De volta à cadeira de aluno #6

Este post é mais um pequeno diário que se propunha semanal (ou quinzenal) do Mestrado no blog – mas que se tornou ocasional – das minhas impressões, descobertas e achados. O Mestrado acabou em fevereiro de 2018. Virou Doutorado desde março deste ano. A minha última publicação foi em janeiro de 2018, pouco antes de defender a minha dissertação. Se quiser, leia as postagens anteriores para ficar por dentro, mas não é indispensável.

A ideia é apenas registrar o processo, a evolução, a vivência da formação e do trabalho, sem nenhuma responsabilidade com a verdade definitiva ou saber empírico. Um hábito que tomo como diário de campo. E acaba sendo útil pra dar aquela “parada pra pensar”.

*Aliás, o editor do WordPress resolveu mudar e sumir com a opção de “justificar” o texto, então ele fica assim, meio pra esquerda. Não estou sabendo lidar muito bem com isso.

No dia 06 de fevereiro deste ano, apresentei a minha dissertação intitulada 
“O dom de ver atrás do morro”: a atividade de agentes de segurança penitenciários em um manicômio judiciário de Minas Gerais, na PUC Minas. Ela está disponível aqui. Como havia me qualificado no fim do ano passado, senti que a banca era uma espécie de continuação daquele momento (com um pouco mais de emoção). Deu tudo certo. Aprovado com louvor.

Daria vários abraços na minha banca, por que ela foi sensacional: meu orientador, Prof. José Newton Garcia de Araújo; o Prof. João César de Freitas Fonseca, atual coordenador de um projeto de pesquisa do qual falarei abaixo; e a Profª Ludmila Mendonça Ribeiro, do Departamento de Sociologia e do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública, ambos da UFMG. Sei que é clichê, mas o trabalho não seria sido o mesmo sem nenhum deles.

Aliás, como disse no texto anterior, enquanto me preocupava em fechar o mestrado, tentava ingressar no doutorado, na PUC mesmo. Quando tudo passou – aprovado no mestrado e no doutorado – me vi no que chamo carinhosamente de ‘ressaca’ acadêmica – o que coincidiu com o carnaval, então talvez, tenha sido só ressaca normal mesmo. Estava cansado do processo todo e comecei o ano um pouco mais devagar do que o habitual. Querendo ler uns romances, pra variar.

Mas, não deu pra descansar muito. Ao contrário do mestrado, quando consegui liberação parcial do meu trabalho para frequentar as aulas, no doutorado não poderia seguir com esse tipo de licença. Ou seja, a única opção seria compensar as horas de trabalho que eu perderia por conta das aulas. E assim foi e tem sido. Enquanto curso apenas as disciplinas obrigatórias, me comprometo a fazer outras coisas para cumprir os créditos necessários – apresentar trabalhos em eventos, dar minicursos, publicar artigos, etc. Alguns exemplos:

  • VIII Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do Trabalho, em julho/2018 (02 trabalhos).
  • I Encontro de Pós-Graduação em Psicologia de Minas Gerais, em setembro/2018 (01 trabalho e 01 minicurso).
  • CRISP Apresenta: O trabalho dos agentes penitenciários, em outubro/2018 (apresentação da pesquisa do mestrado).
  • XXI Encontro Regional da ABRAPSO Minas, em outubro/2018 (03 trabalhos).
  • Seminário Saúde Mental e Trabalho: formas de adoecimentos e possibilidades de intervenções, em novembro/2018 (palestra sobre Clínica da Atividade).

Hoje, vamos dividir o diário em quatro pontos: 1. Uma experiência na mineração; 2. Frutos da dissertação; 3. Minicursos; e, por fim, 4. Blog Trabalho e Psicologia.

Uma experiência na mineração

Apesar da vontade de curtir a ‘ressaca’ acadêmica, o meu início de doutorado foi animado. Ingressei em um projeto de pesquisa com duração prevista de dois anos (2018-2019), responsável por um trabalho em uma grande empresa do ramo de mineração. Como se já não fosse diferente o suficiente para mim estar na área de mineração – nunca tinha pisado em uma mina na vida -, a pesquisa seria realizada na região Norte do país. Ou seja, garantia de viagens interestaduais.

Foto de uma parte da mina onde estamos realizando a pesquisa

O projeto teve início em janeiro de 2018 e tem como objetivo investigar variáveis psicossociais que afetam o trabalho de operadores de escavadeira em um sistema de exploração de minério de ferro. A equipe de pesquisa está vinculada à PUC Minas e conta com professores, bolsistas de doutorado, mestrado, iniciação científica e apoio técnico. No começo, não tinha muita noção da dimensão do projeto e só fui observar quão rica seria a experiência enquanto ela acontecia.

