Um ‘eu’ domínio público

Tenho um tema em minha cabeça que poucas vezes se concretiza em um texto coerente ou um assunto definido. Penso com frequência em nossa capacidade de deslizar entre o micro e o macro, o restrito e o amplo, o individual e o social. Tornar algo que primeiro foi sozinho em algo que agora, é de todos.

Faço uso do exemplo de uma canção de domínio público. Essa melodia pode ter sido imaginada por uma só pessoa, em seus circuitos cerebrais, concretizada em assobios no passado, escrita em cadernos como rascunho e executada em um instrumento simples como um violão ou um piano. Naquele momento, é resultado de uma criação que agora é externa, não mais interna. Porém, ainda individual, particular, com sentido afetivo único e significado pessoal.

Essa canção, ao ser tocada e apreciada por outro organismo vivo, outro sistema auditivo, é então social. A ela são atribuídos novos sentidos, novas lembranças e quem sabe, modificações próprias, pequenos acréscimos, uma nota ali, outra nota aqui.

962b4-escherrelativity

A criação se perde do criador, é compartilhada e com um certo correr do tempo, torna-se domínio público. É de todos no extremo de sua desvinculação com seu dono original, não mais de um. Livremente modificadas e compreendidas são também nossas atitudes, nossas palavras e nossos silêncios. Somos de domínio público, a não ser que guardemos um pouco apenas para nós mesmos.

Como disse, não é algo coerente, mas sim uma percepção banal, nenhuma novidade. Eu dentro de mim e eu fora de mim.

Recentemente li um excelente texto do psicanalista Joel Birman (1999) e não pude deixar de constatar sua veracidade. Segundo o autor, desde o surgimento da cultura do narcisismo e do espetáculo em que vivemos, observamos uma nova modalidade de existência do sujeito, que é ao mesmo tempo autocentrado, voltado para si mesmo, e voltado para fora de si, para o mundo externo. É a valorização do meu eu no mundo que interessa. A exaltação do eu.

Sou na medida que me reconhecem. Apenas isso. Caso contrário, não sou nada, e adoeço. Viramos pessoas de domínio público? Estamos constantemente sofrendo transformações alheias à nossa vontade?

É impossível não prever que clamem por limites em um futuro próximo. Enquanto isso, negligenciamos nossos próprios desejos, mesmo que, muitas vezes, nem saibamos direito do que se tratam.

Referências

BIRMAN, Joel. O sujeito do colarinho branco. O dentro-de-si e o fora-de-si nas figurações atuais da subjetividade. In: BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. p. 151-173.

Anúncios

Quero saber a sua opinião. Deixe o seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s