Perfeccionismo, saúde mental e outras coisas mais

Um breve resgate de materiais novos e antigos sobre saúde mental, trabalho e outros temas relacionados

Outro dia, ao me preparar para a gravação de um podcast sobre adoecimento psicológico e síndrome de burnout, tive a oportunidade de revisitar alguns textos que escrevi sobre o assunto. Hoje, aproveito para resgatar um pouco do que achei essencial nesses escritos e indicar alguns materiais novos.

Stańczyk de Jan Matejko, 1862 – Pintura clássica de um bobo da corte isolado1

💼 Você já conhece a palavra do Alexandre Coimbra Amaral?

De início, lembrei do tanto que gostei do livro Toda Ansiedade Merece um Abraço2, do Alexandre Coimbra. Ele é psicólogo, terapeuta familiar, de casais e grupos, e é bastante ativo nas redes sociais. Li o livro de coração e mente abertos, e me marcou positivamente. É daqueles livros pra “fazer um post it e colar na nossa geladeira mental”.

O que quero retomar dessa leitura é a mensagem de que a saída para vivenciarmos a ansiedade de forma mais saudável não deve ser somente individual, mas coletiva.

Ele diz que “nós precisamos, sim, de espaços privados para reflexão e silêncio, mas também temos que compartilhar o que nos faz sofrer, fazendo a alquimia do incômodo se transformar em palavra, e a palavra se transformar em encontro que alivia um pedaço da dor” (posição 191).

Isso é extremamente significativo, porque vivemos em uma cultura que condena a vulnerabilidade, com raríssimas exceções. Para Alexandre, “já basta a dor de sofrer. Não merecemos a vergonha de sofrer como uma dor extra” (posição 165) e “o julgamento sobre a ansiedade piora, e muito, a sua vivência” (posição 281).

Se você já leu esse e/ou gostou da indicação, eu falei também sobre outro livro dele no blog: A exaustão no topo da montanha

🗄 Trabalho e sua ambígua combinação de prazer e sofrimento

Sempre que tenho oportunidade de discutir a relação entre saúde mental e trabalho, faço questão de pontuar alguns mitos que existem sobre o tema.

O principal deles é que “ninguém gosta de trabalhar” ou que “se trabalho fosse bom não chamava trabalho”, e por aí vai.

Na minha opinião (e de vários colegas pesquisadores), a verdade é que as pessoas gostam sim de trabalhar e se envolvem com o trabalho que faz sentido pra elas, desde que tenham as condições, as relações e o ambiente para isso.

Contudo, vivemos um cenário extremamente desigual e a oportunidade de produzir “vida” no trabalho, ao invés de apenas “sobrevivência”, costuma ser dada a poucos.

Nesse sentido, indico tanto este texto que, pedagogicamente, intitulei “O que penso quando falo de saúde mental e trabalho?”, quanto este, um pouco mais técnico e voltado a interessados no assunto, no qual comento e divulgo um curso gratuito da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Temos poucos materiais de tamanha qualidade disponíveis para o desenvolvimento na área.


🔥 Síndrome de Burnout: esgotamento profissional

A consulta ao meu acervo me levou de volta a esse texto que escrevi há alguns anos sobre o esgotamento profissional. Nada muito elaborado, mas o suficiente para definir o quadro sintomático do burnout e trazer algumas críticas ao viés individualizante que ainda observamos quando se trata de resolver o problema. O que ainda vemos muito é: a origem do problema é coletiva, porém, a solução é individual. Não é. Não somente.

“Pedir a um trabalhador que se trate fora da organização e volte curado, é como tirar um peixe em pânico de um mar cheio de tubarões, acalmá-lo, lhe ensinar algumas técnicas avançadas de fuga de predadores e, poucos dias depois, lhe devolver ao mesmo mar de onde veio”


Perfeccionismo, vício em sofrimento e ganhos secundários

🎙No episódio de número 165, intitulado “a roda dos hamsters imperfeitos”, do podcast da Rádio Escafandro, o Tomás Chiaverini convidou dois especialistas para discutir a busca pela perfeição e os impactos do perfeccionismo para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade e depressão. O episódio está excelente e bem didático.

Dá pra escutar aqui ou na sua plataforma favorita. É só separar a louça pra lavar e dar o play.

📕O substack me levou a um ótimo texto do Diogo Rodriguez, com o qual, infelizmente, me identifiquei muito. Quem é o seu principal algoz? Os outros ou você mesmo? É possível que a autodepreciação e que o sofrimento que adicionamos aos sofrimentos inevitáveis tornem-se, gradualmente, hábitos? O pior: é possível que a gente tenha se acostumado a ser extremamente rígido consigo mesmo? Parece que sim.

Recomendo. A leitura, não o vício. Leia aqui: É possível se viciar em sofrimento?

📗 Para fechar os embalos dessa edição, indico esse texto da Maria Eduarda Marrano , com o instigante título Será mesmo que você quer melhorar?. O tema dá pano pra manga, mas a autora trabalha bem a polêmica. Ela fala sobre os ganhos secundários que temos ao permanecer em determinadas situações ou escolhermos, de certa forma, não resolver certos problemas.

🧠 Nosso cérebro aprende o que deu certo pra gente sobreviver e possivelmente vai tentar repetir isso sempre, a não ser que você dê uma ajudinha para que ele aprenda novos truques.

“Nem tudo o que desejamos é aquilo que decidimos viver, pois entre o querer e escolher existe a coragem de renunciar. Eu gosto de pensar que o querer conforta a imaginação. Já a escolha transforma a realidade” – Belo trecho da Maria Eduarda Marrano


Inspira profundamente. Expire devagar.

Fecho os olhos. Inspiro e prendo o ar por uns dez segundos. Expiro lentamente. Repito quatro ou cinco vezes. Se não estou mais calmo, pelo menos o corpo lembrou de como é bom respirar. Você já tocou gaita ou flauta? É uma nova relação do corpo com o ar. De olhos fechados dá pra buscar os pontos de tensão pelo corpo, ainda que não os encontre. O estresse é ligeiro e escorregadio. Quando a gente acha que o encurralou, ele vem de voadora bem na nossa costela. Sempre fico tonto quando tento respirar com calma. Isso deve dizer alguma coisa.


Quer ler os outros textos sobre esse assunto?

  1. Para quem não está familiarizado com a histórica da loucura, “Da Idade Média ao Renascimento, o louco não era um doente mental: era uma personagem criada para entreter a corte e o povo. Um animador cujo objetivo era fazer rir o público e distraí-lo com as suas “travessuras”…”. Por isso escolhi a pintura do Jan Matejko para ilustrar o post – Figures du fou ↩︎
  2. Eu escrevi uma resenha mais elaborada sobre o livro aqui no blog ↩︎

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