Dois livros, duas experiências: Olhos d’água e águas-vivas

Livros podem ser interpretados e lidos de diversas maneiras. Eles nos dão acesso a outros universos, mundos alternativos, onde as pessoas vivem de outra forma, pensam e agem de outra maneira, e possuem experiências desconhecidas. Esses são alguns dos motivos pelos quais, apesar do volume de estudos exigido por uma pós graduação, eu não largo a leitura como lazer.

Há muitos anos atrás, nunca imaginei que teria na leitura um hobby, uma daquelas coisas que você faz para se distrair, imaginar, se divertir e espairecer, uma das melhores formas de passar o tempo. Mas, esses dias chegaram e já há algum tempo, sempre estou lendo alguma coisa além dos estudos habituais. Para completar esse hábito, o Kindle vem sendo cada vez mais utilizado. É fácil, leve, tá tudo ali e os livros digitais são mais baratos.

Venho gostando de iniciativas que buscam difundir diferentes escritas. Hoje, quero indicar dois livros e fazer um comentário breve sobre cada um deles.

Olhos D’água, Conceição Evaristo

O primeiro, trata-se de Olhos D’água (Editora Pallas), obra da escritora mineira Conceição Evaristo. São quinze contos que denunciam e retratam a desigualdade social, a pobreza, a violência e a dor e contam, principalmente, com protagonistas mulheres negras. Com trechos fortes e uma escrita poderosa, essa é uma leitura essencial para abrir a cabeça. Para os que buscam uma leitura fácil e dinâmica, e complexa, ao mesmo tempo, essa é uma boa opção.

“Era preciso viver a calma e o desespero como se nada estivesse acontecendo. Havia quase um ano que a felicidade lhe era servida em conta-gotas” Trecho do conto Beijo na face.

“O moço via mulheres, homens e até mesmo crianças, ainda meio adormecidos, saírem para o trabalho e voltarem pobres como foram, acumulados de cansaço apenas. Queria, pois, arrumar a vida de outra forma” Trecho do conto Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos

Sinopse: Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida?”

As águas-vivas não sabem de si, Aline Valek

O segundo, um livro de ficção um pouco científica e psicológica, é da escritora Aline Valek e chama-se As águas-vivas não sabem de si (Editora Rocco). Comprei este porque acompanho a escritora no Twitter e também na sua Newsletter Bobagens Imperdíveis. Fui ficando curioso sobre o livro e não me arrependi. É um livro profundo, tanto em reflexões, como no contexto, afinal a história se passa basicamente no fundo do oceano, nas profundezas abismais da escuridão marítima. A leitura exige concentração, calma para acompanhar a história e imaginar todo o universo muito bem descrito pela autora.

“Devia haver um bom motivo para o corpo humano não ser capaz de visitar certos lugares. Onde a sensatez não servia como freio para a curiosidade de mamíferos teimosos, a menos que o próprio corpo servisse como limite”

“Seu caminho era pavimentado por escolhas erradas e mal pensadas, mas tudo o que ela mais queria era saber onde ia dar”

Aqui tem uma boa entrevista com a Aline sobre o processo de criação do livro.

Sinopse: Mistura de suspense e ficção científica, o livro é um mergulho nas profundezas do oceano e um convite a suspender o fôlego e a ouvir o silêncio. Com uma narrativa fluida e sensível, a autora literalmente mergulha nos dramas vividos pela protagonista, que faz parte de uma equipe liderada por um cientista obcecado pela ideia de encontrar inteligência no fundo do oceano, retratando com intensidade sentimentos e sensações como medo, solidão e claustrofobia, mas também uma enorme paixão pelo desconhecido e pelos segredos do fundo do mar, que só fala àqueles que sabem ouvir.

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Em Olhos D’água conheci outro mundo, porém um mundo que está na esquina, aqui do meu lado, pisando o mesmo solo e respirando o mesmo ar. Um mundo que me implica diretamente, atinge e afeta. Em As águas-vivas não sabem de si, conheci também um outro universo, porém realista e fantasiado, distante, a muitos e muitos metros de profundidade, no oceano, tão comum e ao mesmo tempo tão inexplorado, no meio histórias e mensagens que resgatam o princípio da vida. Recomendo.

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