Angela Davis: Mulheres, raça e classe

Em novembro, fiz duas compras na Boitempo Editorial relacionadas à discussão sobre racismo, gênero e classes sociais: A nova segregação – racismo e encarceramento em massa, da norte-americana Michelle Alexander; e Mulheres, raça e classe, da icônica Angela Davis. Tenho aproveitado o recesso das festas de fim de ano para colocar as leituras em dia e terminei hoje o segundo título. O primeiro, segue na lista.

Angela Davis é uma mulher negra, filósofa, professora da Universidade da Califórnia e um símbolo da luta pelos direitos civis. Nascida em 26 de janeiro de 1944 em Birminghan, no Alabama, Davis é conhecida principalmente por seu ativismo nos movimentos negros e feministas, e também por integrar o Partido Comunista dos Estados Unidos e os Panteras Negras. Sua prisão e o seu julgamento, na década de 1970, contribuíram com a sua notoriedade mundial.

Mulheres, raça e classe (título original: Women, race & class), foi publicado em 1981 e se tornou uma das principais obras da autora. Editado pela Boitempo em 2016, o livro toma como referência, principalmente, a realidade norte americana, mas se mostra extremamente atual para a realidade brasileira, tratando de temas difíceis, como: o movimento antiescravagista, o legado da escravidão e a origem dos direitos das mulheres e sua emancipação.

No entanto, Angela Davis traz um olhar diferenciado ao relacionar toda a discussão que constrói com o racismo estrutural – impregnado e enraizado na própria organização social – nos Estados Unidos e o avanço do capitalismo no mundo. Ou seja, a autora nos mostra como é ilusório acreditarmos que o movimento sufragista feminino (direito ao voto), por exemplo, pode ser interpretado como uma luta homogênea e imune à ideologia racista predominante na sociedade. E assim ocorreu e ainda ocorre com outras pautas políticas.

Davis mostra como, entre mulheres negras recém libertadas da escravidão, mulheres brancas de classe média burguesa e mulheres brancas pobres e trabalhadoras, por exemplo, havia uma distância grande de interesses e experiências, o que influenciou inclusive nos movimentos políticos levados à cabo por um ou outro grupo. O que era prioridade para um, não necessariamente correspondia às prioridades de outro.

Uma dica para acompanhar a leitura do livro é o documentário “Free Angela and All Political Prisoners” (2013), que conta a sua história, o qual ainda vou procurar assistir.

Em entrevista recente ao El País, ao ser questionada sobre o atual avanço do conservadorismo em diversos países, a filósofa indicou como o racismo se aprofundou em violência, mas como também alguns movimentos surgiram enquanto frutos de lutas históricas:

Depois de 50 anos de luta, a situação atual a desanima? “Não. O racismo hoje volta a ser mais violento e explícito, mas também existe um forte movimento à esquerda e uma maior consciência. Movimentos como #MeToo e Black Lives Matter são resultado do trabalho de várias gerações. A percepção da injustiça e da desigualdade é mais profunda”

Essa foi a minha primeira leitura da autora e percebi que, ler e ouvir Angela Davis, pode ser uma oportunidade de desconstruir lugares-comuns sobre temas enraizados em nossos comportamentos e ideias, influenciando inclusive no que acreditamos se tratar de uma sociedade mais justa para todos. O vídeo abaixo traz uma síntese do livro no canal da Boitempo. Recomendo.

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2 Respostas para “Angela Davis: Mulheres, raça e classe

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