Ser gentil é mais importante do que estar certo

“Ah! Se eu pudesse deletar essa pessoa da minha vida seria tão bom

E se eu pudesse enxergar e interpretar o pensamento de uma pessoa sendo pouco gentil comigo ou me olhando com desprezo, veria alguma frase parecida com essa. Sim, sou otimista porque existem muitas frases piores.

Estamos querendo nos ver livre das pessoas? Não precisamos de ninguém? Preciso mesmo respeitar o próximo?

Circulam diversas brincadeiras através de vídeos e textos que comparam as relações estabelecidas em uma rede social como Facebook e Twitter com as relações presenciais, pessoa a pessoa. Assim como o famoso “deletar”, recursos como solicitar amizade, bloquear alguma pessoa, curtir algum comentário, seguir alguém, desfazer uma amizade e mudar de status de relacionamento, tornam-se estranhos se trazidos para o mundo real, olho no olho, corpo a corpo.

Ilustração: Alessandro Gottardo

Ilustração: Alessandro Gottardo

Encontro opiniões semelhantes quando o assunto é: a gentileza e a boa educação são comportamentos cada vez mais raros entre as pessoas. Falo aqui sobre ser gentil e educado em um sentido comum, de optar pela ação nobre, pela cortesia, pelos modos de se viver bem em sociedade, com respeito e consideração ao próximo.

“Eu aprendi que ser gentil é mais importante do que estar certo” William Shakespeare

Mas, por que talvez essas qualidades estejam se tornando raras? É possível que o advento das redes sociais e da internet esteja influenciando de alguma forma?

Ao discutir sobre laços humanos e redes em uma entrevista ao canal Fronteiras do Pensamento, o sociólogo Zygmunt Bauman (2011) diz:

“O que é uma rede? A rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes: uma é conectar e a outra é desconectar. Eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. É tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, mas conexões off-line, conexões de verdade, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho. Então romper relações é sempre um evento muito traumático” (BAUMAN, 2011).

Ao pensar sobre a raridade de gentileza e educação entre as pessoas, me questiono sobre a causa desse fenômeno e sua veracidade. Observo sim atos de gentileza e existem com certeza ótimos exemplos totalmente opostos ao que discuto aqui, no entanto, não acho que seja a maioria.

Acredito que a sociabilidade, o senso de comunidade e os relacionamentos interpessoais estão sim “abalados”. Um fenômeno recente como a internet e a criação de redes virtuais de relacionamento criam um novo objeto de análise sobre nossa personalidade e nosso comportamento. Em resenha sobre a obra “Amor líquido” de Bauman, Assis Ribeiro afirma:

“Pelo que pude compreender a modernidade liquida são os avanços tecnológicos que influenciam muito o ser humano em suas relações de um modo geral e o amor líquido representa justamente esta fragilidade dos laços humanos, a flexibilidade com que são substituídos”.

Nossas novas formas de nos relacionar (telefone celular, mensagens de texto, e-mails, redes sociais, etc.) podem estar colaborando com a falta de “modos” entre as pessoas?

Em um texto postado por Sergio Jabur, encontrei a seguinte citação: “A verdadeira tarefa política é a reconstrução de nossos afetos” (SAFATLE, 2014). Devemos nos preocupar em não esquecer a importância do laço humano, mesmo sabendo que “os afetos nos afetam”. Ser gentil envolve se relacionar, levar outro ser humano em consideração.

Ainda de acordo com Bauman (2011), “os laços humanos são uma mistura de benção e maldição”. A benção envolve ter a confiança de outra pessoa e viver uma experiência prazerosa ao se relacionar. A maldição envolve o compromisso e a impossibilidade de se comprometer com novas oportunidades caso elas surjam. “Então é uma situação muito ambivalente, e consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários” (BAUMAN, 2011).

As novas formas de se relacionar que colaboram para o não envolvimento podem, também, nos prevenir do afeto, seja do ganho ou da perda. Será mais fácil assim não considerar o próximo?

Referências bibliográficas

FRONTEIRAS DO PENSAMENTO. Entrevista com Zygmunt Bauman.

Blog Psicologia em Palavras. http://www.psicologiaempalavras.com/Sergio Marques Jabur.

RIBEIRO, Assis. Resenha de “Amor líquido”, de Zygmunt Bauman. Disponível em  http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/resenha-de-amor-liquido-de-zygmunt-bauman.

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