O absurdo, longe (ou perto) de nós

Desde que se tornou um hábito acompanhar notícias na internet, leio quase diariamente os destaques de alguns jornais, afinal, é importante saber o que acontece por aí. No entanto, outro hábito ainda mais interessante é acompanhar as notícias bizarras.

Nesse caso, atribuo dois sentidos distintos à palavra ‘bizarro’: o primeiro como extravagante, ou curioso e até mesmo divertido, o segundo como assustador e absurdo.

Na primeira categoria vejo notícias como “Homem encontra peito de frango com imagem de Jesus” ou “Mulher que usou bacon para incendiar casa do ex tenta atenuar pena”. Confesso que são divertidas.

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Ilustração: Steve Cutts

Mas não é sobre esse sentido que quero falar, e sim sobre o segundo. Quantas atrocidades vemos acontecer todos os dias em diversas partes do mundo? Quantas violações da liberdade, da privacidade ou da intimidade? Perto e longe de nós, são notícias assustadoras.

Leio notícias de homossexuais sendo espancados e discriminados, mulheres que se candidatam a uma vaga na polícia da Indonésia sendo submetidas a testes para checar sua virgindade, cidadãos americanos sendo decapitados e executados em frente às câmeras, dentre outras notícias que não precisamos nem procurar para tomar conhecimento.

Vivemos em negação, não tenho dúvida, apesar da realidade se afirmar a cada dia. E talvez seja melhor assim. Como afirma Enriquèz ao citar Freud, nos separamos em parte da realidade e “se percebêssemos todo o mal e se o assumíssemos, seria impossível viver” (Enriquez, p.70, 2001).

Vivemos dia após dia sabendo (e procurando não saber) que tudo isso e muito mais acontece. Não é só agora, sempre aconteceu. O conhecimento de tudo isso nos chega com maior rapidez e de forma quase inevitável. Sabemos que a história da humanidade é feita de violência, poder e dominação, no entanto, atualmente se torna impossível não constatar isso a cada dia.

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Me pergunto que mecanismos estamos utilizando para manter nosso equilíbrio mental e quanta energia temos dedicado a essa negação da realidade, e até que ponto isso não nos torna passivos.

E não consigo evitar a questão que Freud se formulou há tempos, ao indagar “se, e em que medida, a sua evolução cultural (da humanidade) poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelos instintos humanos de agressão e autodestruição” (Freud, p.79, 1971).

Referências

ENRIQUEZ, Eugène. Instituições, poder e “desconhecimento”. In: ARAÚJO, José Newton Garcia; CARRETEIRO, Teresa C. (Org.). Cenários Sociais e Abordagem Clínica. Belo Horizonte/São Paulo: FUME/Escuta, 2001. p. 49-74.

FREUD, Sigmund (1930). O mal estar na civilização. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1971. v. XXI, p. 73-171.

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6 Respostas para “O absurdo, longe (ou perto) de nós

  1. É algo assustador pensar que de alguma forma contribuímos pra tudo isso, seja em simples detalhes que passam despercebidos, como apoiar um parente ou conhecido que cometeu algum crime, pelo fato dele ser da família e achar isso natural. São pequenas coisas que fora dum contexto se tornam menos importante. Tonarmo–nos passivos, sem tomar consciência

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  2. Pingback: Em busca de uma opinião sensata | Mais uma Opinião·

  3. Acho que a violência sempre existiu, desde os tempos remotos; crimes bárbaros sempre aconteceram. O que nos deixa cansados hoje em dia são os meios de comunicação! Em todos os lugares, seja pela tv, internet, rádio, vemos a mesma notícia várias e várias vezes com detalhes sórdidos porque isto gera ibope!!! A saída é procurar por jornalismos diferentes (e existem) que além de informarem sobre acontecimentos trágicos, mostram outros tipos de notícias que não são divulgados nos grandes noticiários globais.

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  4. Excelente reflexão!
    Acho que hoje em dia existe uma certa “banalização” da violência. Ela está em todos os cantos e basta que se ouça 5 minutos de rádio para ficar sabendo de uma dúzia de crimes horríveis. As pessoas perderam um pouco da capacidade de se chocar e atualmente todo mundo vive como numa selva: matar pra não morrer.

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