De volta à cadeira de aluno #3

“Assim como a navegação, a jardinagem e a poesia, o direito e a etnografia são também artesanatos locais: funcionam à luz do saber local…” (Geertz, 2001, p.249).

Este post é mais um pequeno diário semanal (ou quinzenal) das aulas no blog, das minhas impressões, descobertas e achados. A ideia é apenas registrar o processo, a evolução, a vivência da formação e do trabalho, sem nenhuma responsabilidade com a verdade definitiva ou saber empírico. Um hábito que tomo como diário de campo.

Oxford-University-Older-Than-Aztecs

Universidade de Oxford, na Inglaterra, uma das mais antigas do mundo

Como fazer pesquisa? Qual o método mais adequado para compreendermos uma realidade? Devemos conhecê-la para transformá-la ou transformar para conhecer? Após algumas discussões e seminários, enfatizo neste post principalmente a metodologia de pesquisa. Conhecemos os princípios das pesquisas participativas, que enfatizam a implicação e o envolvimento do investigador no meio que se propõe a conhecer e transformar.

Metodologia de Pesquisa #3

Se possuo uma questão de pesquisa, uma curiosidade, um desejo de conhecer uma determinada situação, posso optar por estudar um apanhado teórico sobre o tema, definir um método, entrar em acordo com o local que será investigado, ir lá, coletar os dados, voltar para casa e produzir as minhas análises. Parece simples e correto, mas somente nestas quatro linhas que escrevi, existe uma infinidade de possibilidades, divergências e erros, de acordo com a perspectiva que se adota.

Nas últimas aulas discutimos algumas estratégias metodológicas, particularmente as referências que se situam sob o guarda-chuva das pesquisas participantes. Cartografia, Pesquisa-ação, Pesquisa-intervenção, Etnografia, Métodos narrativos, (Auto)etnografia, Netnografia. Todas essas conversam com a Psicologia Social (assim como a Sociologia, Antropologia, etc.), em posturas que convivem com o envolvimento do pesquisador no meio investigado, com a construção coletiva do conhecimento e produção dos dados.

HotDogsCover

A consideração de que o pesquisador é “o cientista neutro” é aqui deixada de lado. A análise da implicação, a subjetividade e o afetamento do investigador pelo meio (e vice-versa) são elementos fundamentais ao método e à análise.

Ao pesquisador que conceba a subjetividade à luz de um paradigma ético-estético, que se proponha a observar os efeitos dos processos de subjetivação de forma a singularizar as experiências humanas e não a generalizá-las, que tenha compromisso social e político com o que a realidade com a qual trabalha demanda de seu trabalho científico, não é dada outra perspectiva de investigação que não a pesquisa intervenção. (PAULON; ROMAGNOLI, 2010, p. 8).

Se o conteúdo é o que importa, o método pode não parecer empecilho ou mesmo ser dado de análise. Mas, se há ênfase no processo como no caso das pesquisas narrativas, o método importa e se coloca como referência para análise imprescindível, inclusive contribuindo com a análise qualitativa.

Baseados nas perspectivas participativas, que enfatizam o processo de pesquisa e os acontecimentos e transformações do campo, tivemos a oportunidade de conhecer e discutir a pesquisa de quatro convidadas.

  • Natália Alves Santos. Arte e Saúde Mental: em cartaz o teatro da Loucura. Dissertação de Mestrado. (que foi, por sinal, minha colega de graduação na PUC-MG).
  • Luciana da Silva Oliveira. Juventude, teatro e processos de subjetivação: encontros, conexões e (re) invenção de mundos. Dissertação de Mestrado.

Estas duas são pautadas na teoria Esquizoanalítica (ou Filosofia da Diferença) de Gilles Deleuze e Félix Guattari, utilizando a cartografia, ou pesquisa-intervenção cartográfica. Esta referência pressupõe considerar a complexidade da realidade e a implicação do pesquisador como vetores fundamentais do processo de investigação.

A pesquisa cartográfica faz aparecer o coletivo, que remete ao plano ontológico, enquanto experiência do comum e, dessa maneira, é sempre uma pesquisa-intervenção com direção participativa e inclusiva. (KASTRUP & PASSOS, 2013, p. 266)

Os trabalhos de ambas as autoras são muito interessantes, e conciliam as referências artística e científica em escritas e processos que ajudam a compreender esta perspectiva teórico-metodológica. O ir e vir, não só na cartografia, é admitido na pesquisa qualitativa, quando o que foi produzido é muito diferente do que se propunha.

gilles-deleuze-est-mort-il-y-a-20-ans-il-n-est-toujours-pas-post-il-est-neo,M272038

Gilles Deleuze (1925-1995)

Particularmente sobre a pesquisa-ação, o texto de Thiollent (2008) é um bom guia para conhecer a organização e a construção da pesquisa nessa referência, assim como o artigo de Paulon (2005) que faz uma distinção entre pesquisa-ação e pesquisa-intervenção.

