Peixe grande, Peixe pequeno

“Fulano é peixe grande”, “Fala quem pode, obedece quem tem juízo” ou “Ciclano é referência no assunto”, ouço dizer. No meio profissional é muito comum ouvir expressões como essa, além de diversas outras em diversos contextos. Para que exista um peixe grande, é preciso existir o peixe pequeno.

Imagem: Alessandro Gottardo

Imagem: Alessandro Gottardo

Não sou biólogo nem estudioso de espécies aquáticas mas imagino que exista maior quantidade de peixes pequenos que de peixes grandes nos mares, rios e lagos. Talvez não. Mas isso não importa, é apenas uma metáfora.

O peixe grande na minha metáfora representa “o formador de opinião”, pessoa ilustre, personalidade, especialista ou referência em determinado assunto. Cada qual com seu devido mérito do reconhecimento conquistado. Os peixes pequenos são outros. Me considero um peixe pequeno no mundo da leitura e da escrita. Nunca tive o hábito de ler. É algo recente, adquirido há poucos anos. Também nunca tive o hábito de escrever. Isso sim é ainda mais recente.

Mas, por me considerar o peixe pequeno, já pensei “muitas vezes duas vezes” antes de expressar alguma opinião.

Escrever é materializar pensamentos e ideias. A expressão “a arte de escrever” é digna de confiança, uma vez que a escrita nada mais é que um produto da criatividade associada com a espontaneidade, a criação através do ato espontâneo, como em várias artes e ofícios. Entendo a criação de qualquer costume, comportamento, obra de arte ou objetos materiais como elabora Jacob Levy Moreno (1992), psiquiatra romeno e criador do Psicodrama.

Diferentemente do senso comum, Moreno entendeu a espontaneidade como uma energia inerente ao ser humano, presente “em todos os níveis de relações humanas como, por exemplo, no comer, no andar, no dormir, no relacionamento sexual, na comunicação social”. Ser espontâneo para ele significa ser adequado e adaptado, a si mesmo e ao contexto.

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De forma alguma ser espontâneo é fazer qualquer coisa em qualquer lugar em qualquer momento. Já sobre a criatividade, diz ser um conceito inseparável da espontaneidade. Para ele a espontaneidade age como um catalisador para a criatividade humana, estando intrinsecamente ligada ao processo de criação do homem.

Ao atuarem juntas, criam um produto, um comportamento, um costume. É a “conserva cultural” de que falava Moreno (1992). É todo resultado de um processo de criação e é a partir de pequenos e constantes atos de criação que nos desenvolvemos e que o mundo se constrói. Ao escrever e compartilhar nossas ideias estamos emitindo uma opinião, dentre muitas que já estão voando por aí. Estamos criando uma obra, por menor que seja.

Imagem: Alessandro Gottardo

Imagem: Alessandro Gottardo

Mas será que o que tenho a dizer interessa a alguém? Vale a pena criar algo novo ou modificar algo que já existe?

Sobre escrever e se expressar, digo que o fato de não emitirmos nossas opiniões pode ser justificado muitas vezes pela já existência de muitas opiniões sobre tudo, mais importantes ou reconhecidas que a nossa. É um sentimento que já vivenciei muitas vezes, ainda vivencio e imagino que muitas pessoas devem compartilhar.

Em tempos de internet é comum nos depararmos com diversas opiniões sobre todos os assuntos possíveis. Umas construtivas, outras destrutivas, de pessoas que admiramos, não gostamos e algumas apenas como expressões de uma insatisfação pessoal ou problema individual mal resolvido.

Sobre as opiniões destrutivas e mal resolvidas, acredito que expressar opiniões deve ser um ato espontâneo como entende Moreno. Adequado, adaptado. Baseado na realidade.

Só sabemos falar bem quando sabemos escutar igualmente. Acessamos e encontramos praticamente tudo o que procuramos atualmente. Existem muitas opiniões, modelos e respostas prontas por aí.

Mas qual dessas opiniões é a correta? Qual ponto de vista devemos considerar?

Frankl, citado por Cabral (2014), afirma que falta hoje ao homem “…um instinto que diga a ele o que há de fazer, […] tradição que diga a ele o que deve fazer; as vezes não sabe sequer o que gostaria de fazer. Ao invés disso, deseja fazer o que as pessoas fazem (conformismo) ou faz o que outras pessoas querem que faça (totalitarismo)”.

Vivemos uma epidemia de opiniões e pontos de vista? Quanto vale a sua opinião?

Será que devemos nos render à metáfora do peixe grande e do peixe pequeno? Devemos considerar que já existem peixes grandes o suficiente e apenas continuar nos considerando peixes pequenos nadando na correnteza do rio?

Referências bibliográficas:

CABRAL, Ricardo Dantas. Psicoterapia existencial: a sistematização de Irvin D. Yalom. Rio de Janeiro. Acesso em 17/02/2014. http://pt.scribd.com/doc/54333923/Cabral-Ricardo-Psicoterapia-Existencial-A-sistematizacao-de-Irvin-D-Yalom

MORENO, J. L. Quem Sobreviverá? Fundamentos da sociometria, psicoterapia de grupo e Sociodrama. Vol 1. Goiânia: Dimensão, 1992. p.147 a 154.

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6 Respostas para “Peixe grande, Peixe pequeno

  1. Peixe grande, Peixe pequeno, o importante mesmo é ser um bom peixe. Daqueles que podem conduzir o cardume com segurança, independente do tamanho. Aliás, quanto maior o peixe, assim como o ser humano, mais senhor de si ele se torna e nada quase sempre sozinho.

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  2. Rodrigo, que talento….Uma reflexão sobre como nos posicionar num mundo em que tudo parece pronto, é só buscar em algum lugar, basta estar conectado. Parabéns pela iniciativa. Vânia.

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