De volta à cadeira de aluno #2

Como disse no post anterior, resolvi escrever um pequeno diário semanal (ou quinzenal) das aulas no blog, das minhas impressões, descobertas e achados. A ideia é apenas registrar o processo, a evolução, a vivência da formação e do trabalho, sem nenhuma responsabilidade com a verdade definitiva ou saber empírico. Um hábito que tomo como diário de campo.

vintage coffee shop

Após três aulas, algumas conversas, leituras e reflexões, percebo uma grande diferença entre o Mestrado e a Graduação, quando não sabíamos direito – pelo menos a maior parte de nós – o que estávamos fazendo ali e o que queríamos com aquilo. Hoje estamos ali para estudar e construir algo.

Metodologia de Pesquisa #2

Ainda refletindo sobre a natureza da pesquisa e principalmente sobre a pesquisa qualitativa, comumente utilizada nas ciências humanas e sociais, estamos discutindo a qualidade de uma pesquisa e os critérios de cientificidade. O que é ciência? O que faz com que um estudo seja confiável? O que entendemos por objetividade?

É melhor esquecer aquela ideia de cientista com um jaleco e uma prancheta na mão! Ciência é muito mais do que isso.

Baseando nossa discussão nos textos de Anne Laperrière (2008) e Lincoln & Guba (2006), tratamos do reposicionamento epistemológico ao pensar os critérios de validade e o rigor nas ciências humanas. Questionando os critérios convencionais do pensamento positivista (exatidão, generalização e confiabilidade = objetividade), ampliamos as definições dos modos científicos e discutimos alguns elementos que devem ser levados em conta.

Visando estabelecer a solidez dos métodos qualitativos, redefinimos os conceito de validade interna (exatidão), validade externa (generalização) e confiabilidade para os métodos qualitativos.

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Há que se considerar a subjetividade na pesquisa, não buscando neutralizá-la, mas explorar os seus recursos. Será ela que irá conferir qualidade à pesquisa, afinal nós também participamos do mundo que investigamos e nossa interação com os objetos não se dá sem consequências para ambas as partes. Deve-se exercitar a reflexividade, exercendo sempre uma escuta crítica e empática.

Deve-se considerar os contextos naturais em toda a sua complexidade. Para compreendermos um fenômeno social, não podemos abstrai-lo do contexto no qual está inserido. O elemento só tem significado na visão do todo. Nossa investigação deve ser ampla a ponto de fazer sentido e delimitada a ponto de garantir uma análise profunda. O rigor científico deriva da sólida ligação estabelecida entre nossas interpretações teóricas e nossos dados empíricos.

Por fim, devemos considerar um mundo indeterminado e em constante evolução. Privilegia-se uma abordagem indutiva de situações singulares, considerando o fluxo e a variação dos fenômenos, com a implicação prolongada do pesquisador no contexto investigado.

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Ainda no texto de Lincoln & Guba (2006) em diálogo com Schwandt (1996), para buscarmos a validade de uma pesquisa podemos ter em mentes três critérios:

  • que gere conhecimento que suplemente ou complemente uma análise leiga dos problemas sociais, ao invés de buscar substituí-la.
  • que intensifique e cultive a inteligência crítica.
  • que desenvolva uma sabedoria prática.

Como sugestão de estratégias reflexivas de diálogo, foi recomendada a criação de um blog privado para registro da construção da dissertação de Mestrado. Coincidentemente, já havia começado algo semelhante nesta série de posts, mesmo que de forma mais ampla sobre minha experiência na pós graduação. Pretendo seguir o conselho e criar um espaço privado para registrar a pesquisa.

Em pesquisas sociais devemos questionar e abandonar certos dogmas da ciência tradicional e refletir sobre o nosso ofício de outra forma, criando ferramentas e conexões que garantam a sua solidez e sua representação na comunidade, sem perder de vista o rigor.

Trabalho e Criatividade #2

Antes de estudar um dos textos que servirão de referência para iniciar a discussão sobre trabalho e criatividade, conversamos sobre a atividade (sensível) e o trabalho alienado em Marx. Baseado nos textos de Vilassanti (1999) e obras de Marx (A Ideologia alemã, Manuscritos Econômico-filosóficos, Para a Crítica da Economia Política, e O Capital) faço apenas algumas anotações.

Sua noção de trabalho remete ao que é produzido e não é natural do mundo dos homens. Na relação do homem com a natureza, ele produz uma realidade propriamente humana, transformando a natureza e a si mesmo, cultivando a subjetividade humana e criando-a.

