Um breve resgate de materiais novos e antigos sobre saúde mental, trabalho e outros temas relacionados
Outro dia, ao me preparar para a gravação de um podcast sobre adoecimento psicológico e síndrome de burnout, tive a oportunidade de revisitar alguns textos que escrevi sobre o assunto. Hoje, aproveito para resgatar um pouco do que achei essencial nesses escritos e indicar alguns materiais novos.

💼 Você já conhece a palavra do Alexandre Coimbra Amaral?
De início, lembrei do tanto que gostei do livro Toda Ansiedade Merece um Abraço2, do Alexandre Coimbra. Ele é psicólogo, terapeuta familiar, de casais e grupos, e é bastante ativo nas redes sociais. Li o livro de coração e mente abertos, e me marcou positivamente. É daqueles livros pra “fazer um post it e colar na nossa geladeira mental”.
O que quero retomar dessa leitura é a mensagem de que a saída para vivenciarmos a ansiedade de forma mais saudável não deve ser somente individual, mas coletiva.
Ele diz que “nós precisamos, sim, de espaços privados para reflexão e silêncio, mas também temos que compartilhar o que nos faz sofrer, fazendo a alquimia do incômodo se transformar em palavra, e a palavra se transformar em encontro que alivia um pedaço da dor” (posição 191).
Isso é extremamente significativo, porque vivemos em uma cultura que condena a vulnerabilidade, com raríssimas exceções. Para Alexandre, “já basta a dor de sofrer. Não merecemos a vergonha de sofrer como uma dor extra” (posição 165) e “o julgamento sobre a ansiedade piora, e muito, a sua vivência” (posição 281).

🗄 Trabalho e sua ambígua combinação de prazer e sofrimento
Sempre que tenho oportunidade de discutir a relação entre saúde mental e trabalho, faço questão de pontuar alguns mitos que existem sobre o tema.
O principal deles é que “ninguém gosta de trabalhar” ou que “se trabalho fosse bom não chamava trabalho”, e por aí vai.
Na minha opinião (e de vários colegas pesquisadores), a verdade é que as pessoas gostam sim de trabalhar e se envolvem com o trabalho que faz sentido pra elas, desde que tenham as condições, as relações e o ambiente para isso.
Contudo, vivemos um cenário extremamente desigual e a oportunidade de produzir “vida” no trabalho, ao invés de apenas “sobrevivência”, costuma ser dada a poucos.
Nesse sentido, indico tanto este texto que, pedagogicamente, intitulei “O que penso quando falo de saúde mental e trabalho?”, quanto este, um pouco mais técnico e voltado a interessados no assunto, no qual comento e divulgo um curso gratuito da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Temos poucos materiais de tamanha qualidade disponíveis para o desenvolvimento na área.
🔥 Síndrome de Burnout: esgotamento profissional
A consulta ao meu acervo me levou de volta a esse texto que escrevi há alguns anos sobre o esgotamento profissional. Nada muito elaborado, mas o suficiente para definir o quadro sintomático do burnout e trazer algumas críticas ao viés individualizante que ainda observamos quando se trata de resolver o problema. O que ainda vemos muito é: a origem do problema é coletiva, porém, a solução é individual. Não é. Não somente.
“Pedir a um trabalhador que se trate fora da organização e volte curado, é como tirar um peixe em pânico de um mar cheio de tubarões, acalmá-lo, lhe ensinar algumas técnicas avançadas de fuga de predadores e, poucos dias depois, lhe devolver ao mesmo mar de onde veio”
Perfeccionismo, vício em sofrimento e ganhos secundários
🎙No episódio de número 165, intitulado “a roda dos hamsters imperfeitos”, do podcast da Rádio Escafandro, o Tomás Chiaverini convidou dois especialistas para discutir a busca pela perfeição e os impactos do perfeccionismo para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade e depressão. O episódio está excelente e bem didático.
Dá pra escutar aqui ou na sua plataforma favorita. É só separar a louça pra lavar e dar o play.
📕O substack me levou a um ótimo texto do Diogo Rodriguez, com o qual, infelizmente, me identifiquei muito. Quem é o seu principal algoz? Os outros ou você mesmo? É possível que a autodepreciação e que o sofrimento que adicionamos aos sofrimentos inevitáveis tornem-se, gradualmente, hábitos? O pior: é possível que a gente tenha se acostumado a ser extremamente rígido consigo mesmo? Parece que sim.
Recomendo. A leitura, não o vício. Leia aqui: É possível se viciar em sofrimento?
📗 Para fechar os embalos dessa edição, indico esse texto da Maria Eduarda Marrano , com o instigante título Será mesmo que você quer melhorar?. O tema dá pano pra manga, mas a autora trabalha bem a polêmica. Ela fala sobre os ganhos secundários que temos ao permanecer em determinadas situações ou escolhermos, de certa forma, não resolver certos problemas.
🧠 Nosso cérebro aprende o que deu certo pra gente sobreviver e possivelmente vai tentar repetir isso sempre, a não ser que você dê uma ajudinha para que ele aprenda novos truques.
“Nem tudo o que desejamos é aquilo que decidimos viver, pois entre o querer e escolher existe a coragem de renunciar. Eu gosto de pensar que o querer conforta a imaginação. Já a escolha transforma a realidade” – Belo trecho da Maria Eduarda Marrano
Inspira profundamente. Expire devagar.
Fecho os olhos. Inspiro e prendo o ar por uns dez segundos. Expiro lentamente. Repito quatro ou cinco vezes. Se não estou mais calmo, pelo menos o corpo lembrou de como é bom respirar. Você já tocou gaita ou flauta? É uma nova relação do corpo com o ar. De olhos fechados dá pra buscar os pontos de tensão pelo corpo, ainda que não os encontre. O estresse é ligeiro e escorregadio. Quando a gente acha que o encurralou, ele vem de voadora bem na nossa costela. Sempre fico tonto quando tento respirar com calma. Isso deve dizer alguma coisa.
Quer ler os outros textos sobre esse assunto?
- Para quem não está familiarizado com a histórica da loucura, “Da Idade Média ao Renascimento, o louco não era um doente mental: era uma personagem criada para entreter a corte e o povo. Um animador cujo objetivo era fazer rir o público e distraí-lo com as suas “travessuras”…”. Por isso escolhi a pintura do Jan Matejko para ilustrar o post – Figures du fou ↩︎
- Eu escrevi uma resenha mais elaborada sobre o livro aqui no blog ↩︎
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