A culpa é da mãe: a psicologia popular

“A culpa é da mãe” e “tudo tem a ver com sexo”. Como psicólogo, já ouvi bastante essas duas afirmações. Por mais que ditas em tom de ironia e no sentido de brincadeira, essas frases fazem parte de um conjunto de conhecimentos e informações mal compreendidas da psicologia.

Além dos fatos de que “todo psicólogo é louco” e que “terapia é coisa pra gente doida”, diversas imagens e conceitos compõem o imaginário social da Psicologia. Por se tratar de um campo de pesquisa recente em relação a outros centenários ou milenares, é compreensível que seja recebido com ressalvas. Além disso, o conhecimento psicológico baseia-se no estudo do comportamento humano, ou seja, quando entramos em contato com a psicologia, entramos em contato com nós mesmos e isso, nem sempre é legal.

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Ao longo da história da psicologia e da psiquiatria, diversos conhecimentos foram gerados, resultados de muita pesquisas, tentativas e erros, assim como em toda ciência. Vários desses conhecimentos passaram a circular entre as pessoas, de boca em boca, como uma brincadeira de “telefone sem-fio” e hoje se misturam ao que pode-se chamar de Psicologia do senso comum, do cotidiano ou psicologia popular.

O que é a psicologia do senso comum?

Em primeiro lugar, senso comum diz de um conjunto de ideias socialmente aceitas em determinado local e época.

Fletcher (1984) citado por Pinto (1999), afirma que “o senso comum é um corpo de crenças e conhecimentos culturais partilhados por um grupo ou comunidade acerca do funcionamento das pessoas e do mundo que as rodeia” (PINTO, 1999).

Sendo assim, a psicologia popular, além de ser um conjunto de crenças e ideias transmitidas através de gerações de como as pessoas funcionam e pensam, é um grupo de conhecimentos dispersos e variados baseados em experiências de vida, teorias difundidas e conceitos socialmente construídos sobre saúde mental e questões afins.

São muitas vezes conceitos compreendidos parcialmente pela maioria das pessoas e absorvidos por nós como mais um instrumento para enxergar a realidade.

Em relação ao senso comum, é importante argumentar que:

“…uma pessoa não usa o senso comum ao acaso, mas seleciona antes o curso de ação que em função da experiência anterior lhe parece mais adequado e eficaz. Deste modo, com o decorrer do tempo e o aumento da experiência, o senso comum vai-se tornando cada vez mais esclarecido convertendo-se talvez em inteligência pratica e na sabedoria dos idosos e dos mais velhos” (PINTO, 1999).

Ou seja, o senso comum faz sentido e sua construção não ocorre ao acaso. No entanto, não pode ser considerado sempre confiável, previsível e definitivo. Não é ciência.

Frases como “Fulano está deprimido”, “Joãozinho é hiperativo”, “Beltrano é bipolar” ou “Ciclano tem dupla personalidade” se tornaram comuns e na maioria das vezes trazem julgamentos precipitados, equivocados, baseados na psicologia popular e com pouca, ou quase nenhuma, base teórica ou científica.

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Além disso, ditados e provérbios como “quem arrisca, não petisca”, “para bom entendedor, meia palavra basta” ou “quando um não quer, dois não brigam”, nem sempre correspondem a realidade.

Qual a diferença entre essa psicologia e a psicologia científica?

A psicologia como ciência é o estudo científico da organização mental e do comportamento humano. Este objeto de estudo foi e ainda é analisado por diferentes perspectivas, dentre as quais se incluem as principais correntes teóricas da psicologia, como por exemplo: psicanálise, comportamental, cognitiva e fenomenológica.

“A função da psicologia é constituir um corpo coerente de enunciados, empiricamente fundamentados, de forma a explicar o comportamento e a organização mental das pessoas e proporcionar previsões precisas” (PINTO, 1999).

Como qualquer ciência, busca testar, comprovar, encontrar resultados semelhantes, procurando prever o produto. Como toda ciência, contesta o saber já existente, nesse caso o senso comum ou a sabedoria popular.

Mesmo diferentes, psicologia do senso comum e psicologia científica são afins, sempre se influenciando mutuamente. O mais importante é sempre questionar verdades absolutas e entender que, em alguns momentos, é fundamental considerar a seriedade de uma ciência que busca entender sempre um pouco mais sobre nós.

Referências bibliográficas

PINTO, A. C. O que é que a psicologia científica tem que a psicologia popular e o senso comum não têm? In Psicologia, Educação e Cultura, 3 (1) 157-178. Portugal, 1999.

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10 Respostas para “A culpa é da mãe: a psicologia popular

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  3. Com certeza essa contradição existe. É comum a psicologia ser um conhecimento admirado, no entanto, muitas vezes quando é necessário que a própria pessoa recorra a esse profissional, o preconceito e a visão distorcida ainda predominam.

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  4. Interessante a imagem da psicologia e do psicólogo para a sociedade. As pessoas tentam se aproximar dela através do senso comum, porque, acredito eu, que de certa forma ela causa uma certa atração, um fascício. No entanto, quando o assunto é sério, ou seja, fazer uma análise do seu próprio eu, da sua história de vida, se haver com seus fantasmas e etc, a coisa é pra doido.
    Vânia Soares

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  5. Poder questionar verdades absolutas é sempre interessante! Duvido sempre das pessoas que chegam cheias de afirmaçoes e pouco se abrem para a conversaçao com outro. Com isso antes de afirmar verdades, creio que seria mais enriquecedor perguntar , duvidar e principalmente escutar ! Desta forma as conversas vão ficar, no minimo, mais agradáveis !

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  6. O senso comum é uma ótima forma de influenciar a busca pela confirmação de um determinado “dito” ou “postura”… Acho que é o primeiro passo até estudos científicos e resultados concretos!

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