A subjetividade é apreendida na prática, na produção dos seus meios de vida. O homem conquista o que deseja por meio do trabalho e o pensamento será consequência da atividade material. O homem produz de maneira universal e trabalha para si e para o outro, em sociedade, produzindo uma forma de existência comum.

O consumo reproduz a necessidade. O consumo gera a necessidade de novas produções, novos desejos. Ao produzir um objeto estamos criando também o seu modo de consumo e o consumidor, e nos constituindo como seres sociais. O trabalho é visto como categoria que nos faz humanos.

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Fonte: Illustopia / Jorge Mateus

A alienação ocorre quando o homem não se identifica com o produto do seu trabalho, nem participa da organização do trabalho, o modo de sua criação. Há um estranhamento em relação ao produto e ao modo fazer, uma anulação do sujeito, já que a vida colocada no objeto não mais lhe pertence.

Discutimos os trabalhos concreto e abstrato para Marx, que diferem por sua finalidade. No primeiro, há envolvimento por inteiro do sujeito naquilo que produz, com valor de uso para o trabalhador. No segundo, há apenas o valor de troca, quando tudo se torna mercadoria.

O trabalho parece ser um tema que envolve a turma, rendendo boas discussões e exemplos particulares. Acredito que a identificação com o assunto contribui com isso e principalmente o olhar crítico que estamos buscando adquirir.

Na próxima aula discutiremos o texto Trabalho e Vida de Sônia Viegas, para o qual nos preparamos com essas reflexões, iniciando pelos sentidos positivo e negativo do trabalho.

Teoria de Gênero #2

Nas duas últimas aulas, foi possível começar a compreender a evolução das reflexões sobre gênero ao longo da história. Desde a contextualização da história do feminismo no Brasil, como movimento social, político, emancipatório e libertário, acompanhamos o diálogo entre o contexto real e o saber acadêmico, enquanto questionamentos provocam a criação de novos saberes.

Como já disse por aqui, esta não é a minha área de maior de leitura, então tem sido uma experiência interessante conhecer melhor um tema tão atual e necessário.

Feminismo-Libertário-Este-Casamento-Pode-Ser-Salvo

Entendo que ocorre a criação de um campo epistemológico – corpo teórico e método -, questionando o modo pelo qual o conhecimento foi construído até então, inclusive na Psicologia, e que dialoga com diversas áreas.

As novas formas de estar no mundo exigem a revisão do saber científico, quando temas como diversidade e equidade ganham fundamental importância. Trata-se do sujeito humano e ultrapassa a dualidade homem-mulher.

Através dos textos de Sarti (2004), Machado (1994) e Hita (2002) acompanhamos a história do feminismo, compreendendo que quando passamos a discutir sexo, gênero e sexualidade, estamos buscando contemplar o sujeito humano em sua diferença. Há que se considerar a diferença, não convertendo-a em desigualdade.

Dois filmes foram citados para observação do tema: A Garota Dinamarquesa (2015) e Os Acusados (1988).

Como Psicólogo, considero essa discussão fundamental para pensarmos nossa atuação e nosso princípios enquanto profissionais de saúde. É necessário ter a mente aberta, para desconstruir e construir, em constante movimento.

Referências

HITA, Maria Gabriela (2002). Igualdade, Identidade e Diferença(s): Feminismo na reinvenção dos sujeitos. In Gênero em Matizes. Organizadoras: Almeida, Heloisa Buarque; Ramirez, Martha Celia; Souza, Érica Renata. Bragança Paulista, Universidade São Francisco.

LAPERRIERRE, Anne (2008). Os critérios de cientificidade dos métodos qualitativos. In J. Poupart et al. (Org.). A pesquisa qualitativa: Enfoque epistemológicos e metodológicos (pp. 410-435). 2a ed. Petrópolis: Vozes.

LINCOLN, I., & GUBA, E. (2006). Controvérsias paradigmáticas, contradições e confluências emergentes. In N. K. Denzin, & Y. S. Lincoln. (Org.), O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens (pp.169-192). Porto Alegre: Artmed.

MACHADO, Lia Zanotta (1994). Campo intelectual e feminismo: Alteridade e Subjetividade nos estudos de gênero. Série Antropologia. 170. Departamento de Antropologia da UNB. Brasilia.

SARTI, Cynthia Andersen (2004). O feminismo brasileiro desde os anos 1970: revisitando uma trajetória. Rev. Estud. Fem. Florianópolis, v 12, n. 2, Agosto.

VILASSANTI, Eliane Castro (1999). O complexo categorial da “atividade humana” na obra marxiana. (Dissertação). Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFMG. Belo Horizonte.

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