Em março fiz a minha primeira viagem ao local. Um município pequeno, uma mina gigantesca. Ficamos uns três ou quatro dias por lá, entre hotel, jantares e minério, muito minério. A prática no campo de pesquisa me despertou da ressaca e a partir fui me ativando novamente aos poucos para seguir o ano. Voltei lá entre o fim de julho e início de agosto, para a minha segunda visita. Mais uns quatro dias. Mas, de tudo o que vem sendo a participação no projeto, vou ressaltar dois pontos. Em breve, poderei revelar mais sobre a pesquisa.

Clínica da atividade na prática

Como já deixei claro em textos anteriores, me aproximo bastante do referencial teórico e metodológico da Clínica da Atividade, trazida pelo francês Yves Clot, e que se trata de uma das abordagens clínicas do trabalho, que buscam basicamente compreender e intervir sobre situações laborais. Até entrar em campo na mineração, não havia aplicado os dispositivos da Clínica da Atividade, ou seja, as técnicas que ela propõe. Vinha apenas me utilizando dos princípios e conceitos para pensar e analisar o trabalho. 

Particularmente na segunda viagem, tive a chance de conduzir e acompanhar a execução de uma das técnicas, a autoconfrontação simples e cruzada. Em síntese, trata-se de um método para analisar a atividade em que você filma o trabalhador executando o seu trabalho, para em seguida sentar e discutir com ele sobre aquela filmagem. É uma forma de deslocar o trabalhador de sua posição comum, para que ela veja o próprio trabalho sob uma nova perspectiva. Faço esse mesmo procedimento com outras pessoas que fazem o mesmo trabalho. Essa é a autoconfrontação simples.

Um dos artigos sobre o tema. Você pode ler mais sobre o assunto aqui.

Em um segundo momento, acrescentamos um dos colegas que realiza a mesma atividade, para que, em trio – pesquisador, trabalhador 1 e trabalhador 2 – possamos comentar a filmagem novamente. Depois inverto a situação. Ou seja, o trabalhador 1 vai poder comentar a sua filmagem e a do colega, e vice-versa. Essa é a autoconfrontação cruzada. Por fim, cabe dizer que a experiência de conduzir a técnica e ver na prática os efeitos que ela produz e os desafios que apresenta, é algo surpreendentemente difícil e enriquecedor. Gostei bastante.

Trabalhando em equipe

Sempre tive uma predileção por trabalhar sozinho. Não me orgulho disso, mas normalmente é mais fácil. Então, a experiência de compôr uma equipe de pesquisa e estar comprometido a não só conduzir a pesquisa, mas produzir e tomar decisões em conjunto, vem sendo uma tarefa complexa, mas agradável. Duas cabeças pensam melhor que uma, já diziam por aí. O que é verdade. Mas quando nos colocamos em equipe, nos apresentamos para afetar e ser afetado pelos outros, para o bem e para o mal.

Em psicologia, principalmente, parece que somos formados para pegar o nosso diploma e abrir o nosso consultório, esperar os clientes chegarem e dali seguir a nossa carreira clínica. Mas a psicologia já se mostrou – e vem se mostrando, cada vez mais – muito mais do que isso. No campo das políticas públicas e das instituições, então, a própria noção de clínica deve ser bastante ampliada.

“Cada um faz uma parte e depois a gente junta”

Talvez a minha experiência profissional deste ano – ser referência técnica dos psicólogos que atuam em unidades prisionais – esteja me auxiliando a ampliar minha forma de atuar. Querer e desejar produzir em grupo. Estar em conjunto. A participação nesse projeto científico já me trouxe vários ganhos nesse sentido, apesar de nem sempre percebermos com acuidade nossas próprias falhas e mudanças.

O projeto está chegando ao fim do primeiro ano e já começamos a colher alguns frutos. Estamos vislumbrando a publicação de um primeiro artigo em um periódico – nesse momento estamos tentando fazer com que ele seja aceito em um dossiê temático – e no segundo semestre de 2018 já tivemos a oportunidade – eu e alguns colegas – de falar sobre ele em dois eventos científicos. Tem sido muito rico. 

Frutos da dissertação

Depois de um trabalho imenso como é o de fazer uma dissertação, temos que providenciar que nossa pesquisa circule pelos meios científicos e sociais. Não adianta deixar ela no acervo da biblioteca e pronto. O público precisa conhecer o que o meio acadêmico está produzindo, ter acesso, ver o que pensamos, conhecer realidades escondidas, principalmente quando estudamos presídios e populações invisibilizadas. Pelo menos, é o que penso.

