A inversão da culpa

“Que é que os homens temem, acima de tudo? O que for capaz de mudar-lhes os hábitos” Crime e castigo – Fiódor Dostoievski

Leio com certa frequência livros sobre investigação criminal ou romances policiais e em todas as histórias sempre me parece muito claro quem é o culpado por ter cometido o crime. No entanto, confesso que atualmente tenho tido minhas dúvidas sobre a quem pertence o sentimento de culpa e o título de culpado.

No espaço em que vivemos e que consideramos como sociedade, nosso mundo, nosso país e nossa cidade é historicamente considerado culpado, perante a justiça, o individuo transgressor das leis existentes naquela época e local. Uma vez que um ser humano extrapola os limites morais, éticos e legais de sua sociedade, é acusado, julgado e se comprovado o delito, considerado culpado por seus contemporâneos.

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Se culpado, existe uma pena a ser cumprida, uma punição estabelecida até o momento em que essa pessoa possa conviver novamente em sociedade.

Mas a culpa é um sentimento amplo e ser culpado por algo e sentir culpa são coisas muito diferentes. Além do ato criminoso, a culpa nos afeta de diversas formas e todos podemos dizer que é um sentimento vivenciado com maior ou menor frequência durante a vida. Temos nossos motivos, nossas histórias e nossas culpas.

Além da justiça externa, social, existe a justiça interna, individual, de nossa própria mente, popularmente conhecida como “consciência”. A expressão “peso na consciência” geralmente caracteriza a culpa que sentimos depois de fazer algo que consideramos errado. O livro “Crime e castigo” de Fiodor Dostoievski trata desse sentimento de uma forma espetacular e ilustra como poucas teorias esse sentimento tão familiar.

Uma vez que abordo aqui a culpa no ato criminoso, porque tenho dúvidas sobre os reais culpados e a quem pertence o sentimento de culpa?

Parece-lhe familiar ouvir que, após um assalto, a vítima não deveria estar andando sozinha àquela hora da noite? Que aquela moça não devia sair com esse tipo de roupa? Que você não deveria estar parado no sinal de trânsito com a janela aberta?

Imagine só: se após um crime, entendemos que o indivíduo que transgrediu a lei e que cometeu esse ato contra nós é culpado, porque também nos sentimos culpados?
Somos culpados por estar em condições “favoráveis” ao crime? Andar e falar ao telefone celular no centro de uma grande cidade ou “desfilar de carro novo” é pedir para ser assaltado?

Observo em algumas situações o que podemos chamar de “inversão da culpa”, ou seja, nos sentimos culpados por ter sido vítimas de um crime e por ter sido ingênuos, inocentes, não ter tomado as devidas precauções.

Estamos começando a dividir a culpa? Tenho receio de que a culpa esteja sendo atribuída a atores que não a merecem e que, a partir do momento que nos responsabilizarmos por sermos vítimas, esqueceremos dos reais responsáveis por nossa segurança e então cada vez mais tentaremos soluções individuais para um problema coletivo.

Qual o efeito psicológico de termos nossa liberdade de ir e vir reduzida? De sermos parcialmente responsáveis por nossa condição de vítima?

Será fugir das condições inseguras a melhor forma de nos protegermos da violência? O que virá em seguida?

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6 Respostas para “A inversão da culpa

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  3. Muito interessante seu texto e penso que na atualidade este tema é mais amplo que possamos imaginar. Além do que vc descreveu muito bem, vivemos em uma sociedade em que a impunidade é tão assustadora que, muitas vezes, diantes de claras evidências de cometimentos de crimes, existem tantos recursos jurídicos para se provar a não culpabilidade que para nós vai permanecer sempre a dúvida, ou certeza jurídica e suas interpretações que não há comprovações de culpabilidade. No entanto, como vc coloca muito bem, a culpa é algo muito mais amplo, e fico me perguntando o que as pessoas estão fazendo com os sentimentos de culpa, com a consciência julgadora, porque esta sim é implacável. Mas me parece que os recursos estão sendo tão efetivos que as próprias pessoas estão se convecendo desta falsa inocência.
    Vânia Soares

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  4. Eu não sei pq as pessoas começam a “dividir a culpa” como vc disse… Talvez pq a gente ainda não queira acreditar que exista tanta maldade no mundo e por isso a gente acaba se sentindo um pouco responsável também.

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