Quem abre os braços sou eu, quem chuta a bunda é você

Trabalhei pouco tempo com atividades de recursos humanos em empresas privadas, antes de ser abduzido pelo serviço público. No entanto, o pouco que trabalhei me rendeu algumas ilustrações interessantes da capacidade do ser humano de perverter o sentido de uma profissão: no caso, o psicólogo organizacional.

Fazia apenas alguns meses que havia iniciado naquela empresa. Entusiasmado, buscava pensar diversas maneiras de agilizar o serviço, introduzir práticas bacanas de treinamento, desenvolvimento e qualidade de vida no trabalho.

Como um bom psicólogo, traçava algumas missões impossíveis, como: melhorar a comunicação entre os funcionários – acabar com as fofocas; estimular os chefes a ouvirem os seus subordinados; construir a missão, a visão e os valores daquela empresa; produzir saúde no trabalho, um bom clima interpessoal e muita motivação.

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E nesse clima de “profissional em início de carreira“, lá ia eu, montando lista de aniversariantes ali, organizando as festinhas, buscando o bolo na Dona alguma coisa e alugando meus ouvidos a todos que buscavam um “cadinho” de atenção. Acreditava que estava fazendo alguma coisa relevante, que as coisas caminham devagar mesmo e que esses tipos de atividade, como de psicólogos em organizações que lutam contra a corrente, são “trabalhos de formiguinha”.

Era uma terça-feira cinzenta (sempre é uma terça-feira cinzenta). Meu chefe – e chefe de todos -, o qual chamaremos aqui de Sr. Adalberto, me chamou em sua sala e disse que precisávamos contratar uma recepcionista (é mesmo, recrutar e selecionar é tarefa minha, já tinha esquecido).

– “Que fique claro, uma recepcionista vistosa, bonita, que agrade os clientes”, disse o Sr. Adalberto.

Eu, na minha inocência pós-universitária, apenas acenava com a cabeça em concordância.

– “Você vai ligar na Quero Vagas S/A (esse nome também é fictício, mas fica a dica) e passar este perfil: jovem, comunicativa, de boa apresentação e com disponibilidade para começar imediatamente”. A recepcionista anterior acabara de sair do emprego por motivos que desconheço. “Ok, pode deixar”, disse eu.

Você deve estar pensando: “mas, isso é preconceito! Onde já se viu restringir as oportunidades dessa forma, só permitir mulheres ‘bonitas’, fazer esse tipo de discriminação!”. Concordo plenamente, mas não me diga que se espanta com esse tipo de comportamento. É mais comum, infelizmente, do que imaginamos.

Entretanto, não mudemos o foco. A vaga foi aberta. Recebi currículos. Selecionei currículos. Consegui falar com algumas, desisti de falar com outras.

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As candidatas “dignas do cargo” foram chamadas. Fiz uma entrevista breve com todas as elas, cinco ou seis, não me lembro. Detalhe importante: durante as entrevistas (minha sala era toda de vidro), o Sr. Adalberto circulava de um lado para o outro tentando observar “as meninas” e dizia sutilmente com sua mão cheia de dedos se aquela “servia ou não”. Pasmem.

Após esse criterioso processo de escolha (só que não), duas candidatas foram convocadas para uma segunda entrevista. Esta, com o chefe de todos os chefes. O “RH” já não se fazia necessário, pelo visto. Na manhã na qual ocorreram essas entrevistas, a expectativa era grande na empresa e parecia que aguardávamos o anúncio do novo Papa.

Uma vez escolhida, a senhorita – a qual chamaremos aqui de Julieta – foi devidamente acolhida e orientada a começar em seu novo posto de trabalho.

Após receber um “Muito bem!” e um tapinha nas costas do Sr. Adalberto, segui o procedimento padrão e fiz o possível para orientar a nova funcionária, o que demandava grande parte do meu tempo. Manual de introdução à empresa e vídeos com sua história, descrição das atividades, lanches para confraternizar, dúvidas aqui, dúvidas ali, etc. Faz cartão da empresa para a nova colega, cria usuário, atualiza as listas de e-mails, e por aí vai.

Algumas semanas se passaram entre elogios e críticas ao trabalho da “menina que agradava os clientes”.

Foi numa quarta-feira de sol e muito calor (o clima era bem instável), já no fim do expediente, que recebi a notícia. Notícia não. Recado. Recadinho. Passado de boca em boca.

– “Demita a Julieta”. Apenas isso. “Por que?” pensei eu. “Não sei, só me pediram para passar o recado”, disse o colega encarregado. “Tem que ser hoje?”, questionei. “Sim, já tem outra pro lugar amanhã mesmo!”. “Que?!!!!!”. Esse último sou eu, obviamente.

Mesmo não sendo o Romeu, lá estava eu, chamando a Julieta para termos um momento a sós, de morte em comum. Na mesma sala de vidro, onde soube que o Sr. Adalberto aprovava aquela pretendente, comuniquei a Julieta que ela estava sendo demitida.

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Inventei motivos genéricos, como: “o chefe acredita que você é uma ótima profissional, mas acha que você não se adaptou a essa função”. Na verdade, o chefe não estava nem aí e já havia prometido a vaga a outra que lhe agradava um pouco mais.

Alguns minutos de choros e soluços depois, Julieta agradeceu e disse que iria apenas arrumar as suas coisas e terminar o que tinha que fazer. Nesse momento, um pouco de mim morreu. Um pouco do que achava que estava fazendo naquele lugar, desapareceu e não fez mais sentido.

Em apenas uma frase, o Sr. Adalberto me mostrou a verdadeira lógica perversa que eu poderia escolher ou não, aceitar: quem abre os braços sou eu, mas quem chuta a bunda é você.

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