Amanhã vai ser outro dia?

Ultimamente me deparo constantemente com a sensação “de estar de mãos atadas”, ou seja, não poder fazer muita coisa. Essa sensação surge principalmente após conversas sobre política, aumento da violência e desigualdade social com pessoas próximas.

O incômodo surge e logo ideias como “amanhã vou criar uma ONG” ou “vou participar de um movimento social” pipocam na cabeça. No entanto, é comum não durarem muito.

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De onde vem o sentimento de impossibilidade de mudança e em seguida a acomodação? Temos aí um aspecto psicológico curioso e frequente.

A responsabilidade sobre nossa sociedade e sobre nossa própria vida é fundamental. O misto de “não posso fazer nada” com “não adianta fazer nada” costuma resultar em passividade e no desempenho do papel de plateia, espectador de cenas infelizmente rotineiras e algumas novelas intermináveis. Optamos por não ser protagonistas.

Socialmente, muitas vezes o grande responsável por esse resultado é o fato de muitas questões não nos atingirem diretamente, estarem distantes, afetando outras pessoas.
Mas será que não estamos sendo atingidos? Ou simplesmente não nos damos conta disso?

De acordo com Cabral (2014), “segundo alguns filósofos existencialistas, ao experimentarmos a existência enquanto configurada por nós mesmos, a vertigem proveniente da consciência da responsabilidade sobre nosso mundo mostra-se assustadora”. Sendo assim, seria comum recorrermos a defesas como o deslocamento da responsabilidade para outras pessoas ou fatores alheios ao nosso controle.

Quem nunca ouviu o conto do Todo mundo, Alguém, Qualquer um e Ninguém? Para quem não se lembra, segue abaixo:

Esta é uma história sobre quatro pessoas: TODO MUNDO, ALGUÉM, QUALQUER UM E NINGUÉM. Havia um importante trabalho a ser feito e TODO MUNDO tinha certeza de que ALGUÉM o faria. QUALQUER UM poderia tê-lo feito, mas NINGUÉM o fez. ALGUÉM se zangou porque era um trabalho para TODO MUNDO. TODO MUNDO pensou que QUALQUER UM poderia fazê-lo, mas NINGUÉM imaginou que TODO MUNDO deixasse de fazê-lo. Ao final, TODO MUNDO culpou ALGUÉM quando NINGUÉM fez o que QUALQUER UM poderia ter feito.

Jacob Levy Moreno, criador do Psicodrama, acreditava correto pensarmos na doença psicológica de um indivíduo como um reflexo do sofrimento coletivo. E creio que o contrário também é verdadeiro.  Porque nos “apegamos” a determinados comportamentos? Porque não ampliar a consciência sobre a nossa realidade? Sobre nossa responsabilidade?

Segundo Dalmiro Bustos (1992, p.18), “é subjacente a toda obra de Moreno um ideal de ser humano, espontâneo, capaz de criar continuamente seu próprio destino”. O autor vê todo ser humano com um gênio em potencial.

Mas então, “o que impede o desenvolvimento do gênio presente em todos nós?” (MARTIN, 1984, .129). O autor diz que “a resposta incide no substancial e único mal: as conservas culturais transmitidas pela educação e pelo ambiente. O homem se sente mais seguro utilizando-as que vivendo no desconhecido e à mercê da improvisação” (MARTIN, 1984, p.129). Como mencionei nos textos anteriores, a conversa cultural é o produto de um ato criativo, ou seja, hábitos, costumes, objetos, produzidos e mantidos ao longo do tempo.

Moreno colocava como objetivo de intervenção psicoterapêutica o resgate e o desenvolvimento da espontaneidade, e “via as conservas culturais como barreiras para a criatividade, e esperava substituí-las por novas e espontâneas formas de comportamento” (MARINEAU, 1992, p.166).

Estamos criando nossa própria vida e a vida que vivemos em conjunto. Somos corresponsáveis por nossa realidade. Pense duas vezes antes de dizer “estou de mãos atadas”.

Referências bibliográficas:

BUSTOS, D. Novos rumos do Psicodrama. São Paulo: Ática, 1992. p.10 a 20

CABRAL, Ricardo Dantas. Psicoterapia existencial: a sistematização de Irvin D. Yalom. Rio de Janeiro. Acesso em 17/02/2014. http://pt.scribd.com/doc/54333923/Cabral-Ricardo-Psicoterapia-Existencial-A-sistematizacao-de-Irvin-D-Yalom

MARINEAU, René F. Jacob Levy Moreno, 1889-1974: Pai do Psicodrama, da sociometria e da psicoterapia de grupo. São Paulo: Agora, 1992.

MARTIN, E. Psicologia do encontro: J. L. Moreno. São Paulo, Duas Livrarias, 1984. p.119 a 157.

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