Antônio Damásio e O erro de Descartes

Há muitos anos, quando fiz um curso de “Atualização em Psicossomática”, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fui apresentado à reflexões de Antônio Damásio e o que seria o erro de Descartes. Ainda pouco interessado em investir mais nos estudos, aquilo ficou guardado nos meus registros cerebrais, esperando uma nova oportunidade, na qual eu buscasse o ler o livro na íntegra e ver como as ideias trazidas ali faziam sentido pra mim.

O momento chegou e, recentemente, aproveitei uma oferta e adquiri o “O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano“, de Antônio Damásio, em e-book. Publicado, originalmente, em 1994 e trazido para o Brasil em 1996, o livro busca discutir novas perspectivas e questionar a teoria do dualismo mente- corpo, amplamente referenciada pelo filósofo francês René Descartes (1596-1650).

Antônio Damásio. Fonte: O Globo – https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/nao-crescemos-isolados-na-selva-diz-neurocientista-antonio-damasio-8837713

Damásio é médico neurologista e professor na Universidade do Sul da Califórnia. Como avaliam, em sua resenha sobre a obra, Tomaz e Giugliano (1997), trata-se de “um livro elegante, de uma leitura arrebatadora, que ilustra o fato de que as emoções são indispensáveis para a nossa vida racional” (p. 407).

Os autores indicam, ainda, que “são as emoções que nos fazem únicos, é o nosso comportamento emocional que nos diferencia uns dos outros. A natureza e a extensão do nosso repertório de respostas emocionais não depende exclusivamente do nosso cérebro, mas da sua interação com o corpo, e das nossas próprias percepções do corpo. Como diz Damásio, o corpo representado no cérebro constitui-se num quadro de referência indispensável para os processos neurais que nós experienciamos como sendo a mente” (p. 407).

Apesar de contar com partes bastante técnicas e termos, por vezes, com os quais estamos pouco familiarizados, o livro tem o mérito de contrapor esse conteúdo com casos reais, exemplos didáticos e ilustrações, o que torna a experiência menos desgastante, principalmente para quem não é das áreas biológicas.

Na minha concepção, o livro tem o mérito de derrubar ou, pelo menos, se contrapor a alguns mitos, como o de tomar decisões apenas de “cabeça fria”, ou seja, que a emoção não é parte integrante do raciocínio, do que consideramos o pensamento lógico e a razão. Damásio demonstra, ao contrário, que a emoção, o sentimento e a regulação biológica são parte integrante do processo de raciocínio.

Afinal, “é provável que as estratégias da razão humana não se tenham desenvolvido, quer em termos evolutivos, quer em termos de cada indivíduo particular, sem a força orientadora dos mecanismos de regulação biológica, dos quais a emoção e o sentimento são expressões notáveis” (Posição 227). Ainda de acordo com o autor, “certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. No que têm de melhor, os sentimentos encaminham-nos na direção correta, levam-nos para o lugar apropriado do espaço de tomada de decisão onde podemos tirar partido dos instrumentos da lógica” (Posição 238).

Referências

Tomaz, Carlos; Giugliano, Lilian G. (1997). A razão das emoções: um ensaio sobre “O erro de Descartes”. Estudos de Psicologia, 2(2), 407-411. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/epsic/v2n2/a13v02n2 Acesso em 02 out. 2020.

Uma resposta para “Antônio Damásio e O erro de Descartes

  1. Não precisar esperar ficar de cabeça fria para tomar decisões pode até ser que tomemos a decisão baseada na emoção do momento mas acho um tanto perigoso!

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