Misericórdia, Lídia Jorge

“Misterioso é o sentimento da misericórdia, não tem hora marcada para entrar ou sair do ser humano”

Este é um livro sobre o tempo. Sobre os detalhes, as pequenas coisas e os pequenos gestos. Sobre micro e macro universos que convergem. É, antes de tudo, um testemunho de um futuro possível, uma experiência que talvez tenhamos a graça de vivenciar. Queremos envelhecer, não queremos?

Misericórdia é um romance premiado da escritora portuguesa Lídia Jorge, nascida em 1946, na região do Algarve, onde passou a sua infância. Com estreia na escrita em 1980, a autora se tornou um dos maiores nomes da literatura portuguesa ao longo das últimas décadas.

Eu não conhecia a Lídia. Quem me influenciou foi o Rodrigo Casarin , que falou sobre o livro ao indicar um autor que fugisse do lugar comum, ao pensarmos escritores portugueses, como SaramagoValter Hugo Mãe ou mesmo Afonso Cruz. Confesso que a capa e o título me seduziram, assim como a sinopse.

A premissa é simples: acompanhamos, através de gravações de áudio, o diário de Maria Alberta, a dona Alberti, que vive no Hotel Paraíso, um lar para idosos na cidade fictícia de Valmares, em Portugal. Feito de capítulos curtos, o livro transita entre o profundo e o simples, o cotidiano e o excepcional.

Lídia Jorge (18 de junho de 1946) – Fonte: Expresso PT

O português de Portugal pode incomodar, a princípio, mas a manutenção do estilo de escrita e dos elementos culturais na edição brasileira ajuda a imergir nesse universo tão peculiar.

Não sei por qual motivo atravessei a lista de leituras e comecei Misericórdia. Acho que precisava de um livro que trouxesse beleza, vida e perspectiva. E eu encontrei. Não somente isso. Encontramos ali relatos de solidão, vulnerabilidade e finitude, mas, principalmente, um testemunho da luta para criar novos sentidos pra nossa trajetória.

Eu sei que a felicidade é um bem muito escasso. Devemos guardá-la sobre o peito quando nos toca por perto, encher com ela todas as algibeiras da alma, para servir de escudo quando o seu oposto acontece, por isso não me incomodavam por aí além, estava preparada. (p.20)

Alberti é uma personagem controversa, não nego. Posso dizer que inspira amor e ódio, e talvez por isso seja tão humana e verdadeira. A protagonista é inspirada na mãe de Lídia Jorge, Maria dos Remédios, que faleceu em abril de 2020, em decorrência da Covid-19, em um lar de idosos em Loulé, no Algarve.

Misericórdia é uma homenagem e uma resposta a um pedido da própria mãe da autora, que insistiu, em seus últimos anos de vida, para que Lídia escrevesse um livro com esse título. Portanto, estamos lendo uma ficção com um pé na realidade, e com a presença de temas extremamente atuais, como imigração, política e o início da pandemia.

Para mim, foi uma leitura que trouxe um grande exercício de empatia. Alberti está lúcida, pensa, observa e opina sobre si, os outros e o mundo. Contudo, lida com as limitações física da idade, e isso é, de certa forma, angustiante.

aqui onde me encontro nenhum canto é meu, nenhum objecto me pertence, até mesmo o meu corpo não é mais um recanto privado da minha alma como antes era. Só os meus pensamentos me pertencem, só esses não são vigiados, e ainda assim, há quem tente adivinhar os motivos por que falo ou por que estou calada. (p.57).

Lídia trabalha muito bem a luta constante de Alberti com a noite, que representa, em última instância, a morte. Os diálogos da protagonista com a noite, que a visita com certa frequência, são belos e intrigantes.

Eu senti que estava a descer ao lugar das coisas ínfimas, e pensei que a minha filha, ao afirmar que queria fazer amor com o Universo, quereria dizer isso mesmo, que a vida a levava apenas para junto das pequenas coisas. Falar do grandioso todo era por certo a sua forma de falar do pequeno mínimo, a sua vocação. (p.135).

Um dos capítulos, um dos meus preferidos, traz um breve diálogo entre mãe e filha sobre as estações do ano. Dona Alberti diz que estão no outono e questiona se a natureza não passa por quatro estações, ao que a filha confirma. Passa. E segue:

“O ciclo da Natureza vai até ao fim e retoma o início, nunca pára. Mas os seres humanos quando chega o Inverno não têm mais nenhuma Primavera. Ou têm?”

“Sim, têm” — disse ela. “Porque nós, como não podemos repetir o ciclo natural das estações, inventámos uma forma de ultrapassar essa limitação.”

“Porque dizes isso?”

“Porque enchemos as quatro estações da nossa vida com os círculos das vidas dos outros. Cada uma das nossas vidas pode conter mil, dois mil anos de vida somando o conto das vidas dos outros que passam por nós sem parar.”

“Será?” (p.262)

Será? Acho que sim.

Deixo meu agradecimento ao Rodrigo Casarin pela dica e reforço a recomendação. Lídia Jorge nos presenteou com um pequeno e belíssimo tratado sobre viver, morrer e tudo o que há no percurso.

Eu estava ao mesmo tempo maravilhosamente sozinha com a minha própria vida e maravilhosamente acompanhada pela vida das outras criaturas. Estava com a vida dos vivos e a memória presentíssima dos mortos que continuavam vivos. E pensei para mim mesma – Isto é a felicidade. E isto, sendo uma pequena coisa, tem uma dimensão imensa. O pouco e o pequeno podem ser irmãos da maravilha da vida. (p.191).

Que tal conhecer outros portugueses?

Afonso Cruz: “Vamos comprar um poeta“ é um dos livros mais interessantes e bonitos que já li. Li “Flores” também, que é muito bom.

Saramago: Sim, ele mesmo. “e no dia seguinte, ninguém morreu”. Intermitências da morte é maravilhoso.

Valter Hugo Mãe: Já li alguns dele e estão entre os meus livros favoritos da vida. Falei sobre “O filho de mil homens” e “máquina de fazer espanhóis” aqui. E sobre “Deus na escuridão” também.

“A felicidade é para depois de muito custo. Mas que custe é inevitável. É uma obrigação por sermos vulneráveis”.


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