Também somos violentos ou “isso não me pertence”?

“Você me quer justo, E eu não sou justo mais, Promessas de sol já não queimam meu coração, Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?” Promessas do Sol – Fernando Brant / Milton Nascimento

No primeiro post do blog “Aconteceu mais uma vez sob as mesmas circunstâncias” escrevi sobre o impacto da violência sobre nós, sobre o possível “prejuízo psicológico” que ela nos causa. Discuti a rotina de observarmos atos de violência cada vez mais próximos de nós e qual seria nossa reação particular a isso.

Hoje volto ao tema da violência e utilizo como base a 1ª parte do texto cujo recomendo leitura integral de Yves de La Taille (2009) “Moralidade e violência: a questão da legitimação de atos violentos”, na qual discute violência, ética e moral.

Imagem: Michal Dziekan

Imagem: Michal Dziekan

O que é violência?

Ao definir a violência, La Taille (2009) afirma:

“Consultados os dicionários Nouveau Larousse Universel (1988) e Aurélio (1999), verificamos que um elemento presente nas definições de violência é a coação, ou seja, o uso da força para constranger, física ou psicologicamente, uma pessoa ou um grupo de pessoas. A violência, portanto, implica a dimensão do poder (entendido como correlação de forças) e a privação, momentânea ou perene, do exercício da liberdade por parte da pessoa violentada. Dessa forma, cabem bem na categoria violência atos como o estupro, o roubo, o assassinato, o ferir fisicamente, a humilhação, entre outras ações”.

Mas qualquer uso da força ou do poder para coagir alguém é um ato de violência legítimo?

O autor alerta para o benefício ou o prejuízo que pode ter a pessoa constrangida pela força e logo aponta o juízo moral: “É ato moralmente condenável a humilhação, mas não o é o ato coercitivo com clara finalidade educacional”.

Ou seja, o que torna a violência legítima, “real”, passa pela questão moral. Ao obrigar uma criança a estudar ou a escovar os dentes por exemplo estamos “usando da força”, do poder, assim como em qualquer outro ato violento. No entanto, é preciso diferenciá-los:

“O critério é naturalmente moral: no primeiro caso, há respeito, intenção generosa, reconhecimento de um direito; no segundo, há desrespeito, intenção egoísta e negação de um direito”.

A violência legítima envolve o prejuízo causado ao outro, o desrespeito, a incivilidade. Seja física, seja psicológica. Quem já passou por alguma situação como um assalto ou roubo por exemplo provavelmente relata que se sentiu violentado, invadido, desrespeitado. É ultrapassado aí um limite moral, ético.

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Moral e ética

Conceitos tão discutidos como Moral e Ética, muitas vezes parecem ter sido esquecidos. Ainda no texto de La Taille (2009), o autor afirma que a moral diz respeito ao “como devo agir?” incluindo o reconhecimento dos direitos alheios e da dignidade do outro. Envolve um conjunto de condutas obrigatórias, consideradas como deveres, positivas ou negativas, a todos nós.

Já a ética envolve a questão “que vida eu quero viver?” e remete à felicidade e ao sentido da vida. O que é considerado ético nesse caso é uma vida boa pensada do ponto de vista individual e coletivo, incluindo o próximo. De acordo com La Taille (2009):

“No plano moral, está em jogo a legitimação da violência. Esta levanta um problema moral quando traduz uma forma de desrespeito, logo quando traduz uma ação sobre outrem na qual este é visto apenas como meio, e não como fim em si mesmo. No plano ético, a violência deve ser pensada, seja como meio para realização de projetos de vida, seja como expressão de um traço de caráter valorizado”.

Sob esse ponto de vista, a violência é legítima quando carrega desrespeito e humilhação, e quando utiliza o próximo como apenas meio para algo. A violência pode ser também comportamento utilizado para realizar um projeto pessoal de vida ou uma característica valorizada. Por algum motivo durante a construção da identidade de uma determinada pessoa, ela se orgulha de ser violenta e não pacífica.

Também somos violentos ou “isso não me pertence”?

Para entendermos e lidarmos com a violência, acredito que é necessário primeiro considera-la como algo que nos pertence.

Finalizando, apesar de diferenciar violência de incivilidade, o autor afirma que, posta a definição de civilidade como “conjunto de formalidades observadas entre si pelos cidadãos, em sinal de respeito mútuo e consideração; polidez, urbanidade, delicadeza, cortesia” (LA TAILLE, 2009), toda violência é prova de incivilidade.

Fecho a discussão com a observação de Michaud (2002) citado por La Taille (2009) e convido à reflexão:

“A característica comum é que todas as incivilidades colocam em xeque o direito do indivíduo de viver tranquilamente e em segurança, e a possibilidade que ele tem de confiar em outrem nas suas relações sociais. A consequência é um sentimento de insegurança que destrói progressivamente (e cada vez mais rapidamente à medida que as agressões se sucedem) o vínculo social, não no sentido abstrato dos teóricos da política, mas no sentido muito concreto das relações com as outras pessoas”.

Referências Bibliográficas:

LA TAILLE, Yves de. Moralidade e violência: a questão da legitimação de atos violentos in Temas em Psicologia – 2009, Vol. 17, no 2, 329 – 341 Dossiê “Psicologia, Violência e o Debate entre Saberes”.

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3 Respostas para “Também somos violentos ou “isso não me pertence”?

  1. Pingback: O absurdo, longe (ou perto) de nós | Mais uma Opinião·

  2. Existe uma dimensão psicológica que tenta explicar, mas não justificar. O autor do texto que citei acima diz que influenciam no comportamento violento: a moral, a inteligência, o contexto e a afetividade. Cada um em uma medida. Acredito que atitudes absurdas como essa só podem ser mais ou menos explicadas conhecendo melhor o indivíduo que praticou.

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  3. O que dizer, do ponto de vista psicológico, da atitude de um marginal, ao colocar uma criança de pouco mais de dois anos, nas costas da mãe, já deitada e rendida e disparar um tiro na cabeça da mãe? A atitude se apoia em algum conceito moral ou psicológico? Um indivíduo desses é recuperável? O que é moralmente aceito nesse caso?

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