Cão autônomo em fuga

Era o que faltava para que Pinduca tomasse sua decisão. Desde filhote não era tão desprezado e ignorado, se sentindo deixado de lado como uma verdurinha qualquer que enfeita um prato elegante. Impossível negar que sempre soubera que algo estava errado e que seus donos nem sempre gostavam de tê-lo por perto. Mas dessa vez era demais, o deixavam sozinho uma noite inteira e nem um biscoito ganhara. Era isso, ia arrumar suas coisas e partir.

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Com algum esforço puxou sua mochilinha que repousava na estante de sempre. Revistou a casa em busca de seus brinquedos prediletos: o osso velho – o chamavam de Ossildo, a bolinha peluda que um dia foi branca – a chamavam de Sr. Bolinha, e seu frango de borracha, este, simplesmente, Frango. Seria feliz, ele, Ossildo, Sr. Bolinha e Frango, rodando o mundo, conhecendo novos cachorros, cadelas interessantes e vivendo muitas aventuras. Humanos ridículos. Prepotentes.

Em um salto de sucesso, resgatou sua coleira e conferiu se estava tudo pronto. Espera! Como pudera esquecer? Precisava de comida! E um pouco de água. Que dessem para a viagem ao menos. Selecionou duas pequenas vasilhas em uma prateleira mais baixa da cozinha e depositou respectivamente, água e ração. Sim, Pinduca fora bem treinado e era muito habilidoso com suas quatro patas, com auxílio eventual do focinho.

Ok. Tudo pronto. Mochila, brinquedos, coleira, suprimentos. Agora era só maquinar uma formar de sair daquele apartamento. Sabia o caminho, afinal, já tinha ido passear diversas vezes. Sim, aproveitaria o momento em que seus donos chegassem e quando abrissem a porta, ‘vupt’, passava por debaixo das pernas deles e corria rumo à liberdade. Ó, sonhada liberdade. Nunca mais desprezado! Tantas lambidas pra isso?

Demorou ainda duas horas até que seus donos fizessem aquele barulho característico na garagem. Estavam chegando. Pinduca estava cochilando? Nunca! Estava de prontidão. Não piscava os olhos e se preparava para ser um cachorro livre e valorizado pela sociedade.

Estavam se aproximando. Passos no corredor. Barulho de chaves. Pinduca tentou evitar o abanar involuntário de seu rabo, num misto de alegria e revolta. Não iria mudar de ideia. Pronto. Abriam a porta. Era agora ou nunca. Calma! Que sacola era aquela? Meu Deus, era um amigo para o Sr. Bolinha! Um pouco maior e fazia um barulho curioso! Joga pra mim! Joga pra mim!!!

Pinduca saiu em disparada atrás do novo amigo, sacudindo e largando sua mochilinha e a coleira pelo chão. Azar, não conseguia odiar aqueles humanos. Benditos seres iluminados provedores de alegria! Se rendia, virando de barriga para cima e abanando o rabo como há muito não fazia. Enquanto isso, Joana e Pedro tentavam entender como o cachorro preparara uma mochila de fuga, e que diabos estava acontecendo…

Moral: amamos e odiamos as instituições.

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