Vozes de Tchernóbil e o poder ilimitado de uns homens sobre outros

“Cada um encontrava uma justificativa. Alguma explicação. Eu fiz a experiência comigo mesma. E, numa palavra, compreendi que na vida as coisas mais terríveis ocorrem em silêncio e de forma natural”.

“Vozes de Tchernóbil” (Companhia das Letras, 2016) é uma experiência de leitura interessante. Triste, curiosa e chocante. Quem me chamou atenção para ele foi um colega de escrita no blog Literatura Policial, o Rogério Christofoletti, que teve a experiência de ler o livro e a honra de conhecer a autora – ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015 – Svetlana Aleksievitch, na Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, em 2016. Não foi uma indicação. Apenas vi a foto, o texto. Pronto. Fiquei curioso.

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O livro não é só a tristeza de relatos após a tragédia nuclear que ocorreu em 26 de abril de 1986, na antiga União Soviética, mas uma crítica ao poder ilimitado de alguns seres humanos sobre os outros. É quebrar o silêncio de catástrofes anunciadas, que afetarão os mais fracos, enquanto os fortes serão pouco ou nada responsabilizados. É a vida que segue o seu curso. A natureza costuma sempre se adaptar e sobreviver. O homem não.

“Porque quando você perde a fé e fica sem convicções, já não é mais um participante e sim um cúmplice, e para você já não há perdão. É assim que eu entendo”.

“Na terra de Tchernóbil, sente-se pena do homem. Mas o bicho dá mais pena ainda… Não estou denegrindo, vou explicar. O que restou da zona morta depois que as pessoas foram embora? As velhas tumbas e as fossas biológicas, como chamam os cemitérios de animais. O homem só salvou a sua pele, todo o resto ele atraiçoou. Depois que as populações partiram das aldeias, pelotões de soldados e caçadores foram lá e abateram os animais. E os cachorros acorriam à voz humana, e também os gatos… E os cavalos não podiam entender nada. E eles não tinham culpa, nem as feras nem os pássaros, e morriam em silêncio, isso é ainda mais terrível”.

Foi uma das leituras que mais me marcou neste ano. Talvez por se tratar de uma realidade desconhecida, de uma tristeza difícil de imaginar. De uma ingenuidade também difícil de calcular, de uma população que confiava em seus líderes, mas que acordou para compreender que, dali pra frente, o sofrimento não se tornaria menor a cada dia. Pelo contrário, o sofrimento permaneceria e permanecerá, na memória, na história e no corpo de quem viveu tudo aquilo.

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Svetlana Aleksievitch nasceu em 1948 e é uma escritora e jornalista bielorussa. Pela editora Companhia das Letras, a autora tem três livros publicados: O Fim do Homem Soviético, A Guerra Não Tem Rosto de Mulher e Vozes de Tchernóbil, todos de 2016.

Até ler este livro, só me lembro de ter ouvido falar ou ter estudado superficialmente sobre o acidente nuclear de Chernobyl. Não conhecia a sua dimensão. A leitura dos relatos te levará fatalmente a buscar mais informações sobre a tragédia, as causas, as consequências, as vítimas e os danos que ainda permanecem. E possivelmente te levará a concluir que, algo como o que ocorreu há pouco mais de três décadas, pode acontecer em proporções iguais ou maiores hoje, amanhã ou daqui há dez anos.

Algumas matérias como essa e essa, ajudam a ter uma noção mais apropriada da dimensão do acidente, e o quão próximo este evento está da nossa realidade. Afinal, são pouco mais de trinta anos que nos separam. Este documentário também é interessante.

Temos muitas informações sobre o acidente, estatísticas, fotos e documentos. No entanto, os relatos colhidos e apresentados por Svetlana Aleksievitch trazem uma nova perspectiva. São depoimentos sinceros, transparentes. É através deles que podemos entender como estamos submetidos a um saber-poder que conduz as nossas vidas e determina o que podemos ou não podemos fazer.

14085_ggSinopse: “Em abril de 1986, uma explosão na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia — então parte da finada União Soviética —, provocou uma catástrofe sem precedentes: uma quantidade imensa de partículas radioativas foi lançada na atmosfera e a cidade de Pripyat teve que ser imediatamente evacuada. Tão grave quanto o acidente foi a postura dos governantes soviéticos, que expunham trabalhadores, cientistas e soldados à morte durante os reparos na usina. Pessoas comuns, que mantinham a fé no grande império comunista, pereciam após poucos dias de serviço. Por meio das vozes dos envolvidos na tragédia, Svetlana constrói este livro arrebatador, que tem a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários. Uma obra-prima do nosso tempo.”

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