Já no campo da Etnografia e dos métodos narrativos, conhecemos os trabalhos de:

  • Rosineide de Lourdes Meira Cordeiro. Além das secas e das chuvas. Os usos da nomeação mulher trabalhadora rural no sertão central de Pernambuco. Tese de Doutorado.
  • Patrícia Chaves do Nascimento. Narrativas Posithivas: Vulnerabilidades de mulheres ao HIV/aids em relações heterossexuais de conjugalidade. Dissertação de Mestrado.

A Etnografia, método fundamental na Antropologia, é conhecida superficialmente como o esforço de um investigador ao entrar em contato – intenso e prolongado – com um determinado meio ou grupo social, envolver-se, experimentá-lo e descrevê-lo, conhecendo sua cultura e seus significados. No entanto, há que se discutir e conhecer suas apropriações pela Psicologia Social e suas transformações com o decorrer dos anos.

Para se aprofundar na Etnografia, alguns estudos clássicos são citados:

  • Bronislaw Malinowski: Argonauts of the Western Pacific (1922)
  • Franz Boas: The Mind of Primitive Man (1911)
  • Clifford Geertz: The Interpretation of Cultures: Selected Essays (1973)
  • Harold Garfinkel: Studies in ethnometodology (1967)
malinowski

Cena de estudo etnográfico realizado por Bronislaw Malinowski

Quanto às pesquisas narrativas, Clandinin, J., & Connelly, M. (2011) citam o espaço tridimensional para a investigação narrativa:

  • Pessoal e social (Interação)
  • Passado, presente e futuro (Continuidade)
  • Lugar (Situação)

Os autores apontam ainda quatro direções de qualquer investigação: introspectivo, extrospectivo, retrospectivo e prospectivo, melhor detalhados no texto de referência.

Experienciar uma experiência – pesquisar sobre uma experiência – é experienciá-la simultaneamente nestas quatro direções, atendendo questões pessoais e sociais, interna e externamente, e temporais, olhando para o evento presente, o seu passado e o seu futuro.

Indicações de filmes e/ou livros

  • Usos e abusos da história oral. Livro de Janaina P. Amado Baptista De Figueiredo e Marieta De Moraes Ferreira
  • Instinto. Filme com a direção de Jon Turteltaub, com o ator Anthony Hopkins.
  • Pistas do Método da Cartografia: Pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Livro organizado por Eduardo Passos, Virgínia Kastrup e Liliana da Escóssia.

Referências

CLANDININ, J., & CONNELLY, M. (2011). O que fazem os pesquisadores narrativos? In J. CLANDININ, & M. CONNELLY. Pesquisa Narrativa: experiência e história em pesquisa qualitativa.

GEERTZ, Clifford. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

KASTRUP, V., & PASSOS, E. Cartografar é traçar um plano comum. Fractal, Rev. Psicol., v. 25 – n. 2, p. 263-280, Maio/Ago. 2013

PAULON, S. M. (2005). A análise de implicação com ferramenta na pesquisa-intervenção. Psicologia & Sociedade, 17(3), 18-25.

PAULON, Simone Mainieri; ROMAGNOLI, Roberta Carvalho. Pesquisa-intervenção e cartografia: melindres e meandros metodológicos. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, abr. 2010.

ROMAGNOLI, Roberta Carvalho. A cartografia e a relação pesquisa e vida. Psicol. Soc.[online]. 2009, vol.21, n.2.

SATO, Leny. SOUZA, Marilene P. R. Contribuindo para desvelar a complexidade do cotidiano através da pesquisa etnográfica em psicologia. Revista Psicologia, São Paulo, USP, v.12, n.2, p. 29-47, 2001.

THIOLLENT, M. (2008). Concepção e organização da pesquisa. In: M. THIOLLENT. Metodologia da pesquisa-ação (pp. 51-78) (16ª ed.). São Paulo: Cortez.

Anúncios

Quero saber a sua opinião. Deixe o seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s