O destino dos indesejados

Marina estava animada. Era o seu primeiro dia. Não via a hora de começar o novo trabalho e, finalmente, o dia chegara. Tentou não caprichar demais no visual para não parecer esnobe, mas se vestiu suficientemente bem para não acharem que ela havia entrado no prédio errado.

O estabelecimento era imponente, e o vai e vem de pessoas a impressionou logo de cara. Passou o crachá que havia recebido antecipadamente, apertou o quinto andar, esperou o elevador e se esgueirou entre a pequena multidão apressada que queria garantir seu lugar no cubículo. Após se informar sobre a localização do seu novo setor, chegou com passos tímidos e observou a imensidão de pequenas estações de trabalho que formavam um estranho labirinto. Quanta gente trabalhando junto – pensou.

Foi bem recepcionada pelo seu novo chefe, o Dr. Antônio, um senhor de cabelos ralos e grisalhos, camisa social um pouco maior do que deveria e um ar de boa praça. O chefe lhe explicou qual seria o seu trabalho e suas principais tarefas, assim como a missão daquele órgão público e algumas questões de ordem prática como: qual seria o seu horário de almoço e onde ficava o banheiro feminino. Lhe apresentou para os seus oito novos colegas servidores e mostrou onde deveria sentar, como ligar o computador, criar o seu login, e-mail e todas aquelas parafernálias iniciais. Lhe desejou boa sorte.

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Imagem: Michael Dziekan

Era isso. Estava ali, pronta para começar sua jornada profissional. Havia estudado alguns meses para aquele concurso público, nem muito nem pouco, o suficiente. Desde os 18 anos, quando concluíra o ensino médio, passara seis meses vivendo de preguiça, antes de dar continuidade à vida adulta e prestar o concurso.

Em êxtase com a notícia de sua aprovação, contou para toda a sua família e amigos, e imediatamente foi rotulada como a sortuda, aquela que encostaria num cargo público e nunca mais teria que trabalhar de verdade.

– Nossa, agora que a Marina não trabalha mesmo, disse uma tia coroa nos últimos calores da menopausa.

– Servidor público tem que comprar um casaco. É só deixar na cadeira, sumir e só pegar na hora de ir embora, informou o cunhado já experiente na arte organizacional da morcegagem*.

Marina, no entanto, relutou em aceitar esse novo título e, na verdade, nunca concordou com ele. Queria trabalhar, mostrar sua capacidade, fazer a diferença. Não queria encostar em ninguém, nem mamar nas tetas do governo, como alguns parentes desbocados disseram. – Mamem vocês, eu quero é ser útil, pensava para si.

Passou o primeiro dia de trabalho lendo atentamente os regulamentos e manuais que havia recebido. Estatuto aqui, resolução ali, decreto acolá. Informação não faltava. Os meses que se seguiram foram de aprendizado frenético. Conversando com os seus colegas, Marina questionava os procedimentos, buscava entender o objetivo das tarefas que realizava, o papel que desempenhava na organização e estimulava os companheiros a dar sugestões de melhoria para o trabalho.

Marina se revelava uma servidora caxias. Chegava no horário, cumpria rigorosamente o seu horário de almoço, não acessava redes sociais durante o expediente e muitas vezes fazia hora extra. Apresentava uma conduta exemplar, do seu ponto de vista. Começara inclusive a condenar veementemente a postura dos colegas que, de cada dez minutos trabalhados, passavam trinta nas mais diversas redes sociais, algumas até então desconhecidas para Marina.

Sugeria reuniões, treinamentos, criação de fluxogramas. Passou a controlar quantas vezes os colegas iam ao banheiro, quantos minutos de atraso contabilizavam no mês, quantas vezes iam ao médico e quantas ligações não eram atendidas. Procurava semanalmente o seu chefe para uma sessão de desabafos e avaliação do seu próprio desempenho.

Seis meses depois de sua entrada na empresa, Marina recebia uma carta do seu superior máximo, com os seguintes dizeres:

Prezada, visando atender ao interesse da administração pública e o adequado funcionamento de nossa equipe, a senhorita está sendo transferida para o setor de arquivo, onde será possível exercer integralmente o seu potencial. Agradecemos pelos serviços prestados e informamos que a senhorita deverá se apresentar no setor acima citado no dia seguinte a este comunicado. Att. Dr. Hércules Beneditino.

Alguns dias após sua transferência, Marina ficou sabendo por fontes confiáveis que todos os servidores intragáveis e de dificil relacionamento eram removidos para o setor de arquivo. O destino dos indesejados**.

Moral: Por mais que você lute para fazer a diferença, às vezes a iniciativa e o comprometimento são confundidos apenas com chatice mesmo.

* Morcegar vem do latim Morcegus e diz da arte de passar o dia de trabalho inteiro passeando ou fazendo coisas não relacionadas com as suas atividades, produzindo exatamente nada.

** Não precisa ser exatamente o arquivo, cada empresa tem o seu despejo.

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4 Respostas para “O destino dos indesejados

  1. Texto muito bom, reflete um pouco do que vivenciamos no ambiente profissional.
    Com relação a moral da história, entendo que, devemos fazer a diferença, independente se o outro está fazendo a parte dele ou não! É cada um colherá as consequências dos seus atos, mesmo que não seja perceptível aos nossos olhos.

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  2. Adorei o texto, leve, bem humorado. Quase 30 anos de serviço prestado em empresa privada, quando cheguei no setor público, tinha um pouco da “Marina”, não aceitava rótulo, de que não iria trabalhar. Quis em alguns momentos fazer diferença, mas vi que iria dar murro em ponta de faca. Decepcione me, mas tô levando a carreira sem me preocupar mais em mudar a imagem do serviço público.

    Curtido por 1 pessoa

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