III Seminário de Promoção da Saúde do Trabalhador

Trabalhar com Saúde do Trabalhador não é algo fácil. Muito pelo contrário, é uma opção para quem gosta de desafios e realidades complexas, sem respostas simples. É nadar contra a maré. Em um panorama mais abrangente, a área de promoção e prevenção da saúde do trabalhador de um modo geral, nos apresenta inúmeras questões e reflexões que vão muito além da nossa área de conhecimento ou experiência profissional.

Neste dia 16 de Novembro de 2015, tivemos a oportunidade de participar do III Seminário de Promoção da Saúde do Trabalhador, promovido pela Prefeitura de Belo Horizonte – PBH, por meio da Secretaria Municipal de Saúde e o Sistema Único de Saúde – SUS, com o apoio do Governo do Estado de Minas Gerais e a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.

Como está ocorrendo a promoção e prevenção da saúde do trabalhador no campo das políticas públicas? Quais iniciativas devemos conhecer? Como o pensamento contemporâneo afeta e guia nossas iniciativas?

O seminário foi uma excelente experiência e uma real troca de saberes. É somente ao discutirmos um tema como este que conhecemos sua real complexidade. Normalmente, estamos trabalhando isolados em nossas ilhas de problemas e não temos a oportunidade de visitar outros contextos, conhecer novas pessoas e formas de lidar com um problema comum.

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Imagem: Os operários, 1933, Tarsila do Amaral

Turno da manhã

Com a fenomenal palestra do Dr. Ricardo de Menezes Macedo – Médico, Professor de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, sobre a instrumentalização da saúde no mundo contemporâneo, tivemos a abertura para questionar uma lógica de mercado e um padrão técnico/científico que vêm cada vez mais impactando nossas vidas. Citando Freud, Max Weber e até Woody Allen, o professor nos chamou a atenção para a lógica econômica que rege nosso mundo – e nele a prática da promoção e prevenção da saúde – e que pode estar guiando nossos desejos, sem que ao menos tenhamos consciência disso.

“Depois de uma certa idade, as palavras mais bonitas de se ouvir não são Eu Te Amo… e, sim, É Benigno” Woody Allen

Para a primeira mesa redonda, ouvimos a experiência de três especialistas, nos levando a refletir sobre as lesões por esforço repetitivo – LER/DORT no cenário atual, a mediação de conflitos no trabalho como instrumento de promoção de saúde e os transtornos mentais relacionados ao trabalho.

O Dr. José Tarcísio de Castro Filho ilustrou a presença das lesões por esforço repetitivo ao longo da história e enfatizou que esse tipo de transtorno sempre existiu, ressaltando ainda que o termo LER/DORT não é um diagnóstico médico específico. O palestrante afirmou que a organização do trabalho é muitas vezes determinante nestes casos e que há dificuldade em se estabelecer o nexo técnico epidemiológico. Enfatizou ainda que a redução dos quadros mais graves passa pela informação e acolhimento com abordagem multiprofissional.

Quanto à mediação de conflitos como instrumento de promoção da saúde, a Dra. Luciana Parisi nos mostrou a importância de vivermos de forma que não tenhamos que eliminar a diferença, mas sim conviver com ela de forma respeitosa. Para a palestrante, o conflito surge das relações humanas e é necessário identificar sua origem, contexto, conhecendo suas diferentes interpretações e sentimentos mobilizados. A Dra. Luciana apresenta uma forma de não menosprezar o conflito, mas sim acessar as narrativas com a presença de um terceiro – o mediador – e realizar um trabalho coletivo de construção a partir da divergência.

“O homem não teria alcançado o possível se, repetidas vezes, não tivesse tentado o impossível” Max Weber

Encerrando a parte de apresentações da mesa redonda, a Dra. Maria Elizabeth Antunes Lima nos atentou para a necessidade de cuidarmos do trabalho, realizando ações de intervenção que busquem, através do protagonismo do trabalhador, trazer à tona as divergências e se pensar as melhores formas de organizar o trabalho. A palestrante nos apresentou as dificuldades teóricas e práticas enfrentadas no campo que estuda a relação entre a saúde mental e o trabalho, principalmente de se demonstrar, cientificamente, como se dá passagem de uma experiência de trabalho para o transtorno mental, o nexo causal.

Além disso, a Dra. Elizabeth ressaltou o papel higienista desempenhado por muitas empresas, que apostam em falsas soluções individualizadoras para lidar com o problema das doenças mentais. A autora fez uma crítica à presença do psicólogo na empresa apenas como ferramenta que proporcione ao funcionário o desabafo, a redução da angústia. A palestrante alertou para uma visão disseminada de que os problemas do trabalho têm origem individual, gerando medidas ineficazes e vitimizando o trabalhador. Para a especialista, é necessário trabalhar para transformar a realidade, fugir do denuncismo e intervir nos contextos de trabalho.

