Terapia em dia

Em forma, mais feliz, mais produtivo / Confortável / Sem beber demais / Exercícios regulares na academia / Três dias por semana

Esses e outros comandos, narrados por uma voz robótica, estão em uma música composta por Thom Yorke, na década de 1990, que faz parte de um dos melhores discos de rock alternativo já lançados, o “OK Computer“, da banda britânica Radiohead.

Hoje, já tomei minha dose de creatina mono hidratada, minha coenzima Q10 e à noite tomarei meu trio de magnésio. Nesse meio, comi pão de forma integral com queijo minas sem lactose. Café sem açúcar.

No intervalo, iogurte integral com zero lactose, zero adição de açúcar e só com ingredientes de origem natural. Orgulho da nutri. Mas fui à academia somente duas vezes na semana. Prometo melhorar.

Estar em dia com os cuidados consigo mesmo se tornou uma pequena obsessão mundial. Gostaria de dizer que hoje, ao invés de discorrer sobre a vida, vou mostrar pra vocês a minha rotina de skincare, eficaz e descomplicada, mas não é o caso.

Nessa toada, estar com a saúde mental em dia, ou melhor, com a “terapia em dia”, se tornou, ao mesmo tempo, um meme, um critério, uma meta, uma bandeira vermelha, entre outras coisas.

Afinal, o que diabos significa “estar com a terapia em dia”?

OK Computer. Álbum de estúdio do Radiohead (1997)

No mundo em que cada um é levado a ser “empreendedor de si mesmo”, fazer terapia, exames de rotina, tomar vitaminas, ter um relacionamento saudável e um trabalho que faça sentido pra você são apenas alguns dos inúmeros itens que montam o nosso bingo existencial.

Fitter Happier”, sétima faixa do álbum, tem apenas 1 minuto e 57 segundos, mas traz uma crítica profunda à mecanização da vida e à receita de bolo do bem-estar.

Se relacionando melhor com seus sócios e empregados

À vontade

Comendo bem

Nada de comida de micro-ondas e gorduras saturadas

Um motorista mais paciente

Aos desavisados de plantão, informo que faço terapia há mais de duas décadas, com intervalos, passando por algumas abordagens, por modelos individuais ou em grupo, presencial ou virtual. E ainda não me sinto pronto. Nem curado. Nem imune.

Me preocupa a ilusão de onipotência que o slogan “terapia em dia” pode estar criando. Não me entenda mal. Sou um adepto do “faça terapia”, mas isso não pode significar imunidade. É como tomar vitamina C pra não ficar gripado. Previne, mas não impede.

Se a sua terapia está servindo, basicamente, para reforçar os seus próprios pontos de vista e ter alguém pra concordar com você, alguma coisa está errada. Talvez você esteja só pagando por um reforço positivo.

É claro. Pacientes entendem da forma que querem.

Se o seu amigo disse que o psicólogo dele falou que ele estava certo ao ser um canalha outro dia, isso não significa que o psicólogo tenha dito exatamente isso.

Como diz o psicólogo Alexandre Coimbra1, “nós precisamos, sim, de espaços privados para reflexão e silêncio, mas também temos que compartilhar o que nos faz sofrer, fazendo a alquimia do incômodo se transformar em palavra, e a palavra se transformar em encontro que alivia um pedaço da dor”.

Dormindo melhor

Sem pesadelos

Sem paranoia

Cuidadoso com todos os animais

Nunca jogando aranhas nos ralos da pia

Mantendo contato com velhos amigos

Curtindo uma bebida de vez em quando

IA, me dê dicas de autocuidado: Pratique o aterramento. Exercite a respiração e a presença. Escreva sobre os seus sentimentos. Faça pausas digitais. Coloque limites. “Gostaria de focar em técnicas rápidas de respiração para momentos de estresse ou prefere dicas sobre como organizar sua rotina para incluir esses hábitos?”

Não precisa, querido robô. Obrigado.

Pode parecer óbvio, mas conselhos de saúde mental das redes sociais não deveriam substituir a sua psicoterapia. Seja confessar com o padre, seja desabafar com o amigo ou desconhecido no ponto de ônibus, nada disso substitui um tratamento profissional.

É bem pouco provável que a sua vida melhore consumindo conteúdo de bem-estar nessa ou naquela rede. O mais provável é que isso seja apenas um estímulo a mais pro seu gabarito da culpa de não estar fazendo o suficiente.

Pipocam os especialistas das redes sociais. Cada um tem seu doutor influencer de estimação. Ah, a quem queremos enganar? Nem precisamos do doutor. Já temos as inteligências artificiais terapeutas, que talvez cumpram, ainda melhor, aquele papel de reforço positivo que comentei antes. Somos mestres no autoengano.

Deveríamos escutar a frase “acho que você podia fazer uma terapia” com a mesma aceitação que escutamos “você bem que podia ir ao cardiologista”. Quem sabe, um dia.

Sugerir terapia – uma terapia séria, não de Instagram – não deveria ser uma ofensa. Pelo contrário. É sinal de que nos preocupamos com aquela pessoa e achamos que ela pode se beneficiar. Do contrário, se não ligo pra alguém, só mando pro inferno mesmo.

Vale lembrar, por fim, aquela boa distinção entre “estar na terapia” e “estar em terapia”. Duas letrinhas que fazem toda a diferença.

Ter comparecido semanalmente ao consultório do seu psicólogo nos últimos cinco anos não significa, necessariamente, muita coisa. “Entrar em terapia” é algo muito distinto de simplesmente comparecer a ela.

Ok! Pode ser que terapia não seja a sua praia, mas é sempre bom suspeitar do fato de que, se você não faz terapia porque acha que não precisa, alguém pode estar fazendo por você. Ou por sua causa mesmo.

Se você chegou até aqui, talvez o que eu queira dizer, com isso tudo, é que: o misto de autossuficiência com onipotência produzido pelas doses diárias de conselhos de vida pode estar contribuindo, principalmente, com a proliferação de seres profundamente cegos ao que não diz respeito ao seu próprio umbigo, ao invés de contribuir com a nossa saúde mental.

Mas, calma. Estão todos com a “terapia em dia”.

A capacidade de rir de fraqueza

Calmo, em forma, saudável e mais produtivo

Um porco numa gaiola sob efeito de antibióticos


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1 Toda ansiedade merece um abraço. https://maisumaopiniao.com.br/2023/09/04/toda-ansiedade-merece-um-abraco/


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