Violência gratuita?

“Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor, enquanto a violência é praticada em plena luz do dia” 

John Lennon

Já discuti em duas oportunidades o tema da violência por aqui, no entanto, ainda não exploramos a possível causa do comportamento violento. Faz parte da nossa natureza ser agressivos?

Não sou biólogo ou estudante da vida animal, mas pelo que conheço, os animais, excluindo o ser humano, não costumam ser violentos apenas por ser violentos. Ou seja, adotar comportamentos agressivos geralmente é motivado pela busca por alimentos, pela proteção dos seus semelhantes, de si próprio ou por medo. Me corrijam se eu estiver errado.

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É inegável que observamos com frequência um ser humano agredindo fisicamente ou psicologicamente um semelhante, tirando a vida de outra pessoa, destruindo bens públicos, maltratando animais domésticos, dentre outros comportamentos pouco nobres e bastante condenáveis pela maioria da sociedade.

Aparentemente essas ações não são adotadas para fins óbvios como conseguir alimentos ou se proteger de uma ameaça. Muitas vezes se caracterizam pelo que chamamos à primeira vista de “violência gratuita”. A agressão pela agressão, a violência pela violência.

Recentemente assisti ao filme “Noite de crime” (título original The Purge), um suspense com grande carga psicológica. No filme, que se passa no ano de 2022, o governo norte americano aprovou há alguns anos a “purgação anual”, ou seja, anualmente, durante uma noite, no período de 12 horas, todos os crimes são permitidos.

Ao longo de 12 horas, assassinatos, roubos e depredações não são ilegais e as pessoas podem ficar à vontade para liberar sua raiva pela cidade.

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De acordo com o governo e grande parte da população, a noite da “purgação” como é chamada, é um sucesso e dá oportunidade aos cidadãos de liberarem toda sua agressividade durante essas 12 horas, onde serviços como bombeiros, hospitais e polícia, simplesmente não funcionam.

Em uma análise psicológica, a liberação anual da tensão gerada pela raiva guardada dentro de nós, serviria quase como uma purificação, um alívio, uma descarga de energia para que o restante do ano fique mais leve.

A ideia de se criar um espaço e um tempo destinado à violência parte do pressuposto de que nossa violência é inata. Sentimos raiva, somos agressivos e se tivermos oportunidade seremos violentos. Existe um instinto agressivo que luta para ser satisfeito.

Pessoalmente, não acredito inteiramente nessa teoria e simpatizo mais com a reflexão apresentada por Yves de La Taille (2009) de que “a hipótese do instinto agressivo não somente é reducionista como nos impede de perceber que os atos violentos costumam ter variadas causas e não serem expressão de uma suposta natureza humana”.

La Taille (2009) questiona se

“a agressividade (uma dimensão psicológica da violência) corresponde a um instinto animal e humano, ou a uma estratégia para se alcançar determinados fins, estratégia esta escolhida em razão de determinados traços de personalidade construídos durante a vida do indivíduo?”

O autor aponta que no campo da biologia principalmente, teses do instinto agressivo ou disposições genéticas para violência, vêm sendo abandonadas. Sobre sua compreensão do tema, aponta quatro conjunto de fatores que influenciam no comportamento violento: o contexto, a inteligência, a afetividade e a moral.

Sobre o contexto, entende-se que o homem não se comporta da mesma forma quando está sozinho e quando está em grupo, “dito de outra forma, qualquer pessoa pode, se assim o contexto o favorecer (com destaque para as grandes concentrações de pessoas e para a relação para com a autoridade), agir de forma violenta”.

De acordo com a pesquisas do autor, a inteligência, o nível intelectual, influenciam pouco sobre a violência. É dada maior relevância ao desenvolvimento afetivo, ou seja, como o individuo se estrutura emocionalmente, e também à questão moral, o desenvolvimento ético e cultural. Em sua revisão, La Taille (2009) aponta que a violência “deve ser antes pensada como produção cultural do que como ausência de cultura”.

Dessa forma, entendo a violência mais como uma resposta ou um meio para se alcançar um fim, do que uma tendência à qual, vez ou outra, nos lançamos.

A violência psicológica e a agressão injusta, geralmente entendidas como manifestações da maldade humana, são aspectos de difícil análise, principalmente quando não conseguimos ser imparciais. Sentimentos de revolta ao presenciarmos a violência e emoções como raiva e medo, podem fazer com que a consideremos como algo alheio a nós, que deve ser exterminada e pouco compreendida.

No entanto, é essencial buscarmos compreender sua produção e entender que, muito além de reduzir a violência a uma tendência inevitável, devemos refletir sobre a ampla gama de fatores que mostram ainda o comportamento violento, como um possível meio para alcançar nossos objetivos.

Referências

LA TAILLE, Yves de. “Moralidade e violência: a questão da legitimação de atos violentos” in Temas em Psicologia – 2009, Vol. 17, no 2, 329 – 341 Dossiê “Psicologia, Violência e o Debate entre Saberes”.

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