Dos três relatos, foi possível concluir a importância de se realizar uma análise completa do problema, quando o encontramos. O conflito, que surge das relações humanas, e o verdadeiro diálogo, que ocorre quando existem discordâncias, são elementos para chegarmos a resultados satisfatórios para todos. A paz não pode ser decretada, mas sim construída.

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Imagem: Will Tirando

Turno da tarde

Na segunda mesa redonda, conhecemos inicialmente as estratégias adotadas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis – DCNT (cardiovasculares, neoplasias, respiratórias e diabetes). A Dra. Lenice Ishitani apresentou dados referentes a pesquisas realizadas no período de 2006-2014, com base no Plano Nacional de Ação para Enfrentamento das DCNT, que tem como base os temas: tabagismo, inatividade física, alimentação e uso nocivo do álcool. Dados relevantes como a redução do número de fumantes e aumento do consumo diário de frutas e hortaliças foram ressaltados, além do aumento de adultos com excesso de peso, diabetes ou obesidade.

Em uma palestra diferenciada, o educador físico Rony Carlos Las Casas Rodrigues trouxe a discussão “atividade física-comportamento sedentário-lazer no trabalho” para o debate. Fundamentando-se na tríade Conhecer-Querer-Agir, o especialista mostrou a importância da atividade física na teoria e na prática, fazendo os participantes saírem de suas cadeiras. Para o professor, há um preconceito com o lazer, normalmente relacionado ao ócio e à preguiça. Fomos desenhados para nos mover.

Como fechamento do seminário, nos inspiramos nas palavras enérgicas da Dra. Elza Machado de Melo. Alienação, corrupção, violência institucional, autonomia, guerras e soberania do mercado. Como tudo isso se relaciona com as políticas públicas de promoção e prevenção da saúde do trabalhador?

Não há conclusão definitiva. Todos concordamos que o tema é complexo. Não há resposta simples. Será tecer novas conexões uma forma de lutar contra a violência? Acreditamos que sim.

O Seminário de Promoção da Saúde do Trabalhador é uma iniciativa de grande importância e vem de encontro a uma crescente discussão sobre nossa saúde mental e física no trabalho. É fundamental que as esferas municipal, estadual e federal estejam atentas a essas práticas e busquem a promoção da saúde do seu próprio servidor, assim como a prevenção de doenças nos funcionários que enfrentam diversos obstáculos para atender a população em nossas instituições públicas.

Para buscar maiores informações, listo alguns sites:

Observatório de Saúde de Trabalhador de Belo Horizonte (OSAT-BH)

Universidade Federal de Minas Gerais

Prefeitura Municipal de Belo Horizonte

 

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Imagem: Observatório de Saúde de Trabalhador de Belo Horizonte (OSAT-BH)

Confira a programação na íntegra:

8h – Credenciamento e Café Receptivo

8h30 – Mesa de Abertura

Fabiano Pimenta – Secretário Municipal de Saúde e autoridades convidadas

9h15 – A Instrumentalização da Saúde no Mundo Contemporâneo

Ricardo de Menezes Macedo – Médico, Professor de Clínica Médica, Faculdade de Medicina da UFMG.

10h – Mesa Redonda / Moderador

Anthero Drummond Júnior – Médico, Gerente de Saúde do Trabalhador/SMSA – BH.

As LER / DORT no Cenário Atual da Saúde do Trabalhador

José Tarcísio de Castro Filho – Médico do Trabalho, CEREST – BH Barreiro.

Mediação de Conflitos do Trabalho como Instrumento de Promoção da Saúde

Luciana Parisi – Médica do Núcleo de Acompanhamento Sócio-Funcional, Gerência de Gestão do Trabalho / SMSA- BH.

Os Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho – Avanços, Desafios e Perspectivas.

Maria Elizabeth Antunes Lima – Psicóloga, Professora Titular do Departamento de Psicologia da FAFICH / UFMG.

13h30 – Mesa Redonda / Moderadora

Maria Tereza Costa Oliveira – Médica, Gerente de Vigilância em Saúde e Informação/SMSA – BH.

Doenças Crônicas Não Transmissíveis: a Vigilância como Estratégia para o seu Enfrentamento Lenice Ishitani – Médica, Referência Técnica de Doenças e Agravos Não Transmissíveis.

Atividade Física, Comportamento Sedentário e Lazer no Trabalho.

Rony Carlos Las Casas Rodrigues – Educador Físico, Coordenador das academias da Cidade, GEAS/SMSA – BH.

Promoção da Saúde e Prevenção da Violência

Elza Machado de Melo – Médica, Professora de Medicina Social da Faculdade de Medicina da UFMG.

Leia também: Quando adoecemos por não trabalhar, Sete dicas para ser infeliz no trabalho

 

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