Acostumar, Conformar-se, Repetir, Mudar, Renovar-se

“Nós precisamos fazer muito mais do que acreditar se quisermos realmente mudar as coisas” (“We gotta do much more than believe if we really wanna change things”) 

Gaucho, Dave Matthews Band.

Há algum tempo ouvi essa frase em uma musica e ela nunca saiu da minha cabeça. Sempre que enfrento ou vejo dificuldades na mudança de um comportamento, de um hábito, me lembro dela. Sempre que ouço notícias de eventos envolvendo problemas “antigos” como racismo, desigualdade social, violência, corrupção, me lembro dela.

Sempre que penso que tenho minha parcela de responsabilidade sobre tudo isso, mesmo que de 0,0001%, me lembro dela.

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Ter conhecimento não basta

Simplesmente acreditar na mudança não faz com que ela aconteça. Seja individual ou social, parece obvio dizer isso. Será?

Sempre acreditei que conforme vamos adquirindo conhecimento, o mundo se modifica. Nossa percepção se torna cada vez melhor e nossa visão das coisas mais clara. Essa mudança acontece naturalmente e a vida se encarrega disso. Mas somente parte dela. Em locais específicos temos, por exemplo, claramente, nosso período escolar, um intercâmbio de países, um novo relacionamento ou também um fascinante processo de psicoterapia.

Essa experiência de mudança na percepção pode ser vista em coisas simples como quando estudamos o corpo humano na escola ou as plantas e descobrimos a fotossíntese. Ainda as moléculas e elementos na química de coisas naturais como a água ou a física por trás de espelhos e o fato de estarmos “grudados” no chão e não cairmos para cima.

Uma vez que conhecemos, passamos a ver de outra forma e enxergamos essas coisas tão comuns com outros olhos. Pelo menos por um tempo. Não penso em como uma lâmpada se acende toda que vez que aciono o interruptor.

Acostumar, acomodar, habituar,  aquietar-se, resignar-se, conformar-se, repetir-se, adaptar-se, conservar, ceder, preservar, mudar, transformar, consertar, recomeçar, renovar-se. São diversas as palavras envolvidas.

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Morning going out to work, Van Gogh

Posso até me acostumar…

Mas, porque estou falando sobre isso? Porque assim como nos acostumamos com a gravidade e com o fato de termos órgãos funcionando dentro de nós e não pensarmos sobre isso o tempo todo, nos acostumamos com comportamentos ruins, hábitos negativos, problemas de relacionamento, sociais, amorosos ou familiares.

Você reclama de alguma coisa da sua vida? Se a resposta for sim, você sabe o que tem que fazer para mudar? Se você respondeu sim de novo, você tomou atitude e fez o que era necessário? Equilibrou sua mudança entre seus desejos individuais e o resto do mundo? Se sim, muito bem. Mas se você respondeu não, pode ser que aquela frase lá de cima faça sentido. É preciso mais do que acreditar para mudar.

Em alguns momentos da vida tomei consciência de porque me comportava de determinada forma, enxergando os motivos e a finalidade. Isso fez com que eu mudasse o meu comportamento? Nem sempre. Mas muitas vezes, sim. O “colocar em prática” e o “agir” são essenciais para qualquer processo de mudança.

Após a leitura de uma entrevista fantástica de Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, vejo ainda mais que todas as mudanças individuais, sociais e coletivas que busquem “levar a sociedade a desenvolver condições mais desejáveis – a fim de ser “moderna”, ou seja, mais humana e melhor estruturada para promover a felicidade e a dignidade humanas” são fundamentais.

Jacob Levy Moreno, criador do Psicodrama, disse que “cada verdadeira segunda vez é a libertação da primeira.” (MORENO, 1974). Acreditava na possibilidade de uma nova resposta ao velho conhecido.

Como afirma Bauman, e acredito que também se aplique a vida pessoal de cada um de nós:

“Entendo que cabe à sociologia expor publicamente a contingência, a relatividade do que é “a ordem”, para abrir a possibilidade de arranjos sociais e modos de vida alternativos; em outras palavras, ela deve militar contra as ideologias e as filosofias de vida estilo TINA (“there is no other alternative” – não existe outra alternativa) e manter outras opções vivas”.

Brincando com a frase de Renato Russo e Flávio Venturini na canção Mais uma vez, “quem acredita (e faz, quase) sempre alcança”.

Referências bibliográficas

Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. Entrevista com Zygmunt Bauman. Tempo social vol.16 no.1 São Paulo Junho 2004 disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-20702004000100015

MORENO, Jacob Levy. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. São Paulo, Editora Mestre Jou, 1974.

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