seu negro” (I am not your negro, 2016) é um documentário indicado ao Oscar em 2017 e baseado em um manuscrito-roteiro inacabado deixado pelo escritor norte americano James Baldwin. Em uma carta escrita pelo autor ao seu agente literário, Baldwin descreve, em 1979, o que seria o seu próximo projeto, “Remember This House“, um relato pessoal sobre as vidas e os assassinatos de três amigos próximos: Medgar Evers (1963), Malcolm X (1965) e Martin Luther King (1968).

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Recebi a indicação desse documentário em um dos podcasts que ouço frequentemente, mas não me recordo qual, por isso não vou arriscar. A princípio, anotei na minha lista de “coisas para ler ou assistir” e deixei pendente. Ontem, ao finalizar a leitura do livro “Mulheres, raça & classe“, da escritora Angela Davis, sobre o qual escrevi no rapidamente no blog, me lembrei dele e resolvi assisti-lo. Tenho procurado ler bastante sobre a questão racial, até mesmo porque o sistema prisional – meu tópico predileto de pesquisa – é uma grande reflexo dos problemas causados pelo nosso modelo social, e o racismo está diretamente vinculado ao seu funcionamento.

James Arthur Baldwin nasceu em 02 de agosto de 1924 em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Em matéria do Nexo, em agosto de 2018, Juliana Domingos indica a importância de a obra de Baldwin ser lida no Brasil, principalmente por tratar das relações raciais e homoafetivas, questões, mais do que nunca, presentes no debate público brasileiro.

James Baldwin

James Baldwin

Nunca li nada de James Baldwin, mas pretendo ler agora. A ideia de escrever “Remember This House” veio ao autor com o objetivo de tratar como havia conhecido essas três importantes figuras políticas, sobre os seus propósitos na luta pelos direitos civis, particularmente pela equidade racial e, por fim, como os três haviam sido assassinados no espaço de cinco anos apenas. Apesar de ter iniciado o projeto, recebido até um adiantamento pela publicação futura e ter executado algumas tentativas de completar a empreitada, Baldwin escreveu somente em torno de trinta páginas de notas sobre o tema, até a sua morte em 1987.

“Vocês não podem me linchar e me manter em guetos, sem se tornarem algo monstruoso. E além disso, vocês me dão uma vantagem imensa. Vocês nunca tiveram que olhar para mim. Eu tinha que olhar para vocês. Eu sei mais sobre vocês do que vocês sabem sobre mim. Nem tudo o que se enfrenta pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado até que seja enfrentado” (trecho da narração do documentário)

O texto deixado pelo autor, como indica o professor Kristopher Jansma, do site Eletric Literature, chegou às mãos do produtor Raoul Peck, que já trabalhava em um documentário sobre Baldwin, pouco mais de duas décadas depois da morte de seu autor, pelas mãos de Gloria Karefa-Smart, a irmã de James. Peck, então, fazendo uso das próprias palavras de Baldwin, na voz do ator Samuel L. Jackson, além de aparições públicas do escritor e das três figuras políticas tratadas, nos trouxe um documentário brilhante e marcante sobre a questão racial nos Estados Unidos.

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Trecho do documentário “I Am Not Your Negro”

Apesar de tratar de uma realidade distinta, o filme “Eu Não Sou Seu Negro”, que pode ser encontrado gratuitamente no YouTube, traz questões para pensarmos a sociedade brasileira e o seu racismo pouco discutido e reconhecido. Em cerca de uma hora e trinta minutos, a narração, misturada a fatos antigos e atuais, traz um clima dramático e pessoal para o documentário, deixando claro o sofrimento vivido por quem experienciou e ainda experiencia o racismo nos Estados Unidos.

Sinopse: Master filmmaker Raoul Peck envisions the book James Baldwin never finished, Remember This House. The result is a radical, up-to-the-minute examination of race in America, using Baldwin’s original words and flood of rich archival material. I Am Not Your Negro is a journey into black history that connects the past of the Civil Rights movement to the present of #BlackLivesMatter. It is a film that questions black representation in Hollywood and beyond. And, ultimately, by confronting the deeper connections between the lives and assassination of Medgar Evers, Malcolm X and Martin Luther King Jr., Baldwin and Peck have produced a work that challenges the very definition of what America stands for.

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