O que trabalho tem a ver com psicologia?

“O trabalho dignifica o homem”. Garanto que a maioria das pessoas já ouviu essa frase ou algo parecido. Além do valor social do trabalho que essa frase traz, o trabalho é valioso sim na vida de qualquer ser humano, não tenho dúvida. Mas não falo de trabalho apenas como emprego formal, mas também como trabalho no sentido de criação. No dicionário, eis algumas definições:

  1. 1. Ato de trabalhar. 2. Qualquer ocupação manual ou intelectual.3. Cuidado que se emprega na feitura de uma obra. 4. Obra feita ou que se faz ou está para se fazer.5. Labutação, lida.6. Fenómeno da vitalidade dos órgãos.”trabalho”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

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Outras ainda como: fazer ou preparar algo para determinado fim, fazer esforço para algo, exercer uma atividade profissional ou ainda formar ideias ou fazer reflexões, mostram a amplitude do termo. Pretendo voltar a discutir o tema em outras oportunidades, no entanto, cabe a essa discussão o sentido usual da palavra. Como você vê o seu trabalho? Uma simples obrigação? Uma tortura? Ou fonte de satisfação, realização pessoal e profissional?

Alguns podem se questionar: o que trabalho tem a ver com psicologia? Muito mais do que normalmente se imagina.

“Dizia Freud que tem saúde mental quem é capaz para o amor e o trabalho” (RIOS, 2008).

A relação entre Saúde Mental e Trabalho já é objeto de estudo há algum tempo. Lima (2002) coloca Sivadon como o primeiro autor a utilizar o termo Psicopatologia do trabalho e como um dos primeiros a discutir as relações entre o surgimento de determinados distúrbios mentais e tipos específicos de trabalho. Sivadon trouxe à tona a questão do trabalho enquanto um possível recurso terapêutico, contendo porém, dependendo de sua organização, fatores facilitadores ao surgimento de distúrbios mentais.

“No trabalho passamos a vida, desenvolvemos nossa identidade, experimentamos situações, construímos relações, realizamos nosso espírito criativo. E é também no trabalho que adoecemos” (RIOS, 2008) .

São inúmeras as formas de se pensar na área da saúde mental, psicologia e trabalho, e livros como “Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil” e “Saúde mental & trabalho: leituras” desempenharam bem esse papel quando estudei o tema. Autores como Christophe Dejours, Yves Clot, Wanderley Codo e Maria Elizabeth Antunes Lima foram fundamentais.

Nunca deixei de me interessar pela psicologia do trabalho, vendo o ofício como algo que nos define, que possui um significado, uma função e faz parte da vida de todos nós, influenciando em nossa saúde ou doença.

Como trabalho final de graduação relacionei a Psicodinâmica do Trabalho de Christophe Dejours com o Psicodrama de Jacob Levy Moreno, encontrando semelhanças e divergências.

Mais tarde, completando a pós graduação em Psicodrama, orientado pela professora Zoé Margarida Chaves Vale, estudei a importância da primeira experiência de trabalho na vida do jovem, fazendo uma análise “psicodramática” dos resultados.

O artigo produzido de nome “O jovem e a primeira experiência de trabalho” foi publicado na Revista Brasileira de Psicodrama Vol. 19, número 2, em 2011 pela Federação Brasileira de Psicodrama – FEBRAP.

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A pesquisa – teórica e empírica – buscou identificar os sentidos do trabalho para o jovem e as influências da primeira experiência de trabalho na constituição de sua identidade e concluiu que o trabalho possui, muitas vezes, centralidade na vida do sujeito jovem e é elemento de grande importância na constituição de sua identidade e na realização de seus projetos pessoais e profissionais.

Em outro artigo, Psicodrama e o desenvolvimento de equipes de trabalho, publicado na Revista brasileira de psicodrama vol.22 no.1 São Paulo em 2014, busquei elucidar as principais contribuições do psicodrama, enquanto técnica e teoria, no processo de desenvolvimento de equipes, utilizado em empresas e dirigido a grupos de pessoas que precisam unir esforços para executar um trabalho em comum.

Tendo em vista realizar o tratamento do indivíduo e do grupo, conclui-se que o psicodrama empresarial coincide com os principais objetivos de um programa de desenvolvimento: desenvolver habilidades interpessoais, diagnósticas e de tarefa.

Sim. O trabalho tem influência em sua vida. Seja enquanto experiência positiva ou negativa, contribui para a construção de sua personalidade e o desenvolvimento de novos papéis.

Concordo com a visão de que “o indivíduo vive e precisa viver em constante metabolismo com a natureza, fazendo o mundo e sendo feito por ele” Codo, Soratto e Vasques-Menezes (2004, p.297). Assim ocorre com o trabalho.

É importante refletir sobre nosso papel profissional, sobre nosso lado “trabalhador”, “criador”. Os pequenos frutos do nosso trabalho que produzimos todos os dias são um reflexo do nosso envolvimento, da quantidade de espontaneidade, criatividade e energia empregadas naquela atividade.

“Mais importante do que a evolução da criação é a evolução do criador” Jacob Levy Moreno

Referências bibliográficas 

CODO, Wanderley; SORATTO, Lucia; VASQUES-MENEZES, Iône. Saúde Mental e Trabalho in ZANELLI, José Carlos, BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo e BASTOS, Antônio Virgilio Bittencourt (orgs.). Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004.

MERLO, Álvaro Roberto Crespo. Psicodinâmica do Trabalho in JACQUES, Maria da Graça Corrêa; CODO, Wanderley. Saúde mental & trabalho: leituras. Petrópolis: Vozes, 2002. 420p

RIOS, Izabel Cristina. Humanização e ambiente de trabalho na visão de profissionais da saúde. Saude soc., São Paulo , v. 17, n. 4, Dec. 2008 . Disponível em . acesso em 13 de Março de 2014. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902008000400015.

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