Dessa forma, para além de conquistas créditos e mínima notoriedade nesse meio intelectual, venho buscando apresentar a minha pesquisa do mestrado em congressos, seminários e encontros. Além disso, produzir artigos para fazê-la circular. Nesse sentido, duas conquistas importantes.

A primeira, a publicação do artigo “Preso ou paciente? A ambivalência institucional na atividade de agentes penitenciários em um manicômio judiciário de Minas Gerais”, na Revista Brasileira de Ciências Criminais nº 144, em julho de 2018, no Dossiê Temático sobre Crime e Loucura. Escrevi um post aqui no blog sobre ele.

A segunda, o aceite de publicação do artigo “Manicômio judiciário e agentes penitenciários: entre reprimir e cuidar“, na Revista Psicologia: Ciência e Profissão, em uma edição especial sobre Psicologia, sistema prisional e segurança pública. A publicação é trimestral e está prevista para o fim deste ano.

Agora,o terceiro ponto, mas que, por enquanto, é apenas uma ideia. Venho considerando transformar a minha dissertação em um livro, ampliando e atualizando o conteúdo. Quando terminei o mestrado e ingressei no doutorado, coloquei na minha cabeça que esperaria o doutorado acabar para publicar uma coisa única sobre o trabalho nos manicômios judiciários. Afinal, no mestrado pesquisei o trabalho dos agentes de segurança nesses locais, e no doutorado pretendo pesquisar o trabalho dos profissionais de saúde e atendimento. Mas, tenho visto que talvez publicar duas coisas separadas seja mais interessante e oportuno, fazendo também com que a pesquisa não fique antiga. Então, estou articulando isso. Quem sabe teremos novidades.

Minicursos

Como mais uma forma de conquistas créditos adicionais para o doutorado e também dar um jeito de me esgueirar na docência – algo que segue como objetivo -, planejei e realizei dois minicursos, em parceria com um colega de mestrado (Thiago Casemiro Mendes) e uma colega do doutorado (Amanda Marques Pimenta).

Sob a alcunha Trabalho, saúde e adoecimento: alguns apontamos críticos sobre a atividade, nossa primeira experiência foi no I Encontro de Pós-Graduação em Psicologia de Minas Gerais – EPGPMG, que aconteceu em setembro de 2018, na UFMG.  O minicurso teve como objetivo aproximar a produção acadêmica sobre as relações entre trabalho, saúde e subjetividade da experiência concreta de trabalhadores.

Um dos slides iniciais do minicurso

Ao adotarmos uma perspectiva que considera a organização do trabalho enquanto fonte de dificuldades, pressões e desafios na realização da atividade, e que investiga e atua sobre como os profissionais vivenciam tais situações, o diálogo e a troca de saberes entre comunidade científica e o público geral é imprescindível.

A segunda experiência foi na XVIII Jornada da Psicologia, na PUC Minas – Campus Betim, em outubro deste ano. Já com o aprendizado da experiência anterior, consideramos que a segunda foi melhor que a primeira. E que a terceira, possivelmente será melhor. A possibilidade de organizar um conteúdo, planejar uma forma de transmiti-lo e em seguida submetê-lo à realidade é algo que estamos acostumados a discutir em Psicologia do Trabalho. No entanto, quando somos nós que passamos por esse processo, temos que nos atentar para tirar proveito de tudo. Gostamos bastante e já queremos outros.

Blog Trabalho e Psicologia

Por fim, mas não menos importante, falo sobre o novo espaço que criamos, dedicado aos conteúdos sobre psicologia, saúde, trabalho e subjetividade. Trata-se do blog Trabalho e Psicologia. É um espaço reservado à divulgação de textos, artigos científicos, resenhas, livros, filmes, eventos e demais comunicações sobre o tema.

Para quem já acompanha o blog Mais Uma Opinião, é uma forma de restringir este espaço às resenhas sobre literatura e temas gerais ligados à Psicologia, deixando o novo blog, no ar desde 15 de abril de 2018, destinado apenas aos assuntos ligados à relação entre trabalho, saúde e subjetividade.

Tela inicial do blog em 20 de novembro de 2018

A equipe atual é composta por: Amanda Marques Pimenta. Psicóloga, graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais; Danielle Teixeira Tavares Monteiro. Assistente Social, Psicanalista, Mestre e Doutoranda em Psicologia pela PUC Minas; Rodrigo Padrini Monteiro. Psicólogo, Mestre e Doutorando em Psicologia pela PUC Minas; e Thiago Casemiro Mendes. Administrador pela Faculdade de Nova Serrana – FANS, Pós Graduado em Gestão Estratégica de Pessoas e Mestrando em Psicologia pela PUC Minas.

Por hoje é só pessoal. Até a próxima. Abraços e obrigado por acompanhar.

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