Artigo “Você, dona de casa: trabalho, saúde e subjetividade no espaço doméstico”

A revista Pesquisas e Práticas Psicossociais, mantida pelo Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial e pelo Programa de Mestrado em Psicologia da Universidade Federal de São João Del-Rei (LAPIP/PPGPSI/UFSJ), Minas Gerais, publicou um artigo que escrevi junto dos professores doutores José Newton Garcia de Araújo e Maria Ignez Costa Moreira, ambos da PUC Minas. A pesquisa teórica está no volume 13, nº 4 (outubro-dezembro), de 2018, e disponível gratuitamente.

Intitulado “Você, dona de casa: trabalho, saúde e subjetividade no espaço doméstico”, o estudo se dedica, por meio da revisão de literatura, a discutir o trabalho doméstico, remunerado ou não, sob o viés das perspectivas clínicas do trabalho.

Entre os aspectos ressaltados, estão: a atribuição histórica dessa atividade à mulher e como encargo do gênero feminino; seu caráter de invisibilidade e desvalorização social; a repetição e a perda de sentido; a divisão sexual e moral do trabalho; e sua vinculação às atividades rejeitadas socialmente que permanecem nos bastidores, discussão articulada a partir dos conceitos de “trabalho sujo” e “negativo psicossocial”.

A pesquisa não deixa de observar a relativa escassez de estudos científicos sobre o tema, indicando a necessidade de produzir conhecimentos e intervenções “que visem modificar tanto as situações concretas de opressão à mulher, no espaço doméstico, quanto as representações sociais relativas ao seu lugar na sociedade” (p. 11). 

“Os termos dona e rainha, sem dúvida, dissimulam a desvalorização implícita aos afazeres domésticos, posto como destino e atividade improdutiva,pelo menos na ótica capitalista, na qual todo produto da atividade humana se torna mercadoria, cujo valor é apenas valor de troca” (p.5).

Em outro texto, observei que pesquisas apontam claramente a diferença da dedicação feminina e masculina às tarefas domésticas, e que, apesar de a sociedade estimular o papel da mulher forte e independente, assim como sua igualdade de direitos, também lhes cobra seu dever de cuidado com os filhos e suas obrigações domésticas. 

Fazendo uma crítica a termos naturalizados como dona de casa, rainha do
lar ou patroa,
procuramos mostrar como, a partir do momento em que enxergamos o trabalho como toda atividade de construção de si mesmo e do mundo, e enquanto instituição, passível de ser construído e desconstruído, podemos produzir novos significados para a atividade doméstica.

Por fim, questionamos: “se o trabalho que rege a economia doméstica, como vários outros também considerados marginais, mas que têm um papel relevante, no plano micro da construção e da reprodução da sociedade, por que ele ainda é invisível e pouco reconhecido, mesmo quando se trata de trabalho doméstico remunerado?” (p.11).

Este tema é um campo aberto a pesquisas e intervenções que possam contribuir para desvelar os impasses que ainda encontramos na sociedade e avançar nessa discussão.

Leia também:

  • Araújo, C. & Veiga, A. (2015). Domesticidade, trabalho e satisfação pessoal: horas no trabalho doméstico e bem-estar no Estado do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Ciência Política,(18), 179-209. doi: https://dx.doi.org/10.1590/0103-335220151807
  • Silva, C. L. L. et al. (2017). O trabalho de empregada doméstica e seus impactos na subjetividade. Psicologia em Revista, [S.l.], v. 23, n. 1, p. 454-470, dez. Disponível em: https://doi.org/10.5752/P.1678-9563.2017v23n1p454-470

Referências

Monteiro, R. P.; Araújo, J. N. G.; Moreira, M. I. C. (2018). Você, dona de casa: trabalho, saúde e subjetividade no espaço doméstico. Pesquisas e Práticas Psicossociais, v.13, n.4, São João del-Rei, out-dez. Disponível em: http://www.seer.ufsj.edu.br/index.php/revista_ppp/article/view/3155

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3 Respostas para “Artigo “Você, dona de casa: trabalho, saúde e subjetividade no espaço doméstico”

  1. Excelente trabalho! Precisamos falar sobre os trabalhadores invisíveis. Pelo menos assim, damos algum tipo de reconhecimento a eles! 😉 Muito bom!

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