O valor duvidoso da personalidade forte

“Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido”. Friedrich Nietzsche

“Fulano tem personalidade forte”. Quantas vezes já não ouvimos frases como essa? Ou “Joãozinho tem um gênio forte” ou “é o jeito de Ciclano. É o temperamento dele”. É possível que seja apenas uma interpretação pessoal, mas constantemente ouço essas afirmações como sendo algo positivo. Ou seja, a pessoa que diz que a outra tem personalidade forte, normalmente se refere a essa característica como algo positivo, uma qualidade, sendo também comum ser utilizada como justificativa para alguma atitude.

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Será realmente uma qualidade “ter uma personalidade forte” no sentido que muitas vezes a atribuímos? Eis como podemos imaginar alguém com essa característica:

Uma pessoa rígida, pouco flexível, com opiniões formadas e estabelecidas, sem grande abertura para coisas novas e diferentes pontos de vista. Dificilmente critica as próprias atitudes e realiza uma auto avaliação. “Eu sou assim e pronto”. O auto conhecimento costuma passar longe e costuma se orgulhar de ter um temperamento forte.

É bom ser assim? É saudável? Características como: ser bem resolvido, ser seguro de si ou “eu me amo”, podem ter diferentes significados e utilidades. Ser bem resolvido e ter opiniões formadas é diferente de ser rígido, cheio de si e inflexível.

Tomar atitudes é importante. Tomar decisões e agir são aspectos fundamentais da nossa vida. Costumam determinar quem somos para o mundo que nos rodeia. Mas não devemos questionar sempre comportamentos congelados e pontos de vista imutáveis?

Ter uma personalidade forte, no sentido de estabelecida e estável, pode contribuir muito em nossa vida pessoal e profissional, afinal, não faltam motivos, muitas vezes, nos relacionamentos afetivos, familiares e profissionais para abalar nossa confiança, orgulho ou auto estima. Como diz Zygmunt Bauman:

“Há dois valores relativamente independentes que dão forma a vida humana. Um deles é o destino. O destino é o apelido para todas as coisas sobre as quais não temos nenhuma influência. É o que acontece conosco mas não foi causado por nós. E o outro é o caráter. O caráter é algo muito individual. Você pode trabalhar em cima do seu caráter se quiser, pode muda-lo, melhora-lo, boa parte dele está sob seu controle”.

Utilizo aqui o caráter em um sentido próximo da personalidade, como modo de agir, pensar e se posicionar. Personalidade no senso comum costuma definir uma característica mais evidente que enxergamos nas pessoas. Define muitas vezes um papel que desempenhamos na vida, apenas um de muitos que compõem nossa personalidade.

Na Psicologia, costuma remeter a um grupo de características ou papéis que definem modos de agir, se comportar, pensar, dentro de determinado padrão, reconhecido individualmente e socialmente, em um sentido mais profundo.

É difícil estabelecer um ideal de ser humano ou uma personalidade à qual tomaremos como referência. A perfeição não é, nunca foi e dificilmente será nossa principal característica. No entanto, o que gostaria de considerar como personalidade forte remete normalmente à abertura para mudanças, novos pontos de vista e uma habilidade crescente de se colocar no lugar do próximo.

O equilíbrio costuma ser o caminho ideal para muitas coisas em nossa vida. Não será também o equilíbrio essencial em nosso modo de agir, de pensar, nosso jeito de ser e nos relacionar?

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4 Respostas para “O valor duvidoso da personalidade forte

  1. Concordo que muitas vezes a inflexibilidade pode significar uma defesa, uma resistência a mudança. Na própria psicoterapia é delicada a fronteira entre o que é questionável naquele momento ou não. Não adianta retirar uma defesa se não tiver nada para pôr no lugar. Obrigado Vânia!

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  2. Contam que certa vez, Bertrand Russel foi indagado sobre estar disposto a morrer pelos seus ideais, no que ele respondeu prontamente que não, afinal ele poderia estar errado. Firmeza de propósito, determinação e disciplina são indispensáveis às pessoas que pretendem evoluir, psicológica ou materialmente, mas há uma enorme distancia entre essas coisas e a teimosia, a burrice e a rigidez excessiva. A dinâmica da vida nos mostra que o que é verdadeiro hoje, amanhã pode não ser mais. Bons argumentos devem sempre ser considerados e o recuo em determinadas posições, ao invés de denotar fraqueza, apenas demonstra sabedoria de quem o faz. A humildade é um dom.

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  3. Entendo como personalidade forte, pessoas que defendem seus pontos de vista, suas opiniões, posiçõesntes com unhas e dentes. Para isso necessitam certo conhecimento a cerca deste ou daquele assunto. Porém vejo também que algumas são extremamente inflexíveis, creio que ai está o ponto de desequilíbrio. Uma pessoa com personalidade forte, deve ser, como vc bem colocou, aberta às mudanças, revendo suas posições e opiniões, afinal vivemos num mundo em constantes mudanças, e isto não significa necessariamente, mudar de opinião como se troca de roupa, um “vira folha” como dizem, mas uma revisão é sempre bem vinda, e isto acontece, principalmente na experiência da convivência com o outro, culturas, dramas, etc. A inflexibilidade pode ser patológica na medida que a usamos para velar certas nuances da nossa personalidade muitas vezes insuportáveis à nossa consciência. Amei o texto e obrigado por esta oportunidade de reflexão.
    Vânia Soares

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