Em busca de uma opinião sensata

Não sei se ‘sensata’ seria a melhor palavra para definir o que penso. Talvez, ponderada. Imparcial. Livre de interesses políticos, individuais ou coletivos. Sei que isso é impossível, afinal, nenhuma opinião pode ser imparcial. No máximo, mais ou menos neutra, equilibrada, mas nunca imune à nossa constituição social, familiar, individual e histórica. É o que busco, uma opinião construtiva, um ponto de vista ao qual possa me ancorar.

Vivemos tempos difíceis. Claro, acho que sempre o estivemos vivendo. Afinal, quando a humanidade esteve tranquila, vivendo em paz e harmonia? Por mais clichê que possa soar, é sempre adequado utilizar essas três palavras para caracterizar nossa total incapacidade de compreender e intervir claramente em uma realidade que parece fantasia às vezes.

Imagem: Michal Dziekan

Imagem: Michal Dziekan

Dizem que estamos passando por uma crise no Brasil. Concordo, afinal de contas, minha conta de luz duplicou o valor, o pão está mais caro, lojas estão fechando as portas e tá todo mundo reclamando, com sangue nos olhos, querendo achar alguém pra crucificar. Normal.

Tenho 30 anos e pouco mais de dois acompanhando o cenário político, social e econômico com maior interesse. Isso significa ler matérias nos jornais, assistir a noticiários diariamente e conversar sobre o tema com pessoas próximas. Significa também, como imagino que aconteça com grande parte da minha geração, acompanhar o Twitter, o Facebook, receber boatos no WhatsApp, ler comentários ora estúpidos ora sensatos nas matérias de Internet, e por aí vai. Você sabe do que estou falando.

Além de simplesmente acompanhar tudo isso, tento entender um pouco mais. Leio artigos. Escuto comentaristas de economia, de política, vejo debates entre especialistas nos assuntos. Ainda assim, uma insatisfação residual insiste em me incomodar. ”A imprensa é toda comprada” eles dizem, “Eles só querem te distrair do que realmente importa enquanto roubam mais dinheiro” outros acrescentam. Os adeptos de teorias da conspiração ressaltam que os jornais são todos dominados por pessoas de grande poder, pelo Estado, que figuras políticas são preservadas, blindadas. Não os culpo.

Imagem: Duke

Imagem: Duke

Me parece que só sabemos o que querem que a gente saiba. Para os mais curiosos, notícias manipuladas e constantes mudanças de foco do jornalismo, até que você perca a paciência e desista de entender. Para os desinteressados, pão e circo. Vá viver a sua vida, trabalhar, pagar as contas, cuidar da sua família e deixe a gente aqui, governando para você. Não se preocupe, está tudo sob controle.

Não tenho dúvida de que, de todos os escândalos políticos que tomamos conhecimento recentemente, só visualizamos a ponta do iceberg, como dizem. Existe toda uma base de fatos e informações que nunca conheceremos, uma rede imensa de consequências (e manobras) que não chegará aos nossos ouvidos e nem será contada nos livros de história. Temos para nós mesmos, algumas poucas versões dos fatos, e é só. Contentem-se.

Dizem que sempre estivemos em busca do Messias, aquele que virá nos salvar, o julgamento final, onde todas as verdades nos serão ditas, os justos reconhecidos, os pecadores condenados, o paraíso, o descanso. Se virá ou não, difícil dizer. Ninguém que morreu voltou para contar como são as coisas do outro lado.

Imagem: Angeli

Imagem: Angeli

Enquanto aguardamos, alguns se preocupam em entender melhor a realidade, outros não. Alguns praticam a mudança, outros tratam de nos empurrar para trás. Eu, particularmente, sempre estive em busca de opiniões equilibradas, pontos de vista ponderados. Acho que fui criado dessa forma. É impossível me conformar apenas com o que já conheço, preciso saber mais. Quem acaba ditando o ritmo é a nossa experiência.

A quem devemos ouvir? Quem merece nossa atenção? Fontes não faltam, mas, quem nos ensina a escolhê-las? A sociedade e o indivíduo não existem um sem o outro. Em cada lugar do mundo, em diferentes períodos históricos, diferentes grupos ocupam o poder, tensões e conflitos ocupam o lugar de propulsores de mudanças que dificilmente podemos prever. Somos todos produtos e mecanismos de mudança em nossa sociedade, ocupando posições distintas, com maior ou menor poder de influenciar a vida das pessoas ao nosso redor. Não estamos desconectados. Vivemos em redes, como diversos estudiosos já o disseram.

Uma frase (ou similar) diz que “todo povo tem os representantes que merece”. Assim como temos o amor que achamos que merecemos, possivelmente aceitamos a informação que achamos justa, o herói que escolheram para nós, o vilão que nos apresentam para apedrejarmos e por aí vai. Busco uma opinião equilibrada e informantes justos. Não sei se vou encontrar.

Sua Majestade entra e vai desfilando lentamente por entre os nobres, se encaminhando para o elevado do trono. Quando, porém, coloca o pé no degrau do trono, um menininho, que estava perto, arregala os olhos e fala, alto bastante para que a sala toda, mergulhada em emocionado silêncio, ouvisse: “Mamãe, mamãe, o Rei está nu!” Millôr Fernandes, Leia na íntegra

Leia também: O absurdo, longe (ou perto) de nós, A ética e o ‘eclipse’ dos princípios morais, A liberdade, as aparências e os ideais

Referências

ELIAS, Norbert. A sociedade dos indíviduos: organizado por Michael Schoter; tradução, Vera Ribeiro; revisão técnica e notas, Renato Janine Ribeiro. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994

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Uma resposta para “Em busca de uma opinião sensata

  1. As impressões sempre variam em função do lado onde estamos. No momento, as pessoas honestas, trabalhadoras e com um bom senso ético e moral, estão se sentindo perdidas, sem esperança e com pouca perspectiva de mudança. Por outro lado, quem poderá resgatar essas pessoas, senão elas próprias?

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